Com poucas bibliotecas nos bairros, estímulo à leitura é desafio em Foz do Iguaçu

Criação de mais espaços de leitura e cultura destinados à comunidade contribuiria para fomentar o gosto pelos livros.

Ler é uma das mais nobres tarefas solitárias. Ativa a imaginação, a percepção de mundo e a empatia. Você, morador de Foz do Iguaçu, gosta de ler? Tem acesso fácil a bibliotecas e a livros? A leitura é um desafio para o Brasil. Entre 2015 e 2019, o país perdeu 4,6 milhões de leitores, segundo a pesquisa Retratos de Leitura do Brasil, feita pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Itaú Cultural.

Em Foz do Iguaçu, o caminho da leitura – quando se trata de espaço público – por enquanto é praticamente centralizado na Biblioteca Elfrida Engel Nunes Rios, que fica na Fundação Cultural. A cidade não tem biblioteca em bairros, com exceção da Vila C, onde foi inaugurada em setembro a da Estação Cultural, voltada para leitura infantojuvenil. No Porto Meira também existia uma pequena biblioteca no Parque Remador Omar de Oliveira, que foi desativada. Hoje o local é retrato de vandalismo.

Ana Freitas: os títulos mais procurados são de literatura infantil e obras que deram origem a séries televisivas – Foto Marcos Labanca

Por ser o centro das atenções quando o assunto é livro, a Biblioteca Elfrida Engel recebe leitores do todos os bairros e neste período da pandemia registrou aumento no número de empréstimos, segundo a bibliotecária Ana Freitas. Os títulos mais procurados são de literatura infantil e obras que deram origem a séries televisivas. Um dos que estão em alta é o livro Anne de Green Gables, que inspirou a série Anne with na E, da Netflix.

Livros clássicos da literatura são mais solicitados por adultos e estudantes que vão prestar vestibular. Os romances de cavalaria, a exemplo de Dom Quixote, estão entre eles. Há também demanda por exemplares de história, principalmente da 2ª Guerra Mundial, diz Ana. Muitas pessoas atualmente desempregadas também costumam fazer empréstimos.

A ausência de mais espaços culturais nos bairros pode ser um dos fatores que contribuem para a falta de interesse pela leitura por parte do brasileiro. Conforme a pesquisa Retratos da Leitura, apenas 52% dos brasileiros têm o hábito de ler.

Cátia Castro: “condições que levassem as crianças a chegarem nestes espaços, a sentirem que esse espaço é seu, é da comunidade”

Pedagoga da rede estadual de educação do Paraná, Cátia Ronsani Castro avalia que a inexistência de mais bibliotecas nos bairros é uma barreira ao estímulo à leitura. Para ela, deveria haver, além de mais espaços, equipamentos e projetos voltados à descoberta e gosto pela leitura. “Não bastaria que apenas tivéssemos a construção física de espaços destinados a ser biblioteca, com acervo e com profissionais capacitados, precisaríamos criar ações, condições que levassem as crianças a chegarem nestes espaços, a sentirem que esse espaço é seu, é da comunidade”, afirma.

Cátia também chama atenção para a importância desse tipo de ação no contexto atual, ou seja, quando se leva em conta a disposição da rede estadual de educação em investir na educação mecanicista, propondo avaliações com questões objetivas, modelo que não valoriza a leitura. O fomento à leitura e à cultura seria um contraponto importante, isto é, necessário para se ter uma sociedade com espaços que afirmassem mais a importância da cultura universal, salienta.

Nathalie Husson: é fundamental multiplicar projetos comunitários nos bairros. – Foto Marcos Labanca

Livreira radicada há mais de 30 anos em Foz do Iguaçu, Nathalie Husson tem uma trajetória no mercado editorial e acumula muita experiência de leitura do seu país de origem, a França, onde o livro é considerado um artefato de valor. Ela ressalta que é fundamental multiplicar projetos comunitários nos bairros, visando a descentralizar as atividades culturais, além de reformar e organizar a biblioteca pública com acesso digital nos moldes das Mediatheques (midiatecas) francesas. Na França, até mesmo as menores cidades contam com Mediatheques, espécie de biblioteca multimídia, informatizada. Outra ação essencial seria ter uma política de compra de acervo.

Para Nathalie, a realização de feiras de livros na cidade se justificaria caso houvesse amparo de políticas públicas de incentivo à leitura, o que deveria ocorrer durante todo o ano. Por isso, é preciso multiplicar os projetos de leitura nos bairros.

Na Vila C, projeto da Unila estimula
leitura em crianças e adolescentes

Vivendo Livros Latino-Americano fomenta leitura em crianças e adolescentes na Vila C – Foto Divulgação

Um projeto de extensão da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) fomenta a leitura em crianças e adolescentes na Vila C. Implantado na Estação Cultural João Sampaio, antiga Biblioteca Cidadã Paulo Freire, o projeto tem foco no seu público específico. Para isso, são organizadas práticas de mediação de leitura. No acervo, há cerca de 600 livros infantojuvenis.

O projeto é coordenado pela professora do curso de Letras da Unila Mariana Cortez. Denominada Vivendo Livros Latino-Americanos, a iniciativa recebeu recentemente US$ 10 mil do Programa Ibero-Americano de Bibliotecas Públicas. A partir desse aporte, foi possível fazer uma ação conjunta com a Fundação Cultural na Vila C para colocar em prática o Projeto Vivendo Livros: construindo uma biblioteca com a comunidade. O recurso do programa será investido na compra de livros, materiais audiovisuais e mobiliário.

