“Formamos muitos profissionais para atuar em vários lugares, e tem-se confirmado com a absorção dessa mão-de-obra em outros municípios, estados e até em outros continentes”. A afirmação é do professor Mauro José Ferreira Cury, que assumiu a coordenação do curso de Turismo da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) em novembro de 2009.
O H2FOZ entrevistou-o na busca de levantar esclarecimentos sobre a relação do primeiro curso de turismo de Foz do Iguaçu com a comunidade. A conversa também aborda o mercado de trabalho, as contribuições cientificas, as dificuldades institucionais, a economia local, entre outras questões.
Formado em Geografia e Estudos Sociais pela Faculdades Integradas de Uberaba (FIUBE), Cury é professor doutor em Geografia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Fez mestrado em Ciências da Comunicação Área Publicidade Propaganda e Turismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).
Portal H2FOZ - Qual é a principal contribuição do curso de turismo para a cidade?
Mauro José Ferreira Cury - No início veio atender uma reivindicação do setor, constando no Plano Diretor de 1967 e também em 1980 quando se realizou o I Seminário de Turismo de Foz do Iguaçu, com todas entidades representativas, que na mesma época também reivindicou a criação da SMTU. Até o início dos anos de 1990 era o único curso de graduação de turismo, público, e ao longo deste período o município também recebeu outras instituições de ensino privadas para formação na área. Considero que entre as contribuições que o Curso de Turismo oferta é a formação para gestão publica, atuando diretamente com a elaboração de políticas publicas e ordenamento da atividade, além de se ocupar da compreensão dos fenômenos na área, com a realização de estudos sobre o perfil da demanda, impactos sobre a atividade.
Entretanto, o Curso tem apenas 30 anos, a profissão ainda não é reconhecida, mas tem ocorrido uma modificação na esfera pública com a constituição do Ministério do Turismo e tudo isso soma com a atuação do profissional.
Mas, no momento da criação do Curso de Turismo pela FACISA aos dias atuais, nota-se a relevância da atividade turística para o município. Por se tratar de uma atividade dinâmica e complexa o Curso passou por vários Projetos Políticos Pedagógicos – PPP’s, inicialmente com o auxílio de Profissionais de outras Instituições de Ensino Superior, hoje com a demanda e qualificação constante do quadro docente as alterações são realizadas pelos docentes que compõem o Colegiado do Curso de Turismo.
Inegavelmente a contribuição para o município vem a ser a qualificação profissional para os profissionais de Turismo enfim para a sociedade.
H2FOZ - Quais são as dificuldades enfrentadas pelo curso de turismo da Unioeste?
Cury - A princípio não se evidencia uma dificuldade do Curso na Instituição propriamente dita, mas que o Curso passa por avaliações periódicas que na maioria das vezes não corresponde com a mesma velocidade do mercado em propor novos tipos de comportamentos. O curso de turismo, como qualquer outro precisa de constante atualização de acervo e qualificação. Ocorre ainda em função da regulamentação da Profissão do Turismólogo uma falta de valorização profissional e uma aceitação da sociedade de Turismo em Foz do Iguaçu para a colocação do Bacharel no Mercado de Trabalho. Ainda não ocorre um entendimento da sociedade em conhecer a função do Profissional de Turismo, assim como em outras carreiras, que até então não conseguiram uma regulamentação e outras que estão deixando de ser regulamentadas, a exemplo de Jornalismo. Deve-se olhar para essa questão da regulamentação com cautela. Enfim, não há dificuldades que não possam ser geridas pelo Curso, pois há uma clareza sobre nosso papel e a importância desse fenômeno, no entanto, como disse a velocidade entre as demandas são um desafio de permanente. No entanto, internamente, vejo uma carência e não uma dificuldade, mas sim de produção científica, nesse ponto eu afirmaria que a dificuldade é de compreensão por essa importância e, está na identidade do docente com a área que atua e tem a responsabilidade de formar cidadãos capazes de ver sua importância junto à sociedade.
H2FOZ - A relação do curso de turismo com a cidade pode melhorar em qual aspecto?
Cury - Na representação oficial. Explico. O órgão oficial de turismo precisa efetivamente, em algum momento da história da gestão pública do turismo, ser representado pelo profissional bacharel em turismo, diferente do que vem ocorrendo desde os anos de 1980, ora por hoteleiros, ora por agentes de viagens, o que acaba por ser um determinante das ações, das descontinuidades de planos, como também a falta de um olhar especifico para o interesse público – coletivo. Fora isso, considero que o Curso estará sempre sendo impedido de melhorar essa relação com a cidade, de forma direta ou indiretamente. Ou seja, seria de fato uma oportunidade de gestão ou trato da política pública, com resultados mais concretos contribuindo para melhor compreensão por parte da sociedade e dos empresários de Turismo do papel do Bacharel em Turismo e sua atuação nos diferentes ramos que a atividade proporciona.
H2FOZ - O município absorve, de forma plena, os profissionais formados pelo curso de turismo?
