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Governo Bolsonaro: bom negócio para Foz do Iguaçu e fronteira?

Governo Bolsonaro: bom negócio para Foz do Iguaçu e fronteira?
Ponte da Amizade (Brasil/Paraguai) (Foto: Marcos Labanca)

Série especial vai abordar, até quinta-feira, questões que dependem do governo federal na região

Por Guilherme Wojciechowski*

Os eleitores de Foz do Iguaçu, cidade mais populosa das fronteiras do Brasil, depositaram sua confiança no candidato Jair Bolsonaro na disputa pela Presidência. No primeiro turno, o militar reformado fez 61,79% dos votos válidos no município; no segundo, a preferência subiu para 70,30%.

Por sua localização, características sociais e econômicas, a Terra das Cataratas tem vínculos diretos com Brasília. O município abriga, por exemplo, a hidrelétrica de Itaipu, pontes com o Paraguai e a Argentina, uma universidade federal e estruturas como a maior delegacia da Polícia Federal fora das capitais.

Além disso, Foz do Iguaçu conta com o porto seco mais movimentado do país, com média anual de mais de 180 mil despachos de itens como produtos industriais ou agrícolas, para importação ou exportação, transportados em caminhões que percorrem as rotas entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile.

Uma vez confirmado o resultado das urnas, é natural perguntar: o governo de Jair Bolsonaro pode ser bom ou mau negócio para Foz do Iguaçu e região de fronteira?

Ao longo da semana, traremos algumas das primeiras análises sobre temas como Mercosul, comércio na fronteira, Itaipu Binacional e renegociação do Anexo “C” do Tratado, Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), combate à criminalidade e assuntos de interesse direto dos moradores da região.

Agenda Mercosul

Em entrevista coletiva dada ainda no domingo (28), no Rio de Janeiro, o economista Paulo Guedes, apontado por Bolsonaro como futuro ministro da Fazenda, disse que pretende alinhar o Brasil às principais economias do mundo, como Estados Unidos e União Europeia.

Questionado pela jornalista argentina Eleonora Gosman, do jornal Clarín, sobre a relação com os sócios de Mercosul, Guedes foi enfático.

"A pergunta é se vamos comercializar somente com a  Argentina? Não. Somente com Venezuela, Bolívia e Argentina? Não. Vamos negociar com o mundo”, disse. “O Mercosul não é prioridade." Nesta terça (30), Guedes desculpou-se e agregou que “em nenhum momento quis desmerecer a Argentina ou o Mercosul”.

As declarações do futuro ministro foram comentadas pelo jornalista Carlos Alberto Sardenberg, especialista em economia, durante passagem por Foz do Iguaçu na noite de segunda (29), para palestra. No entender de Sardenberg, o Brasil deve, sim, dedicar especial atenção ao bloco.

"Tem uma informação segundo a qual a primeira viagem de Bolsonaro seria para o Chile e, depois, para Estados Unidos e Israel. Pois devia acrescentar a Argentina, principal parceiro comercial do Brasil. Boa parte da indústria brasileira depende da exportação para a Argentina", avaliou.

No último dia 21, uma semana antes do segundo turno, Bolsonaro manteve contato telefônico com os presidentes da Argentina, Mauricio Macri, e do Paraguai, Mario Abdo Benítez, cujos governos são enquadrados, quanto à orientação política e econômica, como de centro-direita.

"Recebi telefonema do senhor Jair Bolsonaro, que me transmitiu suas intenções de fortalecer as relações com o Paraguai se for eleito", confirmou em sua conta no Twitter, na ocasião, o presidente paraguaio, que também foi um dos primeiros a felicitar o futuro colega após a confirmação da vitória eleitoral.

Na imprensa guarani, o fortalecimento das relações foi interpretado como a execução de obras de infraestrutura, como duas novas pontes (uma delas entre Foz do Iguaçu e Presidente Franco), e de ações de combate à criminalidade, já que o Paraguai é alvo cada vez maior da atuação de facções brasileiras.

