H2FOZ | Notícias | Foz do Iguaçu
  1. Home
  2. Notícias

Pelo menos 600 mulheres vivem sob ameaça em Foz 

Pelo menos 600 mulheres vivem sob ameaça em Foz 

H2FOZ - Denise Paro 
Fotos: Marcos Labanca

Embalada pela melodia do rock na década de 90, toda uma geração cantava Camila, Camila, da banda Nenhum de Nós. Talvez aqueles garotos e garotas, assíduos frequentadores de badalas em bares ou festas de repúblicas estudantis, nunca imaginariam que poderiam, no futuro, ser protagonistas de tal enredo sonoro. 

Mensagem de alerta!

Na letra, o Nenhum de Nós estampa a violência contra a mulher nas estrofes. Uma violência crescente, epidêmica, que destrói vidas que se vão e que ficam. 

De 90 para cá, as “Camilas” se multiplicaram pelo mundo, em parte porque ganharam autonomia e autossuficiência e ocuparam um espaço que lhes é devido. Em Foz do Iguaçu, a realidade não é diferente. Cerca de 600 mulheres vivem sob ameaça e são acompanhadas pela Patrulha Maria da Penha, da Guarda Municipal. 

Elas moram em uma cidade onde a violência mostra sinais de crescimento, mas por outro lado há vítimas com mais disposição para fazer denúncias. Em 2018, a Delegacia da Mulher registrou 1.300 casos de violência, cem a mais em relação a 2017. A média mensal é de mais de cem denúncias. São casos de feminicídio, agressão física, estupro, calúnia, constrangimento moral, entre outros. Somente neste ano, a cidade já contabilizou dois feminicídios.

Para não engrossar ainda mais a estatística do feminicídio, as mulheres ameaçadas são inseridas em medidas protetivas, a partir de uma decisão judicial, e passam a ser acompanhadas pela Patrulha Maria da Penha. O propósito da patrulha é fiscalizar o cumprimento das medidas protetivas, a fim de evitar mortes, agressões ou qualquer tipo de violência. “A medida protetiva é um dos últimos recursos da mulher. Se isso não der certo, o que vai dar?”, disse a coordenadora da Patrulha Maria da Penha, Iraci Pereira.

Iraci Pereira, coordenadora da Patrulha Maria da Penha, “a medida protetiva é um dos últimos recursos da mulher"

Na avaliação de Iraci, boa parte da violência ocorre pelo fato de o homem ter o sentimento de posse sobre a mulher e não conseguir lidar com o empoderamento feminino.  

Além de acompanhar a mulher, a patrulha monitora o autor da ameaça, evitando a proximidade física com a vítima. Caso ele não respeite a medida, cabe à patrulha emitir uma certidão de vulnerabilidade para ser anexada ao processo que tramita na Justiça. 

Alguns casos são tão graves que o Ministério Público determina ao homem ou à pessoa que faz ameaça usar tornozeleira. Quando ele se aproxima da área proibida, a patrulha recebe imediatamente o aviso e envia uma viatura ao local, a fim de prevenir qualquer tipo de ato. 

Veja abaixo mais relatos 

Caso o usuário da tornozeleira descumpra a medida, é feito pedido de prisão preventiva. Nos últimos meses, foram realizadas quatro prisões pela aproximação da área proibida. Outras seis ocorreram durante cumprimento de mandados; e quatro, por violência doméstica. 

Os resultados mostram que o trabalho é eficaz. Nos três anos de funcionamento, nenhuma mulher acompanhada pela patrulha foi vítima de feminicídio.   

Criada em 2015, no estado do Rio Grande do Sul, pela tenente-coronel Nádia Gerhard, a patrulha chegou a Foz do Iguaçu em 18 de janeiro de 2016, a partir da elaboração de uma lei municipal. Foi a primeira instalada no interior do Paraná.  

Foz conta hoje com três equipes da Patrulha Maria da Penha, mas pela demanda deveria ter no mínimo quatro. Uma possibilidade é de a Polícia Militar também começar a oferecer o serviço. No ano passado, foi aprovada no Paraná a patrulha da PM. A patrulha também tem homens na equipe, capacitados para exercer a função.  

CRAM, um suporte à preservação da vida 

Centro de Referência em Atendimento à Mulher em Situação de Violência (CRAM) de Foz é o único em toda a Região Oeste. 

Importante suporte à prevenção e acolhimento de mulheres vítimas de violência, o Centro de Referência em Atendimento à Mulher em Situação de Violência (CRAM) de Foz do Iguaçu é o único existente em toda a Região Oeste. 

Por ter tamanha importância na rede de atendimento às mulheres, fez e faz a diferença na vida de muitas delas. Além de oferecer atenção especializada, o órgão evita que o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) do município fique sobrecarregado e coloca Foz à frente de outros municípios quando se trata de atenção à mulher. 

