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As lições e andanças do “Guardador de Palavras da Gabi” 

As lições e andanças do “Guardador de Palavras da Gabi” 

H2FOZ - Alexandre Palmar

Tem fórmula para ouvir uma criança? Tem não, a gente sabe. Mas os tempos modernos dificultam nossas vidas. Sequer conseguimos uma pausa para respirar. É mais seguro terceirizar o ouvido, boca e até mesmo o coração para profissionais especializados. É o caminho da modernidade para garantir a educação segura.

Mas aí vem um despretensioso livro resgatar o jeito simples de prestar atenção na meninada. O "Guardador de Palavras da Gabi”, da jornalista Aida Franco, revela que é só permanecer conectado aos pequenos para checar as notificações em tempo real e assim encher a memória do disco rígido com as lindezas infantis. 
 

Gabi e Aida, conexão em tempo real - Foto: Arquivo pessoal

Lançado em dezembro de 2017, o livro é o retrato de alguns momentos do rico imaginário de uma menina em diversas cenas do cotidiano, quando ela tinha 2, 3 e 4 anos. Gabi é a amada Gabriella, filha da comunicadora de Cianorte. Suas elucubrações e desenhos ganharam 144 páginas numa bela produção da Edição por Encomenda.

O projeto nasceu tímido, lançado pela Catarse.me (plataforma de financiamento coletivo para projetos criativos), porém ganha corpo a cada dia. A primeira impressão tirou do forno 50 exemplares para atender quem havia financiado a ideia. Com o livro pronto, surgiram as encomendas, que resultaram numa segunda tiragem de 200 exemplares. 

Circulação


Em apenas seis meses de estrada, o livro já tem uma expressiva circulação. O "Guardador” chegou a crianças e adultos em Santa Catarina, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Brasília, Rio de Janeiro, Bahia, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Goiás, além de países como Canadá e Estados Unidos. 

Por onde passa, o projeto inspira adultos e crianças, a começar pelas rodas de conversa organizadas por educadores e diretores de escolas. O livro também é usado nos planos de aula dos professores, em contação de histórias e reuniões pedagógicas com os pais e responsáveis. 

“É possível usar o livro para instigar as crianças a contarem suas histórias. Tendo por base as falas e respostas da personagem, podemos saber das crianças o que elas pensam a respeito dos temas levantados, pois são questões que envolvem o universo delas, como amiguinhos, animais, escola, arte, sonhos, computador, entre outros”, revela a autora.

A caminhada não para. Uma cota chegou a uma unidade de Centro Municipal de Educação Infantil de Piraquara, que atende 230 crianças de 2 a 4 anos em uma região de grande criminalidade e vulnerabilidade social. Já em Ponta Grossa, por exemplo, o livro começou a ser usado pelo “Bando da Leitura” e no projeto “Pega aí”. 

Em Foz 
Em julho, o livro será lançado no Inverno Cultural, na Universidade Federal de São João del-Rei, em Tiradentes (MG). E olha só, o "Guardador de Palavras de Gabi” também já circula em Foz do Iguaçu. Uma cota de exemplares tem percorrido de mão em mão na cidade, que deve receber a autora em breve para uma roda de conversa.

"A Márcia Maiolli foi diretora do Campus da UEM (Universidade Estadual de Maringá), é doutora em Matemática. É uma pessoa incrível. Tem uma chácara e costuma reunir os amigos. Disse que o livro estava na mesinha da sala e um amigo começou a folhear. Em dado momento ele estava lendo em voz alta para os demais e todos riam e comentavam sobre as frases.", conta Aida.

Internet
Enquanto é costurada essa vinda para Foz do Iguaçu, você pode acompanhar pela página www.facebook.com/guardadordepalavras. Nela tem várias “gotas” do livro. São postagem com frases ilustradas, quadrinhos, vídeos e fotos. Uma amostra deliciosa da obra, que pode ser solicitada sob encomenda. O valor é R$ 40, já incluindo a despesa postal.  

 

ENTREVISTA
“Uma criança é capaz de tocar a alma”

Aida: Eu acredito que todo estímulo é importante e vai chegando uma idade que eles começam mostrar mais afeição por uma arte em detrimento de outra. - Foto: Arquivo pessoal

Defina o que é ouvir. É só dar aqueles minutinhos de atenção em meio aos afazeres ou é algo mais? Tem segredo?
Eu penso que é dialogar com a criança. É tratá-la como alguém capaz de também expressar o que raciocina, e não um ser que por estar descobrindo o mundo só lhe é permitido o papel de escutar e ser ensinado.  

