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Uma história da eleição de 82

* Aluizio Palmar 

Ele era conhecido na Gleba Guarani por João Seboso e habitava, há anos, uma casa de madeira com uma pequena varanda onde gostava de jogar tranca em família aos domingos. Durante anos trabalhou vendendo bilhete de loteria, até que um dia, aborrecido, largou da profissão e entregou-se de corpo e alma à política, à intriga partidária, à cabala eleitoral. Toda vez que se anunciava um pleito punha em jogo as mil e uma sutilezas que só o seu espírito sagaz podia conceber. Ele mesmo preparava em letra firme e aprumada os prospectos para distribuir aos eleitores. Na defesa de seus candidatos, discutia, falava alto e com convicção. Mas fazia política visando sempre tirar resultado financeiro nas campanhas eleitorais. 

Dinheiro é o que ele queria, não lhe fossem falar em política sem interesse pessoal. Que ele trabalhava, lá isso era inegável. Andava a pé por toda Três Lagoas e ainda percorria as casas e comercios de conhecidos no Porto Meira e Carimã. Ele dava o couro na busca de votos. 

Por último andava descoroçoado. A única eleição que trabalhou por ideal, por amizade o seu candidato perdeu. Na eleição para vereador, em 1982, ele apostou todas as fichas em seu xará João Nó Cego.
- Perdeu não perdeu, ele não cansava de repetir durante os jogos de tranca, que já não eram apenas aos domingos. 

- Mas que ele ganhou, ganhou. Deu na Rádio Cultura e teve até a carreata da vitória do Oeste Paraná Clube até a Vila Yolanda. Roubaram, deram uma rasteira no xará, ou então, quem sabe, o povo tem razão, ele desistiu em troca de algum dinheiro. 

Aquela eleição foi a que ele mais trabalhou e olha que não foi por dinheiro. Trabalhou e apostou em seu candidato do coração. Foi cabalar voto até no Paraguai. Por isso não se conformava com a derrota de seu candidato, que todos, até os adversários e os mesários, durante a apuração, cumprimentaram como eleito. 

- Agora chega. Como pode um cara dormir vereador e amanhecer segundo ou terceiro suplente? Por que o xará não ficou lá naquele Oeste até sair o mapa final? 

Decepcionado João Seboso largou da política. Ela só lhe trouxera enganos e inimigos. Não estava mais para servir de degrau a figurão algum. Trabalhara que nem besta de carga para no fim das contas ganhar o quê? 

Depois dessa frustração, com efeito, ninguém o viu mais com seus “santinhos” e prospectos, a esbravejar contra os adversários. Por algum tempo voltou a vender bilhete de loteria até que foi embora, dizem que pra Rondônia. 

* Aluizio Palmar é jornalista em Foz do Iguaçu.
http://aluiziopalmar.blogspot.com/  
aluiziopalmar@compubras.com.br  

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