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Por: Cláudio Dalla Benetta - H2FOZ

Sem chuva a perder de vista, umidade do ar de deserto, poluição, onda de calor. Eis Foz do Iguaçu

Sem chuva a perder de vista, umidade do ar de deserto, poluição, onda de calor. Eis Foz do Iguaçu
O sol surge cedo, com um halo vermelho. Mas o céu fica praticamente encoberto o dia todo pela poluição. (Foto: Patrícia Iunovich)

Choveu a metade da média histórica, em julho; choveu apenas 5 milímetros, em agosto (quase zero); e, nestes onze dias de setembro, o índice de chuva é... zero.

A boa notícia? Infelizmente, a curto e médio prazos, não há: a seca continua ao longo dos próximos sete a dez dias, a umidade relativa do ar, em alguns horários, continuará em níveis críticos e a temperatura ficará apenas uns 10 graus mais baixa do que no deserto do Saara - ali por volta dos 35 graus, a máxima.

Estamos ainda em plena onda de calor, com direito até a "alerta laranja" do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A validade do alerta vai até sábado, mas, se confirmada a previsão do próprio Inmet, domingo teremos 36 graus e, na segunda-feira, 37. Onda de calor continua.

Isto tudo é Foz do Iguaçu, neste inverno atípico e ruim pra saúde em geral. Vai melhorar? Ali pelo dia 19 pode começar a chover, mas pouco, o que melhora a umidade do ar. Chuva, mesmo, pode vir com a primavera, a partir do dia 23. Mas ainda é cedo pra prever.

Beleza  ou problema?

O entardecer, pela lente de Kiko Sierich. Como os amanheceres, belo e estranho.

E sabe aquele fenômeno que se observa no início da manhã e no fim da tarde, em que o sol ganha um halo avermelhado, cercado por densas nuvens? Ele tem nome e origem: poluição.

As nuvens nada mais são do que a fumaça provocada pelas queimadas no Centro-Oeste do Brasil, no Paraguai e na Bolívia, explica o meteorologista Marcelo Zaicovski, do setor de Hidrologia da Itaipu Binacional.

As imagens de satélite mostram a vinda dessas massas de fumaça, trazidas pelos ventos que fazem a rota noroeste/sudoeste. E, claro, somam-se ainda à fumaça localizada, em queimadas urbanas e até como as que ocorreram ali do outro lado do Rio Paraná, no bosque do condomínio Paraná Country Club, em Hernandarias, e numa área protegida de Itaipu, na margem paraguaia da usina.

Tem ainda a poeira em suspensão. Normalmente, a poeira se dispersa, mas, como há uma "tampa" encobrindo a região, ela se junta a outros materiais poluentes.

Sem chuva até...

Julho e agosto são, normalmente, meses de poucas chuvas, no Paraná (o que inclui Foz do Iguaçu). Mas, este ano, segundo os registros do meteorologista Marcelo Zaicovski, foram ainda mais secos.

Em Foz do Iguaçu, a média histórica (últimos 30 anos) registra precipitações de pouco mais de 100 milímetros, em julho. Este ano, o mês fechou com 41 milímetros, menos da metade. Pior ainda em agosto: ante a média histórica de 110 milímetros, houve só 5 milímetros de chuva. Pouco mais que zero.

Setembro segue no mesmo ritmo. Em onze dias, nada de chuva. Os serviços de meteorologia mostram que a seca prossegue nos próximos sete a dez dias.

Qualidade do ar

Pra quem gosta de fotografar, como Patrícia Iunovich, há sempre um espetáculo no céu.

Ali pelo dia 19, diz Marcelo, deve entrar uma frente fria, finalmente, trazendo um pouco de chuva, mas só o suficiente para melhorar a qualidade do ar.

Que anda bem ruim: na terça-feira, 19, a umidade relativa do ar em Foz ficou na média de 43%, bem abaixo da ideal, que é acima de 60%. Mas, como se trata de média, isto significa que, nos horários em que a umidade do ar normalmente cai, a partir da hora do almoço até meados da tarde, o índice pode ter chegado a níveis baixíssimos.

Qualquer médico sensato vai recomendar: do meio-dia até por volta das 16h, não faça exercícios físicos pesados, tome muito líquido e, se possível, fique perto de algum tipo de vaporizador. As narinas vão se ressecar e as vias respiratórias sofrem com a secura.

