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À espera de Bolsonaro, Unila reforça papel de integração

À espera de Bolsonaro, Unila reforça papel de integração

Por Guilherme Wojciechowski

Com sede em Foz do Iguaçu, a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) tem características únicas. Bilíngue (português/espanhol), a instituição, pública e gratuita, reserva até 50% de suas vagas para alunos e professores estrangeiros, procedentes dos demais países do continente.

Instalada em 2010, com o apoio de Itaipu Binacional, a Unila conta, atualmente, com 4,3 mil alunos matriculados em seus 29 cursos de graduação, além de 511 nas 12 opções de mestrado e especialização. O quadro docente é composto por 362 integrantes (78% doutores e 19% mestres). Completam o quadro de servidores 535 técnicos-administrativos em Educação.

Mesmo jovem, a universidade vem se destacando no cenário nacional, com a conquista de notas quatro ou cinco, as mais altas, nos cursos submetidos ao Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). Na avaliação de 2014, o Índice Geral (IGC) da Unila foi o terceiro melhor do Brasil.

A instituição é, entretanto, alvo de constantes críticas por setores da sociedade local e representantes da classe política. Em 2017, um deputado da cidade de Ivaiporã, Sérgio Souza, propôs modificar a proposta da Unila para transformá-la em Universidade Federal do Oeste do Paraná (UFOPR), com foco no agronegócio.

A mudança, que incluía a incorporação do campus da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em Palotina e poderia resultar na saída de parte dos cursos de Foz do Iguaçu, foi descartada após abaixo-assinado, mobilizações e manifestos de entidades e lideranças políticas.

A presença de alunos estrangeiros e o caráter “esquerdista” do projeto figuram entre os questionamentos mais comuns dos setores contrários à instituição. Quando os 50% reservados para professores e estudantes de fora do país não são alcançados, porém, as vagas são redistribuídas para brasileiros.

Em 2016, apenas 58 dos 356 docentes não eram brasileiros. Já quanto aos alunos, no mesmo ano, 65% vinham do próprio Brasil, muitos dos quais, de Foz do Iguaçu e municípios vizinhos. Entre os estrangeiros, paraguaios e argentinos (490 alunos) formavam quase a metade dos 1.072 matriculados.

Consulta Pública

No último dia 24, a Unila promoveu consulta pública para o cargo de reitor e vice-reitor, da qual três chapas participaram. A mais votada por acadêmicos, professores e técnicos-administrativos em Educação foi a Chapa 2, integrada pelos professores Gleisson Brito (reitor) e Luis Evelio García Acevedo (vice-reitor).

A nomeação deve ser feita pelo Presidente da República, após envio de lista tríplice ao Ministério da Educação. A tradição é que sejam empossados os mais votados, mas a vitória de Jair Bolsonaro gerou dúvidas quanto à observância do processo nas 63 universidades.

Em matéria publicada no dia 22, o jornal O Estado de São Paulo informou que a equipe responsável pelo plano de governo do agora presidente eleito sugeriu a Bolsonaro que “não escolha o primeiro da lista automaticamente e aplique a fórmula de optar por nomes com experiência em 'gestão' e 'administração'”.

Outro critério, conforme a reportagem, seria a seleção de nomes “sem vínculos com partidos de esquerda”, para evitar o “aparelhamento” das instituições. A informação foi reforçada, no dia 30, pela colunista Denise Rothenburg, do jornal Correio Braziliense, citando o desejo de aplicar tal política já durante a transição.

Em entrevista à Rádio RCI Iguassu, Gleisson Brito, titular da chapa vencedora na Unila, disse que pretende dialogar com autoridades e sociedade da região sobre a importância da instituição de ensino superior na cidade e o caráter apartidário da gestão universitária.

"A comunidade acadêmica, em qualquer universidade, é plural. Temos pessoas de todos os matizes ideológicos, de todas as linhas partidárias, mas a gestão deve ter a seguinte postura: nosso partido se chama Unila. Eu e o professor Luis somos despidos de identidade político-partidária”, afirmou Brito.

