Fake news não são fenômeno recente. Notícias falsas já mudaram rumo da História

H2FOZ

Vivemos uma enxurrada de notícias e informações que, em alguns casos, são mentiras, meias verdades ou fake news, como se diz atualmente.

Com a popularização das redes sociais e dos aplicativos de troca de informações via celular cada vez mais utilizados, a possibilidade de informações falsas cresce exponencialmente.

Eleições são vencidas ou perdidas, carreiras artísticas e esportivas são comprometidas e até profissionais experientes do meio jornalístico e intelectual são alvos nessa rede.

Mas, se você pensa que essas situações são frutos da internet e da modernidade, engana-se. O especialista em História do Brasil e professor do Colégio Positivo André “Bode” Marcos listou 7 fake news históricas que geraram extrema confusão para as pessoas das mais variadas épocas e sociedade.

Orson Welles – A Guerra dos Mundos

Welles, numa louca transmissão de ETs invadindo a Terra.

Um dos maiores cineastas da história, autor do clássico “Cidadão Kane”, também teve seu momento de criador de fake news.

Em 1938, na rádio CBS (Columbia Broadcasting System), Welles interrompeu a programação musical para anunciar uma invasão alienígena nos Estados Unidos.

A transmissão durou apenas uma hora, mas na costa leste do país desencadeou um medo jamais visto, pois estima-se que 6 milhões de pessoas ouviram essa transmissão. Aproximadamente 1,2 milhão de pessoas entraram em pânico e congestionaram as linhas telefônicas dos serviços policiais das regiões de Newark e Nova York.

Alguns grupos armados se formaram para “caçar” marcianos à noite e pessoas cometeram suicídio com gás para não serem capturadas.

O fato é que Welles estava fazendo uma dramatização da obra “A Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells. Quando a situação ficou quase fora de controle, a polícia foi até a rádio e exigiu que Orson desmentisse a informação, mas ele se recusou, dizendo: “É para ficarem assustados mesmo”.

Muitas pessoas processaram a rádio após o acontecimento, querendo indenizações, mas ninguém conseguiu nada. Um exemplo de como receber informações sem confirmação pode ser muito perigoso.

Incêndio no Reichstag alemão

O incêndio virou “desculpa” para a ditadura nazista. Foto Wikimedia

O regime nazista pode ser considerado o campeão das fake news: sobre judeus, esportes, história, antropologia, economia, guerras, religião, etc. Esse regime horrendo protagonizou algumas das maiores atrocidades contra a humanidade e, em grande parte, baseando-se em fatos mentirosos.

Escolhemos um fato que consolidou o nazismo no poder em 1933: o incêndio do Parlamento.

Quando a notícia do incêndio do Parlamento alemão atingiu a população, em 27 de fevereiro de 1933, uma massa indignada de alemães dirigiu-se ao prédio, que estava isolado pela polícia, e os bombeiros tentavam apagar o fogaréu em vão.

Hitler e Goebbels (ministro da Propaganda) também se dirigiram ao local para apurar os fatos. Goebbels procurava alguma vantagem política com o acontecimento, chegando a conversar com Hitler: “Vamos tomar o poder agora, por meio do incêndio, do medo e do terror”.

Hitler tinha sido recém-nomeado Chanceler pelo presidente Hindenburg e o Partido Nazista ainda não tinha se firmado no poder.

Um jovem holandês foi preso – Marinus van der Lubbe – e confessou ter sido o responsável pelo atentado, num repúdio ao governo e aos nazistas. Como ele tinha relações com os comunistas, rapidamente Hitler acusou os comunistas de uma conspiração contra o governo e declarou: “Precisamos exterminar essa peste assassina com punhos de ferro”.

Naquela noite, vários deputados comunistas foram presos e as tropas de assalto S.S. foram autorizadas a utilizar armas de fogo contra os “inimigos”.

Até abril, mais de 25 mil pessoas tinham sido detidas. O presidente Hindenburg, pressionado, publicou “O Decreto do Presidente do Reich para a proteção do povo e do Estado”, no qual as liberdades de expressão, opinião e reunião eram proibidas e o sigilo de correio quebrado.

Essas medidas possibilitaram a real ascensão nazista ao poder. Alguns historiadores ainda afirmam que o incêndio foi provocado pelos próprios nazistas para gerar um clima de instabilidade propício à utilização da violência e da censura, mas o consenso atual é de que foi realmente o jovem holandês, numa atitude impensada e inconsequente ,que desencadeou toda essa confusão.

