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Por: Cláudio Dalla Benetta - H2FOZ

"Tensa calma em Ciudad del Este", diz jornal. Abusos na manifestação são apurados

Protesto das vítimas do protesto de quarta-feira, os caminhoneiros que tiveram estragos em seus veículos. Três foram incendiados. (Foto: Captura de vídeo)

H2FOZ - Cláudio Dalla Benetta

O jornal ABC Color, em manchete, acerta o tom da notícia: "Governo negocia e há tensa calma em (Ciudad del) Este". Os manifestantes decidiram dar uma trégua nos protestos, que agora passam por análise de promotores e outras entidades.

Um dos casos em averiguação é o fato de três pessoas serem feridas a tiros, dois manifestantes e um militar. Um vídeo na Internet mostra um militar atirando com fuzil, até ser reprimido por um colega.

O jornal Última Hora publicou o vídeo, onde se vê o militar atirar e depois recolher as cápsulas, até se ouvir outro militar gritando: "No vayas a disparar, c...(palavrão)".

Tiros dos dois lados

Os disparos começaram quando a polícia e os militares estavam liberando a rodovia internacional. Houve tiros nos dois sentidos, segundo noticia o Última Hora. O jornal acrescenta que ainda não foi aberta uma investigação pelo Ministério Público sobre o vídeo que mostra o militar atirando com fuzil.

Mas, de acordo com o jornal Hoy, a promotora Zunilda Martínez informou que o caso desse militar será investigado pela Unidade de Direitos Humanos.

O atirador, antes de ter a ação interrompida por um colega (ou superior?). Captura de vídeo.

O Última Hora destaca que havia gente armada entre os manifestantes, que atiraram contra os militares e contra os agentes do Grupo Especial de Operações, que por sua vez utilizaram balas de borracha e gás lacrimogênio para avançar sobre a área ocupada, quando caminhões de grande porte estavam sendo incendiados.

Segundo o jornal, dois caminhões e uma carreta foram queimados, enquanto outros 18 caminhões foram danificados, principalmente com a quebra dos parabrisas.

Protesto dos caminhoneiros

O mínimo que acontecia aos caminhões que vinham em direção à Aduana paraguaia era terem os parabrisas quebrados.

Revoltados com o prejuízo que tiveram durante a manifestação, caminhoneiros interditaram na quinta-feira (30) a rodovia PY02, pra exigir que o governo paraguaio indenize os proprietários dos veículos. O prejuízo total é calculado em US$ 60 mil (cerca de R$ 310 mil), de acordo com o jornal Hoy.

O secretário do Sindicato Internacional de Transportes da Fronteira, Ricardo Ruiz Bauman, disse que a manifestação foi organizada por dois irmãos, prejudicados pelos protestos de quarta-feira, 29. Os caminhões desses dois irmãos sofreram perda total.

Manifestantes processados

O jornal Hoy noticia que, dos 54 manifestantes detidos na noite do protesto, entre homens, mulheres e adolescentes, a promotora Zunilda Martínez processou 34 homens por perturbação da ordem pública e resistência.

Ela criticou os informes policiais, por serem "muito genéricos" e que sequer falaram dos estragos feitos na agência do banco BNF (foto ao lado).

"Falam apenas em linhas gerais sobre o que ocorreu", disse a promotora à rádio 1080 AM.

Está preso um homem que saqueou uma loja de roupas, mas ainda não se sabe quem incendiou os caminhões nem quem provocou destruição em lojas do microcentro de Ciudad del Este.

Também não há pistas sobre os autores do roubo a uma joalheria, que sofreu um prejuízo de 500 milhões de guaranis (R$ 370 mil).

Ministro reconhece erro

O ministro do Interior do Paraguai, Euclides Acevedo, reconheceu que a revolta dos representantes de Alto Paraná, departamento do qual Ciudad del Este é a capital, se deu porque a resolução sobre a volta da região à fase zero da quarentena foi imposta sem haver antes uma comunicação prévia, como noticia o Última Hora.

