Em 1942, com a decretação da Lei da Fronteira, policiais e militares passaram a agir com extremo rigor no controle dos imigrantes alemães.
Durante a caça aos “espiões nazistas” as perseguições eram desencadeadas a partir de informações fornecidas principalmente por vizinhos. Uns para fazer média com as autoridades, outros por pura ignorância.
Acredito que foi a ignorância dos matutos, moradores da zona rural de Foz do Iguaçu, que levou à prisão de Augusto Gunther, morador na região da Sanga Funda.
Há tempo que a vizinhança cochichava que havia algo estranho lá pros lados da chácara dos Gunther. Depois de alguns tragos de cachaça este era o assunto que rolava nos boliches de Sanga Funda, Santo Alberto e Aparecidinha. Houve até quem jurasse ter ouvido discursos de Adolf Hitler no meio da noite. Outros diziam que uma luz muito forte acendia quando o dia amanhecia.
Como toda fofoca contada ao pé do ouvido, o caso dos Gunther ia sendo acrescentado de novos detalhes, na medida que era passado pra frente. Com o tempo já diziam que o Gunther possuía um potente rádio transmissor e por meio dele mandava mensagens para a Alemanha.
E pra frente a história foi , até que um dia um hortaliceiro comentou o caso numa mesa de truco na Rua do Lamarque, hoje a Santos Dumont. Pra que! Participava do carteado o temível comissário de polícia João Batista Franco, conhecido como João Barulho. Naquela noite o comissário ficou quieto. Mas antes do dia amanhecer ele organizou uma patrulha e se enfiou pela estradinha carroçável, hoje a Avenida Felipe Wandsher, em direção a Sanga Funda. Chegou na chácara do “espião do eixo” quando o Gunther tirava leite da única vaca da propriedade. O comissário não quis conversa, prendeu o chacareiro, tirou as armas de caça que ele possuía e o fez caminhar sob a mira dos mosquetes até o Batalhão. August Gunther ficou preso uma semana e só foi solto quando os militares descobriram que tudo não havia passado de fofoca e precipitação do João Barulho.
O rádio transmissor de alta potência nada mais era do que uma hélice de bambu, com as pontas das pás cobertas por folhas de zinco, que os filhos de August colocaram em cima de um frondoso lapacho que dava sombra ao potreiro.
Provavelmente alguém, em tempo de paranóia coletiva, viu a hélice de longe, refletindo as primeiras luzes do dia e assim começou a deitar a falação no imaginário coletivo do povo da roça.
* Aluizio Palmar é jornalista em Foz do Iguaçu.
http://aluiziopalmar.blogspot.com/
aluiziopalmar@compubras.com.br
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