Equipe do CRAM em Foz do Iguaçu - Foto Arquivo

O CRAM dispõe de psicólogos, assistente social, advogados e educadoras e oferece acolhimento e acompanhamento às vítimas. Em 2018, foram atendidos 1.200 casos, envolvendo mulheres de todas as classes sociais, cem a mais em relação ao ano anterior. Pelo menos um terço delas registraram boletim na Delegacia da Mulher. Algumas vêm até mesmo do Paraguai ou estão em Foz apenas de passagem. 

O atendimento engloba todos os tipos de violência previstos na Lei Maria da Penha, ou seja, física, psicológica, moral, patrimonial e sexual. A mais incidente é a psicológica, explica a psicóloga e coordenadora do CRAM, Kiara Heck.

A violência psicológica está muito associada à violência simbólica na qual a mulher sofre opressão, tem a autoestima ferida ou é desvalorizada. Até o próprio olhar, ameaçador, é considerado uma forma de violência psicológica, explica Kiara. “É um crime que mexe direto no coração.”

Havia algo de insano naqueles olhos
Olhos insanos
Os olhos que passavam os dias a me vigiar
A me vigiar 

E eu que tenho medo até do seu olhar
Mas o ódio cega e você não percebe
Mas o ódio cega 

No atendimento, o CRAM trabalha com os conceitos de resgate da autoestima, autonomia e emancipação. Quando a mulher precisa de tratamentos em outras áreas, ela é encaminhada à rede de saúde, ou seja, para médicos, dentistas ou terapeutas. 

Além do atendimento e atividades na própria sede do CRAM, há palestras e orientações em bairros e comunidades. O trabalho vem surtindo resultados, e a percepção da equipe do CRAM é a de que mais mulheres estão sentindo-se encorajadas para buscar ajuda. O período de atendimento varia conforme a necessidade da mulher. Algumas procuram apenas auxílio jurídico. Outras frequentam o CRAM por mais tempo por terem outras demandas. 

CLIQUE AQUI PARA VER AS ATIVIDADES DO CRAM PARA O MÊS DE MARÇO.

O que o agressor pensa sobre a violência? 

Aplicação de Dinâmica no Programa Basta - Foto: Arquivo Programa Basta

A necessidade de tratar o homem é um questionamento que ganha espaço no debate sobre a violência feminina. É difícil de entender por que um relacionamento no qual duas pessoas se gostavam pode terminar em morte. 

Em Foz do Iguaçu, há um serviço voltado para atender o agressor, o Programa Basta, projeto do Patronato Penitenciário Municipal vinculado à Vara Criminal. 

Psicóloga especialista em Terapia Cognitiva Comportamental, Beatriz Chefer atuou entre 2016 e 2017 no Programa Basta atendendo agressores encaminhados pela Vara Criminal. Nesse período, foram coletados dados a partir do trabalho com 135 autores de violência, dos quais seis eram mulheres. Durante o período, houve apenas dois casos de reincidência. 

Ao longo do trabalho, a equipe percebeu que o agressor considerava algo natural o fato de ter apanhado dos pais quando criança. “Há uma distorção quanto ao aprendizado. A educação é vista como punição”, explicou Beatriz. Em uma das declarações, um dos homens atendidos chegou a dizer que “virou gente porque apanhou”. 

Beatriz informou que no primeiro contato os agressores se colocaram em uma situação de defender a si mesmo, como se não fosse alguém digno de receber a pena aplicada pela Justiça. 

Para ela, é necessário um trabalho de orientação, iniciado nas escolas, para prevenir a violência. A criação de uma política pública também seria interessante. “Falta muita informação sobre os danos que a violência causa”, ressaltou. 

Percepções do agressor  

A partir de 128 entrevistas realizadas, os homens atendidos pelo Programa Basta fizeram as seguintes considerações sobre a motivação da violência:
71% respondiam por violência física; e 27%, por violência psicológica. 
65% reconheceram que cometeram violência.
32% responderam que quando criança e adolescente tiveram história de violência familiar.
37% acreditavam que a responsabilidade pela violência era exclusiva da mulher. 

Sobre os motivos que os levaram a cometer a violência:

20% alegaram autodefesa.
16% relataram outro motivo.
14% alegaram traição.
14% admitiram uso de álcool.
11% revelaram ciúme na relação.
10% argumentaram descontrole emocional.
7% alegaram cobrança familiar e pessoal.
5% negaram ter praticado violência.
3% disseram ser por cobrança financeira.

Fonte: Programa Basta/pesquisa da psicóloga Beatriz Chefer

RELATOS 



 

 

X