H2Foz

A noite do desabafo

Eu venho acompanhando os acontecimentos da Câmara Municipal há cinco legislaturas. Há vinte anos a história vem se repetindo. Vereadores são eleitos por determinado partido e alguns meses após a posse mudam de mala e cuia para o partido do prefeito.
 
Até que antes a troca de partido não era tão descarada. Lembro-me do escândalo que foi armado quando a Zuleide Ruas Lucas trocou o MDB pela Arena. Isso aconteceu no final da década de 70. Naquela época o prefeito era o coronel Clóvis Cunha Viana. 

Mas a degringolada começou mesmo foi em 89, quando um grupo expressivo de vereadores eleitos pelo PMDB acompanhou o então prefeito Álvaro Neumann em sua mudança para o PSDB. Neumann, eleito pelo PMDB, rompeu com Dobrandino, que pretendia continuar dando as cartas na prefeitura. 

O velho cacique foi à guerra denegrindo pelos quatro cantos da cidade o seu sucessor. Dobrandino, havia sido prefeito com mandato tampão no período 86/88. A campanha de 92 a disputa polarizou entre os candidatos Dobrandino e Sérgio Beltrame e foi marcada pelos discursos enfurecidos dos peemedebistas contra Álvaro Neumann, seu candidato e a bancada do PSDB. Eleito com expressiva votação Dobrandino tratou em seguida de dominar a Câmara Municipal. Graças às articulações de Zizo e as benesses do poder vereadores tucanos deixaram o ninho e voltaram para o PMDB de cabeças baixadas.. 

Dobrandino manteve a maioria esmagadora até o final de seu mandato. Na gestão seguinte (93/96), os articuladores passaram a ser Paulo Ynoe e Adilson Rabelo. Dessa vez foram os peemedebistas, de carteirinha ou não, que passaram a apoiar Daijó e, em troca de alguns favores, votaram, inclusive, pela rejeição das contas do ex-chefe. Aliás, este foi o motivo pelo qual Dobrandino teve seus direitos políticos suspensos. 

Naquela ocasião, o diretório do PMDB, reunido em peso na Chácara do Pinheiro, declarou guerra aos “traidores”. Zizo chegou a acusar aqueles vereadores de terem sido comprados. “Todos eles comiam na casa do Dino e agora viraram o cocho”, declarou irritado o irmão mais velho na histórica reunião de casa cheia, conhecida como “a noite do desabafo”. 

Reunidos em clima de alta emoção os peemedebistas deram início mais uma vez a caça às bruxas.Vingança e expulsão eram as palavras-de-ordem mais ouvidas. Os vereadores do PMDB e dos partidos aliados, que votaram a favor da rejeição das contas de Dobrandino, foram satanizados e taxados de traidores, enquanto Vânio e Adilmar Sartori saíram da reunião consagrados como heróis e guerreiros peemedebistas. Dias antes,Vânio, filho de Zizo, sobrinho de Dobrandino e primo do atual prefeito Sâmis da Silva, havia sido acusado de falta de decoro e por isso suspenso, com o voto, inclusive, de seus correligionários, para ser julgado por uma Comissão Processante. O único voto que teve a seu favor foi do amigo Adilmar Sartori. Os demais seguiram o Rabelo que pedia a cabeça do filho de Dobrandino numa bandeja. 

Hoje, a história se repete. Muitos daqueles que foram considerados traidores estão ocupando cargos e voltaram para o PMDB. É como disse Dobrandino na reunião do perdão, realizada dia desses na sede da rua Santos Dumont, “um bom filho a casa torna”. “Ainda mais quando a casa é opulenta e a mesa é farta”, completou uma veterana militante peemedebista. 

* Aluizio Palmar é jornalista em Foz do Iguaçu.
http://aluiziopalmar.blogspot.com/  
aluiziopalmar@compubras.com.br  

      Facebook
Comentários compartilhados no Facebook.
      Twitter
Compartilhamentos e retweets no Tweeter.
 
Comentários
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. O Portal H2FOZ não é responsável pelo seu conteúdo.