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Eliana Tao
Parabéns, você foi escravizado!

Por Eliana Tao

Como você lida com a tecnologia no cotidiano? As respostas variam, dependendo da idade e da maneira como a pessoa gosta de levar a vida, mais online ou mais off-line. Seja como for, uma coisa é certa: ela impacta na sua vida, em maior ou menor grau.

Lembro-me da madrinha da minha tia, já do alto de seus setenta e tantos anos. Assistindo a qualquer programa de televisão na casa dela, um comentário da senhora chinesa era recorrente, mesmo na forma de murmúrio esse negócio de www.algumacoisa.com.nãoseioque antes não tinha nada disso! Nem essa coisa aparecia na tela! (o endereço de e-mail ou o link para a fanpage oficial) Mas agora o tempo inteiro é isso!” 

Pois é Dona Ana, os tempos são outros. Essa tal tecnologia vem mudando a vida das pessoas em muitos momentos ao longo do dia: na comunicação, no trabalho, no lazer, na maneira de se relacionar, de adquirir conhecimento e informação. Há tempos já é possível conhecer o mundo sem dar um passo, apenas com alguns cliques no dispositivo de sua escolha. As possibilidades são tantas que surpresa e indecisão são sentimentos comuns atualmente.

A senhora gostava muito de passear e jogar mahjong com as amigas, também me recordo. Se ainda puder desfrutar da partidinha semanal, durante o deslocamento até o local combinado, deve estar pensando com os seus botões que antigamente as pessoas não circulavam pelas ruas imersas no seu micromundo particular, umas com, outras sem fone de ouvido, mas grande parte delas manuseando um negócio de nome complicado chamado smartphone. É hoje à tarde? Claro que vou ver a senhora jogar mahjong e ganhar todas as rodadas! 

É! caminhar cansa, né Dona Ana? Eu sei, principalmente para pessoas de mais idade e possuidoras de algum tipo de dificuldade de locomoção, afinal de contas em muitos lugares a acessibilidade infelizmente é inexistente e quando existe é parcial e desrespeitada. Que tal entrar em um restaurante para descansar e fazer uma pausa para o almoço? O restaurante ali parece bastante convidativo.
 

Hoje grande parte das pessoas são assim: não pedem primeiro o cardápio ou a informação do prato do dia e sim a senha do wi-fi. Para quê?


Não precisa ficar brava! Vamos! Acalme-se! Hoje grande parte das pessoas são assim: não pedem primeiro o cardápio ou a informação do prato do dia e sim a senha do wi-fi. Para quê? Para ficarem mergulhadas no micromundo que está no smartphone de cada um enquanto a comida não é servida. Creio que se a representação da pirâmide de necessidades de Maslow fosse atualizada o wi-fi estaria na base e todo o resto acima dele.

Eu sei que a refeições das outras mesas vai esfriar. Deixa eu explicar uma coisa Dona Ana: o smartphone tem mais fome que os humanos. Como assim? Ele precisa “comer” logo após que o pedido é servido ao passo que a maioria das pessoas têm mais fome de reações e comentários que isso gera nas redes sociais. Ficam procurando o melhor ângulo para a foto, editam, melhoram a imagem, postam nos vários perfis que mantêm na internet, monitoram a repercussão da postagem.

 

Mais um e são tantos, dentre quantos tontos, faz a merda da selfie sorrindo, eterniza essa vida perfeita” de maneira que acabam perdendo bons momentos da vida real...


Depois de todo esse ritual lembram de almoçar propriamente quando, na maioria das vezes a comida já está fria, mas a alimentação física é um mero detalhe quando o ego e a autoestima já estão satisfeitos, afinal muitos agem como canta Jay Vaquer “mais interessante mostrar que esteve do que estar, muito mais importante exibir a vida que viver (...) Mais um e são tantos, dentre quantos tontos, faz a merda da selfie sorrindo, eterniza essa vida perfeita” de maneira que acabam perdendo bons momentos da vida real como ilustrou uma campanha publicitária de uma empresa de telefonia móvel ao som de Spending my time (Perdendo meu tempo), do Roxette.

Entendi! A senhora quer saber o que é wi-fi enquanto aprecia o cafezinho pós-almoço. Sabe quando a vizinha pede uma xícara de farinha, dois ovos ou o vizinho pede para usar a chave de fenda ou até pede uma graninha emprestada? O wi-fi é uma dessas coisas modernas que as pessoas usam um pouco alguém que tem, só que sem devolução. Ah? Também não devolvem os ovos, a farinha, a chave de fenda e a graninha? Então é a mesma coisa, só que não é algo palpável. 

Ficou curiosa para saber como é a minha relação com essas modernices? Depende, Dona Ana. Se é por motivos profissionais que tenho que ficar de olho na imagem institucional nos diferentes meios de comunicação, criando conteúdo o ligado ao dia da secretária, do astronauta, do médico, do bombeiro, dia de recordar o passado com uma #tbt e ficar monitorando a repercussão tudo bem, mas na minha vida pessoal sou mais relaxada: não crio uma enquete para saber se devo ou não mudar o meu corte de cabelo (e talvez por isso tenha ficado tão surpresa quando a minha gestora direta da época disse que eu não consultei ninguém antes da mudança de visual: se esse é um assunto de tamanha relevância a ponto de ser discutido e aprovado pela diretoria da empresa alguém esqueceu de me comunicar isso), nem fico contando coraçõezinhos, curtidas, risadas, desesperada por um autorretrato exótico que me traga uma notoriedade fugaz ou comprando público, enfim vai da minha vontade mesmo, sem dia ou hora certa.

A tecnologia surgiu para facilitar a vida das pessoas, fazendo com que elas tivessem mais tempo, só que parece estar surtindo o efeito contrário...

A tecnologia surgiu para facilitar a vida das pessoas, fazendo com que elas tivessem mais tempo, só que parece estar surtindo o efeito contrário, tanto que um amigo se desculpou comigo por meio de um desabafo “terrível esses dias atuais, com tantas informações e a rapidez dessa comunicação. Agora além de não conseguir responder e-mails, não dou conta de responder WhatsApp: desculpe estar deixando você no vácuo!!”. 

Então essas pessoas conectadas o tempo inteiro estão escravizadas! Só não se deram conta disso ainda! É, Dona Ana! Pode ser. A internet e as redes sociais podem ser consideradas uma escravidão moderna, dependendo de como as pessoas lidam com elas: a maneira como impacta na vida fora das telas podem ser comparadas a grilhões e correntes digitais, sem que a escravidão tradicional como conhecemos tenha deixado de existir completamente.

É positivo e até divertido compartilhar e interagir com outras pessoas no espaço cibernético, mas o mundo real também nos oferece muitíssimas possibilidades, algumas delas mencionadas por Paulo Ricardo em uma de suas canções: “Tantos filmes e livros, tanto pra sonhar, tanta filosofia, tanto pra pensar, tanta coisa a fazer, tanta coisa pra ver (...) Tanta estrela no céu, tanto pôr de sol, Baile, Ilha do Mel, Taihti, Istambul, tanto pra viajar, tanto banho de mar”. E tanta diversão numa tarde com as amigas, não é Dona Ana? Ah! Está com a mão boa, com sorte para o mahjong hoje? Então, bora lá campeã! 

* Eliana Tao é jornalista em Foz do Iguaçu e colunista do H2FOZ.

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