Mercado cauteloso

Entretanto, analistas coincidem na preocupação quanto ao discurso nacionalista mantido por Bolsonaro durante a campanha. “Pode ter fortes impactos negativos para o Paraguai, dificultando o desenvolvimento da indústria de maquila”, ponderou o economista Alberto Acosta Garbarino, em coluna no jornal Ultima Hora.

“Não devemos ficar surpresos que a Tríplice Fronteira seja alvo de um controle especial, combatendo o crime, mas, ao mesmo tempo, dificultando o importante comércio legal que também existe na região”, adicionou Garbarino, para quem Bolsonaro tende a adotar políticas mais restritivas em relação às fronteiras.

Por sua vez, Lorenzo Sigaut Gravina, economista-chefe da consultoria Ecolatina, da Argentina, avaliou que "Argentina e Brasil vão continuar sendo sócios, porque convém a ambos. Há uma sinergia lógica”. Em declarações ao jornal La Nación, Gravina disse que interessa, para a Argentina, a recuperação do Brasil.

“Se, no curto prazo, o Brasil superar a crise e o real se valorizar, são boas notícias para a Argentina. O que mais importa é que aumente a demanda do Brasil, principalmente, em setores industriais como o químico, automotriz, autopeças e o setor alimentício, em particular, o trigo", apontou.

Comércio fronteiriço

Localmente, uma das interrogações é quanto ao comércio na fronteira entre Foz do Iguaçu, Ciudad del Este (Paraguai) e Puerto Iguazú (Argentina), em especial entre Foz e a cidade paraguaia.

Em 1º de julho de 2019, terminará a vigência da atual cota de isenção de impostos para compras no exterior,  de US$ 300 mensais para cidadãos brasileiros. Na data em questão, se não houver nova decisão sobre o tema, a isenção será reduzida para US$ 150.

Em julho deste ano, a cota de US$ 300 foi prorrogada por 12 meses, uma vez que a Lei de Free Shops, que prevê a instalação de lojas francas nas cidades brasileiras de fronteira, ainda não tinha sido aplicada. Para o segundo semestre de 2019, porém, a previsão é a de que já existam free shops em funcionamento.

Outra questão tem a ver com a cotação do real brasileiro frente ao dólar dos Estados Unidos, moeda na qual são cotadas as mercadorias importadas à venda nas lojas de Ciudad del Este. Quanto mais alto o dólar, menor o poder de compra do consumidor brasileiro em suas idas ao Paraguai.

Desenvolvimento local

Com sede em Foz do Iguaçu, o Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF) encaminhou aos candidatos à Presidência da República, durante a campanha, estudos que mostram a necessidade de adoção de políticas públicas específicas para as regiões de fronteira.

Luciano Stremel Barros, presidente do IDESF, recordou, em entrevista à Rádio RCI Iguassu, que o Brasil tem oito mil quilômetros de litoral e mais de 16 mil quilômetros de fronteira, que precisam de maior atenção.

"Que [os futuros governantes] olhem para as fronteiras como áreas estratégicas. Nós temos dez países encostados no Brasil, que são países que também estão em desenvolvimento. Que olhem com carinho, que tragam esses países como parceiros econômicos, comerciais e de desenvolvimento", disse.

"Não adianta arrumar a casa do lado de cá e deixar a casa caindo do outro lado. Precisamos trabalhar em conjunto com todos os países que fazem vizinhança, para que nós possamos evitar problemas futuros. Queremos menos tráfico de drogas e mais desenvolvimento", afirmou Barros.

Amanhã, no H2FOZ: cargos na diretoria brasileira de Itaipu na mira dos aliados do presidente eleito Jair Bolsonaro. Como será a renegociação do Anexo “C” do tratado que deu origem à binacional? A Unila pode deixar de ser a universidade da integração latino-americana?

* Guilherme Wojciechowski é radialista e coordena, atualmente, o jornalismo da Rádio RCI Iguassu, integrante da Rede Bandeirantes. Atuou em emissoras como CBN e Band News FM e cobre, desde 2006,  noticiário do Paraguai, Argentina e Mercosul.