“É uma experiência bastante positiva. As crianças são muito interessadas e querem muito que o espaço dê certo. O objetivo é que as crianças se sintam parte”, ressalta Mariana. Ela ainda conta que hoje há muitos livros para jovens disponíveis no mercado editorial, porém eles não chegam às escolas, dificultando o acesso à leitura.

O hábito de ler está sendo bastante estimulado no público jovem e infantil por meio de programas no YouTube apresentados pelos chamados booktubers, jovens que falam sobre livros e dão dicas de leitura. Outra porta de entrada de leitura nessa faixa etária são as séries em canais de streaming inspiradas em livros.

Bibliotecas são mantidas por voluntários
nos bairros Cidade Nova e Cognópolis

No Holociclo, há um acervo de 7.428 dicionário temáticos e idiomáticos – Foto Divulgação

Em dois bairros de Foz do Iguaçu, Cognópolis e Cidade Nova, há tesouros culturais geridos pelo trabalho voluntário. No Cognópolis, a biblioteca é mantida por voluntários da Conscienciologia, ciência voltada para o estudo integral da consciência. Situado no Centro de Altos Estudos da Conscienciologia (CEAEC), o espaço tem duas denominações, Holociclo e Holoteca.

No Holociclo, há um acervo de 7.428 dicionário temáticos e idiomáticos; uma hemeroteca com 608.781 recortes de jornais e revistas, além de enciclopédias.

A Holoteca tem hoje 106.686 livros e obras escritas, com destaque para as da área do parapsiquismo. O acervo, além de livros, reúne centenas de coleções de objetos, chamadas tecas, incluindo a filatelioteca, a gibiteca, a conquiloteca, meteoritoteca, a midiateca, a fozteca, a mercosulteca, entre outras.

Ambos os acervos são abertos ao público para consulta no local, no entanto atualmente estão fechados devido à pandemia.

Biblioteca Comunitária CNI reúne cerca de oito mil livro. Foto de fevereiro de 2020 (anterior à pandemia).

No Cidade Nova, a Biblioteca Comunitária CNI reúne cerca de oito mil livros. O prédio da iniciativa, criada há dez anos, é cedido pelo município, e o espaço é administrado por cerca de 25 voluntários da Associação Cidade Nova Informa (CNI). Recentemente, a biblioteca recebeu a doação de 156 exemplares viabilizados a partir de uma emenda positiva feita pela vereadora Anice Gazzaoui. A unidade está fechada em razão da pandemia, e o acervo só pode ser acessado mediante agendamento.

Prefeitura diz que mantém políticas de incentivo à leitura

Procurada pelo H2FOZ, a administração municipal informou manter iniciativas para incentivar a leitura, porém a maioria foi prejudicada pela pandemia. É o caso do Roda Livro, projeto que começou em 2019, mas foi suspenso no ano passado. O Roda Livro permite a qualquer pessoa escolher um livro para ler, que fica disponível dentro de ônibus. A obra é devolvida, e a pessoa pode ainda fazer doações.

Segundo o diretor-presidente da Fundação Cultural, Juca Rodrigues, outra ação é o projeto literário Eu, Você e uma História, mantido em formato on-line em 2020, desenvolvido nos bairros em parceria com associação de moradores e escolas.

A Fundação Cultural comunicou que também promove o Prêmio Cataratas de Contos e Poesias, lança com regularidade editais para ofertar oficinas e atividades literárias, além de manter a Estação Cultural, inaugurada no segundo semestre de 2020. Também é realizada todos os anos a Feira do Livro, cuja edição foi cancelada no ano passado devido à pandemia.

Também em razão da pandemia, muitas ações estão paradas ou sendo feitas on-line, informa Juca Rodrigues. Uma delas é o Clube do Livro, em que obras são debatidas. Em breve, algumas atividades devem ser retomadas seguindo protocolos de segurança.

Bibliotecas da iniciativa pública em Foz

Biblioteca Elfrida Engels Nunes
Acervo: 65 mil títulos.
Abriga a Biblioteca de Turismo, com acervo de 23 mil itens entre livros, fitas, folhetos, revistas e jornais.
Funcionamento: das 8h às 14h.

Há ainda bibliotecas em todas as 50 escolas municipais.

Biblioteca Campus Unioeste
Acervo: 52.21 livros e 16.162 periódicos.
A consulta ao acervo é disponibilizada para a comunidade, porém o empréstimo é exclusivo para estudantes.
Atualmente fechada devido à pandemia.

Biblioteca da Unila (Biunila)
Dividida em duas unidades, uma no Parque Tecnológico Itaipu (PTI) e outra no Jardim Universitário.
Acervo: cerca de 80 mil títulos, além de e-books e acesso ao Portal Capes.
Consulta aberta à comunidade no local.

Gostou do texto? Contribua para ampliar o jornalismo em Foz do Iguaçu. ASSINE JÁ

Denise Paro - H2FOZ

Denise Paro é repórter do H2FOZ. e-mail: [email protected] Veja mais mais conteúdo da autora.

error: O conteúdo é de exclusividade do H2Foz.