A população, por sua vez, acreditava nas notícias propagadas pelos jornais, que acusavam os comunistas de tramarem uma conspiração contra o governo.

Atentado ao Riocentro

Os que cometeriam atentado foram vítimas de um erro. Foto Wikipedia

No dia 1º de maio de 1981, haveria um grande show em comemoração ao Dia do Trabalho no espaço conhecido como Riocentro, na cidade do Rio de Janeiro. O clima era de muita alegria, pois se encaminhava o processo de abertura política e o retorno da democracia após quase 20 anos de ditadura militar.

Vários artistas confirmaram presença, como Gonzaguinha e Chico Buarque, entre outros. Durante o espetáculo, uma bomba explodiu em um automóvel Puma, no estacionamento do evento, ferindo o capitão Wilson Dias Machado e matando o sargento Guilherme Pereira do Rosário.

As notícias dadas pelos militares imediatamente após a explosão foram de um atentado promovido pelo grupo terrorista VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). O objetivo dos militares era gerar um clima de instabilidade social que bloqueasse o processo de abertura.

A ação foi articulada pelos militares do SNI (Serviço Nacional de Informações) e pelo CIE (Centro de Informações do Exército). A ideia era explodir a bomba na central elétrica do local, provocando pânico e correria.

O coronel Nilton de Albuquerque Cerqueira suspendeu o policiamento na região e ordenou que as saídas de emergência fossem fechadas. O azar dos militares – e sorte das pessoas que estavam no show – foi que os dois militares que estavam no veículo manipulando a bomba cometeram um erro ao tentar ativar o dispositivo e este acabou explodindo dentro do carro. Até hoje esse assunto é tabu nas forças armadas.

Armas de destruição em massa iraquianas

Armas que não existiam foram desculpa para invadir o Iraque. Foto DW

Em 2003, durante a Segunda Guerra do Golfo, os Estados Unidos acusaram o Iraque de possuir armas de destruição em massa, com o intuito de obter autorização da ONU para invadi-lo. Mas de onde surge essa ideia?

Nos anos 1980, o ditador Saddam Hussein utilizou armas químicas na guerra contra o Irã e também para combater os curdos em seu próprio país. Mas,quem teria fornecido essas armas, uma vez que o Iraque não tinha tecnologia para produzi-las?

Nos anos 1990, com a Primeira Guerra do Golfo, o presidente George Bush não conseguiu seu objetivo principal: derrubar o ditador Saddam do poder. Após os atentados de 11 de setembro de 2001, George W. Bush desencadeia uma intensa campanha para a guerra total contra o terror. Mas como associar o Iraque a Osama Bin Laden? Sob qual justificativa esse país seria invadido?

A imprensa estadunidense e inglesa diariamente “bombardeavam” a população com notícias sobre a capacidade do Iraque de construir armas químicas e até nucleares que um dia poderiam atingir o Ocidente. Na época, inclusive, foi apresentada uma animação que “provava” a existência de bases que fabricavam essas armas.

O fato é que os inspetores da ONU nunca encontraram esses arsenais em suas inspeções no Iraque. Mesmo sem provas concretas, os Estados Unidos invadiram o Iraque e Saddam foi deposto e executado logo em seguida. E as armas de destruição em massa?

Plano Cohen

Vagas, ao centro, e de pé o general Góes Monteiro. Foto Wikimedia

Em 1937, o Brasil era governado por Getúlio Vargas, chamado Pai dos Pobres, devido à introdução de uma legislação trabalhista, embasada na Carta Del Lavoro italiana.

Entre 1930, ano em que chegou ao poder, e 1945, Vargas conseguiu centralizar o poder de tal forma que acabou transformando-se num ditador nos mesmos moldes dos fascistas europeus. O grande elemento que levou à ditadura foi o Plano Cohen.

No dia 30 de setembro de 1937, o general Goés Monteiro, chefe do Estado-maior brasileiro, noticiou no programa radiofônico “Hora do Brasil” um plano descoberto que objetivava derrubar Vargas do poder e implantar o comunismo no país.

