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Seu Abel, um andarilho em busca de sol 

Seu Abel, um andarilho em busca de sol 
(Foto: Marcos Labanca)

Ensaio fotográfico: Marcos Labanca
Texto: Alexandre Palmar

A imensa barba branca esconde as marcas da vida no rosto de um antigo andarilho de Foz do Iguaçu. Ela lembra flocos de neve. Talvez um algodão-doce. De tão imensa, chega a ocultar as bochechas. Beira a uma proteção, mas a pele descoberta não resiste às queimaduras do Sol. As manchas vermelhas contrastam com a branquidão dos pelos. Impossível conter a fúria do astro-rei neste calor da fronteira. 

Aos 84 anos de idade, o senhor Abel tem um cantinho para o seu pouso. Curioso, adora andar por aí a procurar o tal “sol que nasce para todos”. Tem um semblante cansado e simpático, quase enigmático. O seu olhar está no próximo da esquina. Diariamente ele caminha pela cidade carregando o seu mundo no saco de estopa sobre os ombros. Sempre de “olhos abertos” às pessoas.


De tanto peregrinar dia e noite, esse senhor é bem conhecido entre os moradores de rua. Sabe um pouco da realidade dos Josés e Marias que vivem em imóveis abandonados, lotes baldios, marquises e até mesmo no armário de energia elétrica em frente ao Bosque Guarani. O inverso também é verdade. Quem é do pedaço reconhece o velhinho de longe. 

Não são iguais. São todos diferentes. Cada qual com sua história, jamais indiferentes entre si, como retratou o repórter fotográfico do H2FOZ, Marcos Labanca. O fotógrafo andou pelos quatro cantos da Terra das Cataratas para mostrar um pouco dessa realidade. De quebra, voltou para a redação com um ensaio sobre os invisíveis nossos de cada dia.


É o caso de Antonio de Meter, de 50 anos, morador de rua há dez anos. Ele sobrevive como pode, catando material reciclável para revender e fazendo um serviço aqui outro acolá. Teto mesmo só a lona esticada sobre a barra de direção do carrinho. Dorme no chão... menos duro por conta de algumas camadas de papelão. Nem reclama. Dificuldade mesmo enfrenta diante da atenção dispensada por motoristas e pedestres:

― Muitas vezes a dificuldade mesmo é o desprezo das pessoas. Muitas pessoas ajudam a gente, mas muitas desprezam e tratam nós como lixo! (áudio)

Como o senhor faz para comer?
― Muitas vezes a gente pega do lixo. Muitas pessoas ajudam também, sabe, “que ném” as entidades. Muitas vezes não pegar. Tem que estar no lugar certo, nas ruas certas para pagar o alimento... (áudio)

O senhor dorme aqui sempre?
Aqui é o meu lugar preferido. Eu gosto de chafariz. Eu aproveito para tomar água e lavar meus pés. Não lavo lá [dentro do chafariz]. Eu pego água dali e lavo aqui. Sou mais higiênico que muitos. É o meu lugar de descanso. Tipo uma parada, que um posto de gasolina. (áudio)



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