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Off-set e rebeldia

* Aluizio Palmar 

Mulher culta e com tino para os negócios, Ignez Sanches de Christo, foi a pioneira na impressão off-set em Foz do Iguaçu. Desde 1968, ela vinha editando mensalmente a revista Cataratas, uma publicação de variedades e notícias da fronteira. Mais tarde passou a publicar o Mini Informativo, um folder semanal, com a programação do Cine Star como seu carro-chefe e distribuído na bilheteria do cinema da família Basso, localizado na Avenida Brasil. 

Tanto o Cataratas como o Mini Informativo eram montados no sistema tipográfico. Palavras e frases surgiam juntando letrinhas e sinais de chumbo fundido. A chegada da máquina off-set no início da década de 70 agitou o meio gráfico da Foz do Iguaçu pré Itaipu. Velhos tipógrafos, de vista cansada, peregrinavam diariamente até o casarão da Almirante Barroso para conhecer o milagre da tecnologia, que aposentava os tipos e clichês. Alguns torciam o nariz premunindo que aquela coisa iria um dia encostá-los de vez, outros, curiosos, queriam saber como as escritas e imagens eram gravadas numa chapa de metal e a impressão era feita por meio do contato desta com o papel. 

Nada extraordinário, mas o Mini Informativo foi uma publicação que marcou época, mais pela apresentação gráfica do que pelo seu conteúdo. Além da programação semanal do Cine Star, alguma notícia oficial e o resto eram anedotas, dicas e curiosidades – essas coisas que até hoje são publicadas nos tradicionais almanaques da indústria farmacêutica brasileira. 

Além da impressão off-set, o extraordinário, não tanto para a época, mas para a Foz do Iguaçu de então, era o comportamento dos filhos de dona Ignez. Rebeldes, mais para hippies do que para revolucionários, em várias ocasiões eles escandalizaram a sociedade conservadora, neourbanizada da cidade que possuía na época pouco mais de 20 mil habitantes. Pedro, que eu vim conhecer mais tarde, era um contestador das tradições burguesas e devorador de livros. Jóia, usava cabelos soltos e saias compridas, como os hippies, especialmente no que respeita à aparência pessoal e aos hábitos de vida. 

Naqueles tempos negros, quando o general Garrastazu Médici, tratava os dissidentes com prisão, tortura e morte, a menina Jóia de Christo foi o contato de organizações de esquerda na fronteira. Pelas mãos dela passaram muitos militantes da Polope ( Política Operária), partido de tendência trotskista, a caminho da Argentina e do Chile. Fizeram história, não oficial e inovadora, nesta Tríplice Fronteira.

* Aluizio Palmar é jornalista em Foz do Iguaçu.
http://aluiziopalmar.blogspot.com/  
aluiziopalmar@compubras.com.br  

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