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Guaranis enxergam a fronteira de outro modo

Guaranis enxergam a fronteira de outro modo
{"Trecho do manifesto":" unidos com nossos parentes, sem fronteira, iluminados pelas palavras e cantos sagrados de nosso aporaiva seguimos nosso caminho com esperan\u00e7a e determina\u00e7\u00e3o."} (Foto: Marcos Labanca)

Em manifesto escrito em março, durante encontro de povos indígenas, os guaranis reforçam os motivos que os levam a enxergar a fronteira de outro modo. 

“Queremos lembrar a todos que Ñanderu Vusu, nosso Pai Grande deu o Paraná rembe y para que nós cuidássemos, e desde muito antes do tempo de nossos avós as aldeias estavam nas suas margens. Antes de existir Brasil, e Paraguai, existiam os Avá Guarani e não existia fronteira. As águas não dividiam nosso povo, pelo contrário, servia de caminho para visitar nossos parentes e os antigos atravessavam de uma aldeia a outra remando suas canoas. Os jurua kuera, quando chegaram, resolveram nos tomar o rio e atravessar as linhas da fronteira e então fizeram a barragem para gerar energia. Nós, que usamos a terra para plantar, fomos arrancados dela e ficamos sem lugar. 

Foram diversas violências cometidas pelos governos através de seus órgãos, como INCRA, FUNAI, ITAIPU, INDI. A memória de nos
Xámoi e Xejary lembram das violências sofridas, como mortes, escravidão, trabalhos forçados e expulsão. Lembram também dos diversos tekoha que ficaram debaixo d´água. Somente na margem direita do rio Paraná foram 36 tekoha desaparecidos e na margem esquerda foram almenos 19 tekoha. 

Nunca fomos indenizados devidamente conforme determinava as leis da época, nem pelas leis de hoje. Do lado do Brasil a Itaipu e o governo brasileiro compraram apenas duas terras, o
tekoha  Anhetete e o tekoha Itamarã, que são pequenas, não se pode sequer plantar o suficiente para comer. No lado do Paraguay o governo paraguaio e a Itaipu Binacional compraram, sob muita pressão das comunidades indígenas, apenas uma única terra, o tekoha Koeju, com mil hectares para assentar o povo deslocado.

Não queremos brigar com o
Jurua kuery, nossos vizinhos do campo e das cidades, pelo contrário, queremos o apoio. Nossa luta é contra quem roubou nossas terras, os governos e as grandes empresas de colonização. Precisamos que a Itaipu e os governos reconheçam essa dívida histórica e nos devolvam as terras que nos pertencem, as que já estão alagadas, que busquem outros lugares com condições boas para sobrevivermos. 

Manifesto: "antes de existir Brasil, e Paraguai, existiam os Avá Guarani e não existia fronteira." - Foto: Marcos Labanca

E não poderão escapar as autoridades com a desculpa da falta de recursos. O comércio da energia produzida com as turbinas que vocês colocaram no Paraná rembe y gera bilhões em dinheiro que é distribuído em forma de royalties aos municípios afetados pela barragem, mas nem uma parcela pequena dessa soma é destinada ao povo que mais foi afetado pela construção da represa, o povo Avá Guarani. Não tivessem vindo os jurua kuery destruir o que os Ñanderu Vusu deixou para nós, alagar as terras, despejar nossas famílias, não precisaríamos apresentar essa demanda a vocês, as autoridades. Não exigimos nada que não seja do nosso direito. 

Por fim, unidos com nossos parentes, sem fronteira, iluminados pelas palavras e cantos sagrados de nosso
aporaiva seguimos nosso caminho com esperança e determinação.”

Tekoha Ocoy, 18 de março de 2018. 


 

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