* Aluizio Palmar
Jaime de Oliveira subiu todo estabanado os dois lances de escada da prefeitura. Dobrandino havia assumido poucos dias antes e naquela tarde calorenta de janeiro a sala que antecede o gabinete estava cheia. Eram secretários esperando para despachar, empreiteiros para fechar negócios e outros que diziam estar ali apenas para cumprimentar o prefeito recém empossado. Alvir Preissner, que era o chefe de Gabinete, pediu para o Jaimão, que suava às bicas, esperar um pouco. Sérgio Marder, o homem da Redran, balbuciou que era sua vez de ser atendido. Plantado junto à porta que dá acesso ao gabinete do prefeito, o diretor de Administração, Elói Lohman, segurava uma pilha de pastas.
Mas o velho jornalista, editor do semanário Tríplice Fronteira, não quis saber de ficar tomando cafezinho e jogando conversa fora. Ele estava convencido de que sua missão era mais essencial que o dia-a-dia burocrático da administração pública. De súbito, Jaimão segurou a maçaneta, abriu a porta e foi entrando na sala aonde o prefeito despachava com o secretário da Fazenda, Hugo Galeano. “Dobrandino eu tenho aqui uma coisa muito importante para te mostrar”, disse o Jaimão com aquele vozeirão que era a sua característica. Pasmo, pela audácia do jornalista, Alvir entrou na sala e olhou pro Dobrandino esperando uma “mijada” do chefe. “Eu já disse pra ele que essas coisas de verbas para a imprensa é lá embaixo na Comunicação”, disse o Chefe de Gabinete, tentando explicar aquela entrada repentina e impetuosa do veterano jornalista na sala do todo-poderoso.
“Que mané verba, cara, não vim aqui pra isso”, disse o Jaimão enquanto tirava uns potes de uma sacola de plástico, enfileirando-os em cima da mesa, junto aos decretos, portarias e a posição financeira do Município que Hugo estava apresentando ao prefeito. Eram cinco ou seis os recipientes de vidro, que um dia devem ter servido para embalar nescafé ou maionese. Dobrandino olhou as vasilhas sobre a mesa e perguntou: “Que é isso, algum veneno ou é macumba da braba?”.
Foi então que o velho Jaime de Oliveira com voz impostada disse solenemente: “Aqui está a solução para resolver o problema da fome”. Em seguida ele abriu um dos potes, esparramou alguns grãos em cima do vidro que cobria a mesa do prefeito e disse: “Pegue Dobrandino, experimente”. Impaciente, o cacique político, apanhou um punhado daqueles grãos e os levou a boca. Deu uma mastigada, engoliu, e com cara de quem não estava entendendo nada olhou pro Hugo, pro Alvir e disse dirigindo-se ao Jaime: “E agora, diga logo quanto você quer de verba”.
Emburrado, o velho jornalista juntou seus potes, pôs todos eles na sacola de plástico e saiu do gabinete subitamente, do mesmo jeito que havia entrado. Antes, porém, disse bem alto para todos ouvirem: “Prefeito, o senhor não captou a minha mensagem”.
* Aluizio Palmar é jornalista em Foz do Iguaçu.
http://aluiziopalmar.blogspot.com/
aluiziopalmar@compubras.com.br
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