Cury - Na medida em que ocorre a oferta e ocupação de cargos, o que se tem noticia é de uma correspondência adequada às funções. Entretanto, como o Curso não forma para atuação no mercado (área privada) e sim para o gestor público, a relação de oferta neste caso é limitada, até reclamada. É comum ouvir algum empresário falar que o acadêmico sai sem saber fazer uma reserva de agência. Oras, estamos certos, afinal, não há que se dedicar quatro anos numa universidade para operar sistemas de reservas, isso se obtém em cursos técnicos, de curta duração. Enfim há que se notar que essa absorção que o mercado reclama não é o que o curso propõe em momento algum. Vê-se a atuação em consultoria de empresas e destinos, mas isso o mercado não tem interesse, ou melhor, cultura nesse tipo de investimento. Estou falando do que verificamos internamente, não é uma generalização. Porém, por outro lado, formamos muitos profissionais para atuar em vários lugares, e tem-se confirmado com a absorção dessa mão-de-obra em outros municípios, estados e até em outros continentes – temos profissionais na América do Norte, na Europa, Nova Zelândia, em Dubai, enfim, em Cruzeiros.
H2FOZ - O Curso de Turismo da Unioeste existe desde 1984. Ainda existe mercado de trabalho para os futuros formandos?
Cury - Sempre haverá porque a sociedade e o mercado estão em constante renovação em função de ser uma atividade ligada ao processo de Globalização, e, para o Curso de Turismo isto é uma preocupação é que nos faz refletir constantemente sobre as exigências profissionais. A qualificação dos atrativos de Foz do Iguaçu, como o Parque Nacional do Iguaçu, a mudança da missão de Itaipu com a inserção do Turismo, como as melhorias na qualificação hoteleira e de agenciamento. O planejamento do ordenamento espacial do turismo nas margens do Lago de Itaipu e até mesmo a criação do Ministério de Turismo com programas e projetos relacionados aos municípios, provocou um aumento da demanda de bacharéis em turismo para o mercado de trabalho.
H2FOZ - Como a cidade pode contribuir para a valorização do curso de turismo?
Cury - A cidade em sentido “latu” já contribui. O Curso de Turismo da UNIOESTE está inserido num contexto único e isso tem sido subsidio permanente para estudos e pesquisas – estamos num “laboratório” social, econômico, cultural e ambiental, excepcional para discutir e refletir sobre o turismo. Entretanto, essa relação pode ser melhorada na medida em que não somente a cidade seja objeto de contribuição na experiência, mas que também o Curso de Turismo possa ser uma necessidade como representação e opinião, uma liderança. Nesse sentido a “cidade” e seus lideres precisariam dar essa importância. Por exemplo, em outras localidades todos os fatos que dizem respeito a uma determinada área, a academia é chamada a emitir sua opinião. Em Foz do Iguaçu, quando qualquer fato que diga respeito ao turismo, ou mesmo tendências, as entidades convocadas a falar são aquelas que detém poder econômico e não o saber. É uma troca, e essa intensidade de troca pode ser melhorada no tempo, nos estamos preparados para o debate, além da representatividade.
H2FOZ - Para o senhor, o turismo é realmente o carro-chefe da economia local?
Cury - Deveria ser, mas não é. Ou seja, no discurso sim, na prática não. Há uma distancia grande entre ambos. Vários estudos realizados demonstram que essa equação não é perfeita, ou se ocorre é em desigualdade. Com essa questão, penso imediatamente e sustentabilidade. Dificilmente pode-se admitir que isso ocorra. Considero que pode ser o “carro chefe” para algumas empresas e empresários, no entanto para a maioria não. Uma confirmação disso ou resposta direta pode ser encontrada olhando para a região da vila portes, ponte da amizade e todos os ônus sociais que diariamente verificamos nas ruas de nossa cidade, onde o turismo deveria ser o principal instrumento de redução de desigualdades e distribuição de riquezas.
Por outro lado, o mercado e algumas lideranças insistem em aumenta a demanda, divulgar mais e repetem há mais de décadas que Foz do Iguaçu é o segundo destino de Turistas Internacionais no Brasil, isso já mudou e o discurso não. Por outro lado, mega eventos como a Copa de 2014 e as Olimpíadas no Rio de Janeiro em 2016, tendem a induzir esse raciocínio, por uma maior oferta de serviços e de pessoas qualificadas para o Turismo – uma “janela”.
H2FOZ - Qual é a sua avaliação sobre os trabalhos das entidades publicas e privadas ligadas ao turismo? Onde elas acertam e erram na condução do turismo local?
Cury - Em geral todas cometem o mesmo passo – buscam atender a interesses individuais sem consulta a comunidade sobre os resultados que irão lhe causar efeitos diretos e indiretos. Como isso é visto como uma cultura que foi sendo formada a respeito de como tratar a gestão do turismo, não há que se falar em certo ou errado quando não se tem o caminho a ser seguido. Diria que estão na contramão.