"Vamos defender a Unila batendo da porta do primeiro ao trigésimo deputado da bancada paranaense. Vamos, pessoalmente, visitar as instâncias e os órgãos de Foz do Iguaçu e dizer que a universidade é de Foz, da Tríplice Fronteira, da América Latina e tem a missão de contribuir com a região", complementou.

Durante a corrida presidencial, eleitores de Jair Bolsonaro chegaram a sugerir, em discussões nas redes sociais, a extinção da universidade iguaçuense, qualificada, por debatentes, como “antro de esquerdistas” e “foco de doutrinação bolivariana”.

Colombiano de nascimento, Luis Evelio, vice-reitor na chapa vitoriosa, agregou que a Unila precisa ser vista "como um projeto de Estado, não de Governo. A Unila pode ser entendida naquilo que se chama de soft power internacional para o Brasil, um trabalho de liderança no nosso continente".

Nesta quinta-feira (01), o presidente eleito confirmou o astronauta Marcos Pontes como ministro da Ciência e Tecnologia no governo que começa em janeiro. Hamilton Mourão, vice-presidente, anunciou que as universidades federais vão deixar o Ministério da Educação e serão integradas à referida pasta.

Restrições Orçamentárias

Com a Emenda Constitucional nº 95/2016, conhecida como “Emenda do Teto dos Gastos”, instituições de ensino e pesquisa vêm sofrendo restrições orçamentárias. No caso da Unila, a situação afeta, também, a capacidade de investimentos em infraestrutura, como a construção do campus próprio.

A obra original, baseada em projeto de Oscar Niemeyer, deveria ter sido entregue em maio de 2013, mas foi paralisada por problemas com o consórcio construtor, em 2014, com apenas 42% do cronograma cumprido. Desde então, a universidade, que funciona em imóveis alugados, vem buscando uma solução.

Uma das propostas levantadas pelo atual reitor, Gustavo Oliveira Vieira, é uma troca com a usina de Itaipu. A binacional concluiria o prédio abandonado, para abrigar repartições próprias, e cederia à Unila um terreno na região da Vila “A”, para a construção de instalações mais simples e menos custosas.

No ano corrente, segundo Vieira, cerca de 40% dos recursos da universidade são consumidos em gastos como aluguéis. A resolução é urgente, uma vez que a Unila está para deixar a matriz orçamentária especial para universidades em implantação, o que implica em redução da verba anual de custeio.

Paulo Guedes, coordenador da equipe econômica de Jair Bolsonaro, declarou ser favorável à cobrança de mensalidades nas universidades públicas federais, pelo menos, de alunos de maior renda. Tal proposta, porém, não consta do plano de governo do presidente eleito para a área da educação.

Outras Instituições

Maior cidade brasileira de fronteira, Foz do Iguaçu abriga unidades de órgãos federais que dependem, para aspectos práticos, de decisões tomadas em Brasília. Nos artigos anteriores desta série, foram abordadas questões como a gestão da usina de Itaipu, obras pendentes, comércio e fiscalização fronteiriça.

Principal atrativo turístico da cidade, o Parque Nacional do Iguaçu é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente. A fusão com o Ministério da Agricultura, analisada pela equipe de Bolsonaro, é fonte de preocupação.

Outro aspecto é a aplicação local dos recursos arrecadados com as visitas turísticas à unidade de conservação. No último dia 04, o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública para cobrar que pelo menos 25% das receitas permaneçam no parque, percentual que estaria sendo descumprido.

Foz do Iguaçu é sede, também, de delegacias e escritórios regionais de serviços federais. Transferências de repartições ou o rebaixamento de status de algumas podem levar a cidade a perder, para Cascavel, o dinheiro mensalmente injetado, na economia local, com os cargos de maior remuneração.

Verbas para o custeio da saúde e discussões entre Paraná e União quanto ao futuro modelo de gestão da BR-277 (com ou sem pedágio a partir de 2021) são outros dos temas em relação aos quais iguaçuenses e moradores da região precisam marcar posições, para que seus interesses não sejam prejudicados.

* Guilherme Wojciechowski é radialista e coordena, atualmente, o jornalismo da Rádio RCI Iguassu, integrante da Rede Bandeirantes. Atuou em emissoras como CBN e Band News FM e cobre, desde 2006,  noticiário do Paraguai, Argentina e Mercosul.


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