Ele também admitiu que a passagem de pessoas pela fronteira enre o Brasil e o Paraguai é feita apesar de todas as restrições, graças a conchavos com os encarregados dos postos de controle, que não cumprem o protocolo sanitário para evitar contágios pelo vírus da covid-19.

Acevedo disse que os trabalhadores de Ciudad del Este, que cumprem o protocolo sanitário, ficam incomodados com o trânsito ilegal de pessoas, "que passam (a fronteira) com a complacência das autoridades".

Alimentos para a população

O governo de Alto Paraná vai distribuir 54 toneladas de alimentos, uma das primeiras respostas paliativas para amenizar a crise que sofre a região de fronteira, segundo informa o jornal Hoy.

A Itaipu Binacional, por sua vez, vai aumentar a doação de alimentos para os mais de 1.200 "sopões", garantindo refeição para mais de 200 mil pessoas por dia.

O anúncio da Itaipu foi feito logo depois da reunião entre as autoridades nacionais e da região de Alto Paraná, que buscou soluções para amenizar o retorno à fase zero da quarentena (na verdade, uma fase zero bem amenizada).

Em todo o departamento, há 1.200 sopões, que serão incrementados para atender mais pessoas. Foto Itaipu Binacional

Crítica do Última Hora

Em editorial, o jornal Última Hora disse que as manifestações de Ciudad del Este já eram de se esperar, depois de cinco meses de quarentena.

"O violento protesto dos cidadãos, na noite de quarta-feira, em Ciudad del Este, em rejeição à decisão governamental de impor novamente uma quarentena total durante 14 dias, ante o aumento de contágios de covid-19, foi uma consequência das graves falhas do Poder Executivo na condução da crise", disse o jornal.

Havia motivos para essa decisão, segundo o jornal, porque Alto Paraná concentra 80% dos casos ativos de covid-19 no país, assim como 30% dos pacientes internados com a doença.

Porém, "houve uma grave falha de comunicação ao divulgar a notícia de forma unilateral por meio de uma entrevista coletiva em Assunção, sem um diálogo prévio com as autoridades e setores da população de Alto Paraná, como havia ocorrido em ocasiões anteriores".

E não só isso, "mas, principalmente, a falta de atenção mais prioritária às necessidades da população fronteiriça, com várias promessas não cumpridas de ajuda e de melhor atenção em saúde. Acima de tudo, persite a ausência de um plano de contingência para a reativação econômica de uma região que vive especialmente do comércio fronteiriço, mas que deverá continuar com a paralisação por muito tempo, sem um prazo definido, enquanto as fronteiras continuarem fechadas devido à pandemia".

Prossegue o editorial: "Ainda que seja a segunda cidade mais importante do país, além de ser uma das mais vulneráveis por sua localização na fronteira e por seu grande dinamismo comercial depender de mercados internacionais, Ciudad del Este não recebeu a atenção que merecia por parte do governo. A situação de centenas de lojas fechadas e de milhares de pessoas que ficaram sem trabalho era um barril de pólvora social que a qualquer momento poderia explodir, mas não se deu muita importância".

Diz ainda o Última Hora: "Houve promessas de ajuda social e econômica que não se cumpriram. Tampouco se trabalhou muito para melhorar a infraestrutura de saúde, na região de maior risco de contágio, por sua proximidade com o Brasil. Tampouco se impediu de verdade o ingresso clandestino de contrabando de mercadorias e pessoas".

O acordo entre os ministros do governo e as autoridades regionais, que garantiu a abertura do comércio entre 5h e 17h, "é apenas um remendo que mantém vigentes os riscos sanitários e não corrige a problemática de fundo. Além disso, é interpretado como uma derrota política do governo, obrigado a dar marcha atrás em sua decisão logo após os protestos", conclui o Última Hora.

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