Para citar algumas situações em que o Curso esteve mais próximo dessas entidades, e uma das positivas iniciativas e que houve a participação do Curso de Turismo da UNIOESTE com a participação em estudos altamente técnicos e especializados, que confirma o comentado acima. O primeiro, entre vários exemplos, foi a sistematização de estudos a respeito da oferta e demanda turística do município e região – inventário turístico realizado há mais de duas décadas e que até então só permanece sem aplicação direta pelo setor – vira uma etapa de catalogação e não tem sido efetivado seu uso. Outro momento foi participar diretamente na elaboração e monitoramento do TurPlan – Plano de Desenvolvimento do Turismo de Foz do Iguaçu, lamentavelmente deixado não só de lado, mas ignorado em suas diretrizes, o que poderia ter resultado após uma década em outra realidade, social e econômica.
Ainda por citar, outro ícone de atuação do Curso foi o Programa de Conscientização Turística realizado pela FOZTUR no período de 1990 a 1998, que teve o mesmo destino do TurPlan entre outros projetos.
Onde ocorrem os erros por, assim dizer na contramão do processo? Na falta de continuidade. Somos uma cidade de vocação turística e inacreditavelmente não existe um Plano de Desenvolvimento Turístico de Foz do Iguaçu, mudam-se os políticos, matam-se a continuidade de projetos que deveriam ser brilhantes. Já participei de Congressos Internacionais em que Foz do Iguaçu foi citada como referencia Nacional em seu modelo de desenvolvimento e hoje não temos estruturas para a seqüência de prioridades de planejamento para nossa cidade. Os Planos devem ser a longo e médio prazo, não se pensa na cidade que queremos para daqui a 20 anos.
H2FOZ - De que maneira o curso de turismo pode contribuir para qualificar o debate sobre os caminhos do turismo no município?
Cury - Já participamos de vários Conselhos como o COMTUR, CONPARNI, Fórum de Governança Regional, Fórum Cataratas e Caminhos, Grupo Gestor dos 65 Municípios Indutores do Ministério do Turismo, Desenvolvimento de Turismo Rural pela APROFOZ. Entretanto, o Curso poderia participar de forma ad-hoc em vários outros momentos, como da comissão de turismo da Câmara, das entidades, Plano Diretor, além de servir de consulta para outras demandas do setor.
H2FOZ - Para o senhor, a mídia cobre de forma satisfatória o debate que envolve o turismo? Como ela pode qualificar a cobertura jornalística especializada?
Cury - Sempre que necessitamos ocorre à divulgação, seja das atividades do Curso e de apresentação de resultados e até de realização de pesquisas. Faz-se ainda uma maior aproximação. Entretanto, é necessário sempre distinguir cada mídia e seu papel. Como se trata de varias ocorrências que envolvem o turismo em Foz do Iguaçu, não se tem noticias, de uma integração da mídia que desse essa cobertura. Ela poderia iniciar uma cobertura jornalística especializada, a resposta é a mesma da pergunta. Ou seja, participando das ações dos cursos, das empresas, do setor público, realmente considerando que há uma série de ocorrências e não se vê a mídia ocupando seu papel de em vários casos trabalhar com a opinião pública. Exemplos? Dois para ilustrar. Quando teve a “recuperação” do prédio do hotel cassino para entrega ao SENAC, quanto de noticia foi produzido para alertar sobre as alterações no prédio histórico, a comunidade sequer viu, sabe do ocorrido. Outro é a casa de Moises Bertoni com uma faixa de vende-se e???? Que mídia está interessada em tratar das responsabilidades, especialmente da responsabilidade do Estado com a Cultura local? Enfim, para pensar que há muito que fazer, e a imprensa atuante com a causa do turismo seria fundamental nessa mudança de realidade.
(Portal H2FOZ - Alexandre Palmar)
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No Título acima diz: Turismóĺogos formados pela Unioeste atuam vários Países.
Prezado SR Mauro José Ferreira,
O Curso de Turismo no Brasil, tem reconhecimento em quais paises?
Quais seriam as vagas para esses turismólogos fora do Brasil?
Porque muitos brasileiros optam em trabalharem em outros países, do que no seu páis de origem?
É possível começar uma pós graduação ou até mesmo um mestrado, na área de Turismo e concluir em outro País? Quais seriam as Faculdades ou Universidades, que fornecem essas oportunidades?Em algumas pesquisas, observei que o Curso de Turismo em algumas Faculdades, não estão fechando turmas.Qual é o problema do Curso de Turismo não ser procurado? Porque os Cursos Técnicos em Turismo, são os mais procurados? Será que a diferença é no tempo de estudo?
Sou Graduada em Turismo com Ênfase em Hotelaria, Eventos e Turismo Rural pela Faculdade Cristo Rei "FACCREI" de Cornélio Procópio- Paraná e atualmente faço Licenciatura em Turismo, pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná.
Cordialmente,
Cristina Pinheiro
(41) 8843 2430
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