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O aplicativo complicativo

O aplicativo complicativo

José Elias Castro Gomes 

Uma matéria da Folha de São Paulo de abril de 2015 abriu um alerta para algo que, até então, parecia ser uma prática absolutamente inocente e bem intencionada de conectar as pessoas: os bate-papos pelo WhatsApp. O texto fazia especial menção aos conflitos familiares que estavam borbulhando no programa de conversação e nas redes sociais. O conteúdo pode ser resumido na frase de abertura: Os papos (e as brigas) daqueles almoços de domingo em família agora continuam nas redes sociais ou no aplicativo WhatsApp. Ou seja, se a princípio o uso do app é uma notável oportunidade de unir pessoas que se amam e possuem interesses comuns, a prática solapa essa boa intenção e acaba por trazer à tona um efeito surpreendentemente oposto, jogando ainda mais lenha na fogueira dos conflitos familiares. Mas a que se deve esse tiro pela culatra virtual?

É claro que não se pode culpar o aplicativo em si por esses conflitos, seria o mesmo que culpar o telefone por uma discussão de casal ocorrida pelo aparelho. A matéria aponta o conflito de gerações como grande pivô, mas, passados três anos de sua publicação, parece evidente que hoje ele está mais para bode expiatório, pois todos conhecemos conflitos em outros grupos que não os familiares e percebemos neles a presença de integrantes com faixa etária muito próxima. Fica difícil hierarquizar motivos de maneira precisa, principalmente pela inexistência de pesquisas a respeito, mas podemos fazer algumas conjecturas com grande chance de assertividade, vamos a elas...

Primeiramente, estamos numa era de extremos e de posicionamentos. Todos temos opiniões e nunca tivemos tantas oportunidades de expressá-las. As redes sociais são uma versão não prevista dos tais 15 minutos de fama anunciados por Andy Warhol há décadas. Coloque muitas pessoas com muitas opiniões muito contundentes em um mesmo espaço (seja ele físico ou virtual) e a chance de confusão é gigantesca. Repare que não temos mais pessoas com dúvidas ao nosso redor, todos estão repletos de certezas até as tampas. Quem responde um não sei imediatamente é taxado de ignorante ou omisso. É claro, afinal estamos num mundo no qual é tão fácil ser bem informado.

Vejamos no nosso caso: você está em dúvida quanto a uma certa metodologia educacional. Em questão de segundos, você pode acessar a obra, a biografia e o pensamento de Vygostky, Piaget, Montessori e todo e qualquer grande pensador da pedagogia. A diferença é que isso não tornará você um pedagogo. E é aí que temos um combustível poderoso para os conflitos: todos nos consideramos entendidos de todos os assuntos, independentemente de nossas credenciais e formação. Afinal, temos o Dr. Google e a Dra. Wikipédia como mentores 24 horas.


Redes sociais e aplicativos devem ser usados com inteligência - foto Reprodução 

O outro ponto que turbina as confusões é a falta de um mediador. Nas redes sociais e programas de conversação prevalece a anarquia em estado bruto. Não há sábios, gerenciadores ou juízes dos diálogos para dizer quem está certo ou errado. E também é isso que gera a propagação das notícias mais absurdas e disparatadas desde Gutemberg. Milhões de pessoas compartilharam (a sério) notícias como a da criação de gatos engarrafados e a de que bananas assassinas estavam sendo exportadas pela Costa Rica (o governo costarriquenho chegou a precisar desmentir na ONU).

Qual a moral da história? O tal do zapzap, bem como o Facebook e congêneres, precisam ser usados com sapiência. Nada de discursos destemperados, principalmente em áreas que não se domina. Trocar opiniões é ótimo, mas ninguém é dono da razão (e se é, fica difícil entender o motivo de passar tempo no celular ao invés de se dedicar a causas mais importantes, como resolver a fome no mundo). Os pais e professores de nossas escolas estão em dezenas de grupos de discussão para tratar sobre assuntos que nos dizem respeito, o que é ótimo. Mas nem nós nem qualquer outra entidade de ensino tem como implantar mediadores nesses grupos ou estudar e atender prontamente tudo o que é postado pelos integrantes. Por isso é preciso bom senso.

A matéria da Folha se encerra com uma colocação bastante pertinente sobre a forma mais adequada de resolver conflitos: o mecanismo é o tradicional diálogo. Mas só podemos ter diálogo se as pessoas que discutem a escola no WhatsApp vierem até nós. Senão é monólogo. Estamos sempre à disposição, até porque é de nosso maior interesse saber o que pensam, o que querem e o que debatem os pais de nossos alunos. Só precisamos do já citado e tão almejado bom senso, pois os problemas no universo educacional infelizmente não se resolvem com a mesma agilidade com que se faz uma consulta no Google. E também de coerência e respeito mútuo, já que temos em nossos quadros profissionais capacitados que podem dirimir toda e qualquer dúvida, crítica ou sugestão.

O mundo virtual é muito bom, mas as coisas acontecem de fato no real. Já dizia um famoso apresentador de TV: quem não se comunica, se trumbica; o mesmo que, na hora de se definir, bradava enquanto arremessava bacalhau na plateia: eu não vim para explicar, vim para confundir. De nossa parte, botamos fé na primeira frase. Mas tem gente que, nas redes sociais, encarna a segunda. A escolha é sua. Só, por favor, não se trumbique.

José Elias Castro Gomes é mantenedor do COC Semeador