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Anne Carolina Festucci
A empatia como ingrediente para a construção da amizade entre crianças típicas e atípicas

Por Anne Carolina Festucci

Pedroca está um meninão, prestes a completar 5 anos. A cada dia conseguimos perceber mais e melhor as particularidades da sua personalidade. Alegre, engraçado e sarrista. Mas também emburrado e impaciente quando não consegue se fazer entender. A cara braba aparece quando alguém o chama de bebê. E isso acontece com frequência: no elevador do shopping, quando uma mãe fala para o filho: Dá oi para o bebê; no Gramadão, na hora da caminhada, quando o atleta passa correndo e diz: Passeando, bebê?!; nas festas de família, quando a tia que não o vê faz tempo fala: Deixa eu pegar esse bebezão. 

Eu entendo que, em quase a totalidade dos casos, a abordagem é positiva, é uma forma de interagir; a gente sente carinho nas falas. Mas sempre que posso faço questão de explicar: Pedro não é mais bebê, é um menino, tem quase 5 anos, já até tem tarefa da escola. O irmão do Pedro, Tales, que tem 9 meses, esse sim é bebê.... E por aí vai. 

Toda criança gosta de ser mimada pela família e amigos, de receber um dengo. Mas o que tem acontecido com o Pedro é uma forma de reduzi-lo. Como ele não anda nem fala, as pessoas não veem a sua potencialidade, pois se habituaram a ver a deficiência e não o indivíduo. É assim por séculos. É difícil quebrar o padrão. Vejo isso acontecendo com pessoas adultas que possuem algum tipo de deficiência e, por conta disso, são infantilizadas. 

Mas o que é possível fazer para quebrar esse padrão? O que está no meu alcance é conversar! Acredito na força do diálogo e da informação como forma de combater esses estereótipos. E então, sempre que dá, sou mais explicativa ainda: Pedro anda, sim, a cadeira de rodas faz esse movimento por ele. Pedro fala, sim, do jeito dele, com o olhar, com o sorriso, com algumas sílabas.

E no nosso dia a dia já vejo que as barreiras estão sendo quebradas, pouco a pouco, mas vejo. Vou mostrar como os novos tijolinhos do respeito à diversidade estão em construção. 


Empatia, afeto e respeito

Pedroca tem uma melhor amiga, a Laura. Ela é louca por ele. Ele é louco por ela. Coisa mais linda é vê-los juntos. Laura tem a mesma idade do Pedro. Mas, na sua cabecinha ingênua, chamava-o de meu bebê quando se referia a ele para a sua mãe. Quando tive oportunidade, comentei com a Mari, mãe de Laurinha, sobre a importância de explicar que Pedro é criança, menino, não mais bebê. 

Dias depois, conversando com a Mari, ela me contou que, desde o momento em que ouviu de mim que Pedro não era bebê, ela passou a conversar com a filha abertamente. Ela me disse que tinha receio, que ficava cheia de dedos em falar a realidade pra filha. Ela passou a falar para a Laura que Pedro é da mesma idade dela, que ele entende tudo que ela fala pra ele, que entende todo amor que é dado, que gosta dos mesmos desenhos, que tem muitas coisas em comum... Ela falou que a Laura ficou tão feliz, mas tão feliz em saber isso, que agora está até mais animada para andar, nadar, brincar mais vezes junto a ele. É claro que fiquei emocionada ao saber, né! Ver que a curiosidade despertada traz a necessidade de mais esclarecimentos e, melhor, traz empatia, afeto e respeito.

Então, quando me perguntam o que mais desejo para o mundo e para as crianças, eu me lembro das aulas do Mestrado em Comunicação, quando conheci as ideias do filósofo e educador colombiano Bernardo Toro sobre empatia e cuidado. Eu desejo realmente que o motor para combater o preconceito e sermos uma sociedade inclusiva seja a empatia, que é a capacidade que temos de nos colocar no lugar do outro e tentar sentir o que o outro está sentindo. 

E como podemos ensinar empatia para crianças? É possível? Claro que sim, só neste exemplo que contei da relação do Pedro com a Laura já temos algumas formas:

Simplicidade. Quanto mais simples e diretas as explicações, mais fácil é para as crianças entenderem.

Semelhanças. Usar o que as crianças, com e sem deficiências, têm em comum, pois elas gostam de brincar, ouvir histórias, assistir a filmes, etc.

Existem muitas formas de se comunicar. As palavras não são as únicas maneiras para se estabelecer um diálogo. As crianças atípicas podem comunicar-se com o olhar, com expressões faciais, com um sorriso ou esboço de um choro. 

Seja exemplo. As crianças aprendem mais com as nossas ações do que com nossas palavras. Quando nos encontrar por aí, não tenha medo, não fique constrangido, venha falar com a gente. Trate o Pedro, e qualquer outra criança com deficiência, como você trataria as demais crianças. 

Se tiver alguma pergunta, faça. É normal ter curiosidade. Fale para seu filho como todo mundo é bom em alguma coisa e como todo mundo tem alguma coisa a melhorar e aprender. Não se constranja com perguntas esquisitas ou comentários embaraçosos. Eles mostram que seu filho está interessado e curioso o suficiente para fazer contato e perguntar. Pode ser uma ótima oportunidade de desfazer o constrangimento e enaltecer as potencialidades do meu filho em vez de focar nas limitações.

Bom, há muitas mais formas de ensinar empatia. Essas já são um ótimo começo. A inclusão acontece de fato quando é boa para todas as partes. Ninguém nasce sabendo. Nós sabemos o quanto aprendemos com nossos filhos atípicos porque os temos, mas eu mesma preciso admitir que não sabia quase nada sobre isso antes de o Pedro nascer. 

O papel da família na construção da empatia é fundamental para uma sociedade mais inclusiva. E, como diz Bernardo Toro, a pedagogia do cuidado parte do vínculo emocional trazido pelo cuidado familiar desde a infância. Que a cada dia Pedroca e todas as crianças atípicas possam conviver com as crianças típicas em uma relação harmônica de amizade verdadeira. Eu acredito nisso e estou vendo isso acontecer; e você? Venha com a gente também!

Anne Carolina Festucci é mãe do Pedro e do Tales, jornalista, professora e ativista da maternidade atípica e de uma sociedade inclusiva.

nossomundocompedro.com.br é um blog e páginas nas mídias sociais (Facebook e Instagram) que traz toda a potencialidade do desenvolvimento atípico do Pedro e mostra os aprendizados deste caminhada repleta de desaos e muito amor.

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