Segundo o general, este plano, chamado Cohen, foi arquitetado pelo Partido Comunista Brasileiro e por organizações comunistas internacionais (URSS). Além da derrubada do presidente, igrejas seriam queimadas, casas e prédios públicos seriam depredados e várias lideranças políticas contrárias ao plano seriam assassinadas.

A população, com medo da “ameaça vermelha”, exigiu atitude do governo, que teve liberdade para declarar Estado de Sítio e assim fechar o Congresso e estabelecer o Estado Novo – o período mais autoritário da era Vargas.

Notícia sobre a “invasão” comunista ao Brasil:

http://memorialdademocracia.com.br/publico/thumb/10428/740/440

Maria Antonieta – comam brioches

Maria Antonieta, também vítima de fake news?

Durante o processo da Revolução Francesa (1789-1799), momento em que o 3º Estado exigia o fim dos privilégios do rei e da aristocracia (nobres e clero), uma figura sobressaiu-se devido a uma frase: “Se não têm pão, que comam brioches”. Ela foi dita pela rainha Maria Antonieta, no momento em que a população de Paris passava fome.

Qualquer estudante já ouviu essa história durante as aulas de Revolução Francesa, a fim de entender o porquê de tanta raiva do povo para com a monarquia. Mas e se descobríssemos que essa frase nunca foi dita?
 
Os historiadores da atualidade acreditam que tal frase foi inspirada no livro de Rousseau – Confissões (1766/1770) – no qual uma rainha, sem nome, num momento em que o povo passava fome, disse “que comam brioches”. O famoso diz-que-diz acabou atribuindo a Maria Antonieta tal frase, seguida de várias outras acusações, como bruxaria, prostituição e lesbianismo. A rainha, assim como o rei Luís XVI, acabaram guilhotinados em 16 de outubro de 1793. Injustiça ou apenas um erro de interpretação?

Leia mais sobre a execução do rei Luís XVI e Maria Antonieta:

https://www.elindependiente.com/wp-content/uploads/2018/01/luis-xvi-1440×808.jpg

 
O golpe militar de 1964 – a ameaça comunista

Com medo, a classe média conservadora apoiou os militares contra a “ameaça comunista”.

Nos anos 1960, a América Latina vivia um clima de tensão muito intenso devido à Guerra Fria. A Crise dos Mísseis, entre Estados Unidos, Cuba e União Soviética, quase levou o mundo a um confronto nuclear. As figuras de Fidel Castro e “Che” Guevara assombravam os interesses estadunidenses ao sul do continente.

É claro que um país como o Brasil não sairia ileso desse contexto. Como pudemos ler anteriormente, desde a época de Getúlio Vargas “a ameaça comunista” gerava temor na sociedade brasileira. Após o suicídio de Vargas (1954), o país oscilou entre crises políticas e econômicas e euforia com os governos de Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros.

Porém, com a renúncia de Jânio (1961), alegando “forças ocultas”, e a ascensão do vice-presidente João Goulart ao poder, a situação agravou-se bastante. João Goulart era historicamente ligado ao movimento sindical brasileiro, tendo sido ministro do Trabalho de Vargas – e assumiu prometendo estabelecer as Reformas de Base, um plano que visava uma série de reformas sociais.

Essa postura foi tomada como tendente ao socialismo e, somada ao clima anticomunista vindo de fora, a reação contra o governo foi imediata. Entre 1963 e 1964, a sociedade dividiu-se entre os apoiadores das Reformas de Base, acusados de comunistas, e os contrários às reformas e defensores da “Tradição, Família e Propriedade”. Passeatas, comícios e manifestações de rua ocorreram nas grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro.
 
No dia 13 de março de 1964, João Goulart reuniu aproximadamente 300 mil em prol das Reformas de Base. A resposta veio no dia 19, quando a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, convocada por grupos de direita, como militares e religiosos, também reuniu entre 300 e 500 mil pessoas contra a “ameaça comunista” de Goulart.

O capítulo final deste episódio se deu em 1º de abril de 1964, quando os militares, apoiados pelos grupos conservadores civis e os Estados Unidos, assumiram o poder político e João Goulart exilou-se no Uruguai.

Leia mais sobre o assunto: http://memorialdademocracia.com.br/publico/thumb/340/740/440

https://ensinarhistoriajoelza.com.br/stj/wp-content/uploads/2019/03/Comicio-da-Central_faixas.jpeg

 

 

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