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Marcos Pontes

Marcos Pontes

Sem professor, não se constrói um país, diz astronauta Marcos Pontes

O primeiro astronauta brasileiro não se fez da noite para o dia. Quando menino, estudava nos momentos de folga do trabalho, dentro de locomotivas da Rede Ferroviária Federal (RFFSA) em Bauru (SP), para tentar ingressar na Academia da Força Aérea Brasileira. Foi o jeito encontrado pelo garoto de 14 anos que não tinha condições de pagar uma escola privada. 

Quase três décadas depois, Marcos Pontes passou a ser uma referência para o país após permanecer, em março de 2006, 10 dias na Estação Espacial Internacional. Quando você chega lá você se sente nada, absolutamente insignificante com esse contato com a Terra. Você começa a prestar atenção em coisas mais importantes, relata.

Piloto de caça, formado em Engenharia Aeronáutica pelo Instituto de Aeronáutica (ITA) e com quatro livros publicados, hoje Pontes é Embaixador da Organização das Nações Unidas (ONU). Tornou-se um defensor da educação, ciência e tecnologia e um difusor do trinômio estudo-trabalho-persistência.

O astronauta esteve em Foz do Iguaçu na terça-feira, 6, para ministrar uma palestra no Space Camp (Acampamento Espacial), evento que ocorre até dia 15 e reúne 150 alunos do Ensino Médio do Brasil com ótimo desempenho na Olímpiada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA) em 2014. Nessa entrevista ao H2FOZ, ele comenta sobre os desafios da ciência brasileira.     

Como você avalia o programa espacial brasileiro hoje. Há possibilidade de termos outro astronauta como você?
A probabilidade é muito baixa, não impossível. Temos possibilidades para o futuro dependendo de como for tratada a ciência e tecnologia como um todo e o programa espacial está encaixado no meio. É necessário um apoio público e político mais considerável. O fato é que precisamos ter maior apoio dentro de qualquer programa de ciência no Brasil e tratar a educação, ciência e tecnologia como assunto estratégico.

E isso não está acontecendo hoje?  Há falta de vontade política?
É falta de vontade política e falta de conhecimento público. A divulgação científica tem um papel importante nisso. A partir do momento que você tem uma população conscientizada da importância da educação, da ciência e da tecnologia, ela passa a exigir mais dos seus representantes. E a partir desse momento você consegue ter, não só orçamento, mas a estrutura necessária para os programas crescerem. Eles não crescem só por orçamento. É preciso de pessoas, formação, uma série de coisas. E para isso é necessário um trabalho continuado como foi feito na maior parte dos países que estão desenvolvidos hoje. E isso não é imediato, não se resolve em 4 anos.


Qual é a dica para inserir a ciência com mais força no ensino público?
Tem uma série de coisas que eu vejo que fazem falta no nosso ensino. Uma delas é utilizar mais recursos como Astronomia, radioamador, aeromodelismo e aerodinâmica. Qualquer coisa que os jovens olhem para aquilo e tenham mais interesse que olhar para um quadro. É difícil você traduzir coisas práticas para a sala de aula. Exige mais trabalho para o professor. Mas o professor tem que ser mais reconhecido também. E não estou falando só de salário, a posição de professor é exclusiva, sem professor não se constrói um país. Você tem que formar advogados, engenheiros, médicos e você precisa de professores bons. É triste ver alunos que chegam no ensino superior e quando você pede para ele escrever uma redação, você fica abismado com as coisas que vê. Então falta muita coisa nesse sentido. Tem que motivar mais os alunos, os professores. Outra coisa que sinto falta na educação, e quem me conhece fala que eu sou meio obcecado pela educação, e não é à toa, é envolver mais arte na educação. Arte no sentido de artes plásticas e música. Eu sou engenheiro, mas adoro a arte porque acho que é um complemento ideal para abrir a mente e conseguir entender melhor as coisas. A arte é extremamente importante no contexto. Se você olhar os currículos aparece como acessório, mas não é.

Denise Paro especial para o H2FOZ
Fotos: Marcos Labanca