Após o momento literal de ouvir uma criança, qual seria passo seguinte?
Por exemplo, tem uma passagem do livro que ela diz, a respeito de quando pedia água antes de dormir: "Mãe, toda vez que eu vou dormir e quero água você fala 'Ô, meu Deus'. Mãe, você pega água e não fala 'Ô, meu Deus'?". Ela não tinha nem 4 anos, eu não tinha notado como isso pesava para ela. E nós sabemos como a água faz bem para uma criança, então que mal que há em eu me organizar para levar água para ela sabendo que já vai pedir? A noite remete muitas inseguranças a uma criança, mas durante o dia, quando me pedia água, eu ensinei a ela mesmo ir pegar no filtro. Como não alcançava, coloquei um banquinho, e ela já criou independência. 
 
A cultura de escutar está restrita a pais e filhos?
Deveríamos todos nos escutarmos. Na escola, no trabalho... Veja o exemplo de alguém que posta uma foto em Paris. Poucos perguntam como está se sentindo, o que tem visto. Quem já foi lá sente a necessidade de dizer que lá esteve no local, que gostou. Os idosos sentem uma necessidade incrível de falar, de rememorar, mas não temos tempo. E se tivermos sorte, um dia todos chegaremos lá!

No seu caso, quais são as revoluções diárias no seu coração e na sua mente ao dar ouvidos às elucubrações da pequena Gabi?
Eu percebo que estou conseguindo formar uma criança mais segura e atenta ao que acontece fora de sua zona de conforto que é, por enquanto, a escola e seu quarto. Uma criança que se arrisca a confeccionar seu próprio estojo escolar, mesmo que todas as outras usem estojos de marca, e que é solidária com os sentimentos dos outros. 
 
E a reação da Gabi, hoje com 12 anos? Ao ler e reler o livro, o que a mãe/autora percebe no coração e mente da sua pequena? O que Gabi diz do livro?
Ela sempre soube da ideia do livro. Ela que sugeriu o título, quando tinha uns 6 anos. Ela não se deslumbra. Mas ainda esses dias ela lia umas páginas com uma amiga e disse que era bom falar tudo que pensava, ou seja, sem censura. 

Você resolveu registrar as tiradas e pérolas da pequena Gabi, o que serviu de matéria-prima para o fascículo 1 do livro. Mas nem todo mundo tem facilidade com as letras. 
Falando por mim, eu guardo tudo. Fotos, imagens, vídeos, áudios. Tenho um caderno com colagens de etiquetas, papéis de presente, pulseira de maternidade. Com as pessoas com as quais converso, percebo que algumas guardam e outras se sentem incentivadas a fazer algo parecido. Depois que comecei a postar as frases da Gabi, principalmente no Facebook, muitos outros envolvidos com crianças começaram a postar também. 

Qual a diferença entre os tipos de registros? É possível que o registro das palavras provoque maior reflexão no adulto?
Há coisas engraçadas e outras que nos levam a reflexões profundas. Por exemplo, ela devia ter uns 3 anos e ela me perguntou como é que "desmorre". O que você fala para uma criança? A gente responde o que a gente acredita realmente?

Como as mais diferentes artes podem ajudar a estimular nas letras em uma criança?
Eu acredito que todo estímulo é importante e vai chegando uma idade que eles começam mostrar mais afeição por uma arte em detrimento de outra. Até uns 7 anos, a Gabi desenhava muito, pintava muito; fiz exposição com telas dela na escola. Mas depois eu percebi que não podia forçar. Agora ela assiste muitos vídeos no YouTube que estimulam a reaproveitar materiais e culinária. Tanto em um como no outro, às vezes, o molho sai mais caro que o prato. Quer dizer, nem sempre dá certo a experiência. Mas como eles vão aprender se a gente tolher o tempo todo? Mas, como friso, sempre conversando muito, explicando muito. Nunca tive problema para levá-la à loja de brinquedo ou qualquer outro lugar em que ela fizesse birra. A primeira birra nasceu e morreu no mesmo instante, por conta da conversa. 
 
Acredita que um adulto possa ser consertado diante dos inocentes e puros pensamentos e questionamentos infantis?
Eu creio que sim. A maioria dos pais escreve que depois que tiveram os filhos se tornaram uma pessoa melhor. Mas não basta escrever isso, tem que verbalizar e externalizar. Uma criança é capaz de tocar a alma. 

Pra fechar, uma pergunta simples: acredita nos adultos ou devemos ficar apenas com a “pureza da resposta das crianças”?
Eu acredito, e muito, porque a nova geração depende de quem os cria. A força do mal é poderosa, mas há muita gente querendo e fazendo o bem, silenciosamente.

Reações
"A Loide Caetano, que é diretora do Museu Unicesumar, sempre incentivou a cultura, já presentou a Gabi com livros. Ela disse que leu o livro na mesma noite que o pegou. Ela relata que com o livro relembram passagens sobre a infância das crianças da família e muitos dizem que sentem-se incentivados a não apenas anotar, mas realmente a ouvir o que os pequenos querem nos dizer",  finaliza Aida.