Por que não chove?

No mapa do Inmet, regiões com "anomalia de precipitação", isto é, chuvas muito abaixo da média histórica. Foz está no mapa.

Normalmente, no inverno, há muitas frentes frias, que quase sempre trazem chuva (precipitações leves, diferentemente do verão) e queda na temperatura. Chove menos, mas chove. Mas, este ano, as frentes frias, desde julho, praticamente não chegam ao Paraná, a não ser à faixa mais próxima do Litoral até a região de Curitiba e, no máximo, Ponta Grossa. Dali, se desviam rumo ao oceano.

O motivo, explica o meteorologista de Itaipu, é que as massas de ar quente impedem a entrada dessas frentes frias, que acabam se concentrando apenas na região do Uruguai e no Rio Grande do Sul. O ar quente é engrossado pela fumaça das queimadas, como já dissemos acima, e por outro fenômeno: a ausência dos Rios Voadores, uma espécie de curso d’água invisível que circula pela atmosfera.

Este rio invisível é a umidade gerada pela Amazônia, que se dispersa por todo o continente sul-americano, tendo como principais regiões de destino  o Centro-Oeste, o Sudeste e o Sul do Brasil. Este ano, por causa das queimadas na Amazônia, os Rios Voadores perderam força. Sem eles, o Centro-Oeste brasileiro está com umidade relativa do ar semelhante à de desertos, bem como áreas do Sudeste e do Sul, o que também acontece aqui no Paraná (especialmente no Oeste).

Abastecimento de água

Foto de Pedro França/Agência Senado

A médio prazo, não se vislumbram problemas no abastecimento de água em Foz do Iguaçu, ao contrário de sistemas que já trazem preocupação à Sanepar, no Oeste do Estado.

Cascavel, Anahy, Santa Tereza do Oeste, Lindoeste, Santa Lúcia e o Distrito de Ibiracema, no município de Catanduvas, são os que mais preocupam a Sanepar. A redução da vazão nos rios ou poços que abastecem aos moradores dessas localidades chega a mais de 50%.

Em Foz do Iguaçu, segundo a assessoria de imprensa da Sanepar, não há problema "por causa da fartura dos nossos mananciais". A cidade se abastece no reservatório de Itaipu, que atende 70% da população, e no Rio Tamanduá, de onde são extraídos os outros 30% de água. "A médio prazo, não há previsão de risco no fornecimento", de acordo com a assessoria

Mas, na área de abrangência da Sanepar de Foz, que compreende os municípios da Costa Oeste, já há uma situação de alerta em relação a Medianeira, onde o Rio Alegria está com o nível mais baixo. A produção de água tratada diminuiu 15%, o que pode provocar, em horários de bastante consumo, alguma redução na distribuição. "Não chega a faltar água, mas você abre a torneira e já não jorra", segundo a assessoria de imprensa da Sanepar.

Nas Cataratas

Já nas Cataratas do Iguaçu, o espetáculo continua. O Rio Iguaçu não está sendo afetado pela estiagem, já que se forma em Curitiba, a partir de rios que descem a Serra do Mar. A chuva, na Serra do Mar, é sempre generosa.

E é generosa também com Curitiba, embora este inverno também tenha sido bastante seco, na comparação com anteriores. Mas choveu e, embora não haja previsão de muitas precipitações, haverá pancadas de chuva já nesta quinta, 12, na capital, onde a temperatura também anda elevada (mas loooonge da registrada por aqui).

A vazão nas Cataratas do Iguaçu, nos últimos dias, tem permanecido em torno de 1.300 metros cúbicos por segundo. Normal, portanto, ou pouco abaixo do normal.

Resumo da história

A seca continua, mas nas torneiras, a médio prazo, não faltará água em Foz. Já em Medianeira, o risco tende a aumentar, se o rio continuar com o nível em queda.

A poluição vai aumentar enquanto não cair uma boa pancada de chuva. Sem chuva e com poluição, a umidade do ar permanecerá baixa em Foz e região, com risco crescente para a saúde.

E a temperatura se manterá elevada, por causa do efeito "tampão" provocado pela poluição.

Uma das compensações estéticas desta época. Foto Patrícia Iunovich

Compensações? Não existem, a não ser estéticas: o sol continuará a dar belos espetáculos ao amanhecer e ao entardecer. E as Cataratas do Iguaçu continuarão a ser a maravilha de sempre.