Não voto em negacionista do clima

Coletivo Ambiental – OPINIÃO

Talvez seja a hora de encarar as verdades inconvenientes (1)!

Precisamos bifurcar antes que a barbárie se estabeleça!

O diagnóstico estabelecido há anos pelos cientistas está confirmando-se dia após dia com uma margem de erro mínimo. Hoje é fato consumado: a situação é irreversível!

Pela primeira vez na história, a ação predadora do homem está destruindo o planeta. O processo da sexta extinção da cadeia de seres vivos (-60% dos animais selvagens, -80% dos insetos) e o aquecimento global (+ 1 grau ), somados à retroalimentação dos eventos, ainda quase desconhecidos, estão colocando, no dia de hoje, as condições de reprodução da vida e de preservação de territórios sob pressão.

Essas ações trazem graves consequências para os sistemas econômicos, sociais e sanitários e, no último estágio, ao possível desaparecimento da espécie humana. Caso essa situação permaneça, até o final do século 21, deixaremos para nossos filhos, para nossos netos, em numerosas regiões do planeta, uma terra inabitável (2).

Se a ciência desempenha um papel fundamental no enfrentamento do maior desafio da humanidade (2), as escolhas e as decisões a serem tomadas são, eminentemente, de natureza política e democrática, precisando da implicação ativa dos cidadãos. Por se tratar do futuro da humanidade, a responsabilidade não pode só recair nos ombros dos poucos tomadores de decisões, detentores de certos saberes.

Nunca o lema “Pensar global, agir local” encontrou uma ressonância tão concreta, pois o local será o terreno das mudanças significativas a partir das quais a multiplicação das escalas poderá ser alcançada.

No mundo inteiro, em particular na Europa, os jovens da geração Z, a sociedade civil, pessoas cada vez mais conectadas e informadas, mas também sofrendo a realidade da experiência dos eventos extremos, estão levantando-se para pressionar governos e empresas a mudarem o rumo das sociedades.

Por outro lado, a indiferença do pior continua a anestesiar a mente da maioria. O simples mecanismo psíquico de defesa, perfeitamente humano, da negação ou o hubris do homem moderno amplificado pela missão demiúrgica do capitalismo ou, a partir dos anos 1950, com a escolha da matriz nuclear, a submissão à tecnologia, verdadeira submissão à ordem, num efeito de sideração, levam a negar o sentimento da catástrofe. Essas reações impedem, assim, a fenda do imaginário (3) de vislumbrar um futuro; ou seja, que um novo mundo a ser pensado seja possível.

O cenário deslumbrante proporcionado pelas Cataratas do Iguaçu, protegidas pela criação do Parque Nacional do Iguaçu, assim como todos os recursos naturais associados à preservação desse bioma único da Mata Atlântica, não nos permite ignorar a forte ameaça que paira em cima desse patrimônio natural. Tampouco, não podemos afastar-nos do conhecimento da desertificação em curso no Brasil ligada ao desmatamento da Amazônia e da região.

Ainda mais quando o Brasil e a nossa região abrigam os últimos verdadeiros guardiões ancestrais das florestas, com seus saberes milenares sobre o convívio saudável entre o homem e a natureza, a partir das quais as sociedades modernas poderão reelaborar uma nova sabedoria de novos valores e desejos.

Preservar o meio ambiente não é mero efeito cosmético ou simbólico, pois as consequências da degradação são concretas em relação a todas as esferas e campos da vida humana e na organização da sociedade. Não pode ser reduzido à simples defesa do Parque Nacional, menos ainda como produto turístico reificado e de seu entorno direto, mas também da vida e da organização da zona urbana de Foz do Iguaçu.

Precisamos pôr o meio ambiente no coração da política.
Por isso, não voto em clima negacionista!

Fontes:
(1) A Verdade Inconveniente, All Gore, Manole, 2006.
(2) A terra inabitável, uma história do futuro, David Wallace-Wells, Companhia das Letras, 2019.
(3) O maior desafio da história da humanidade, Aurélien Barrau, MichelLafon, 2019.
(4) O sentimento da catástrofe, entre o real e o imaginário, Annie Le Brun, Iluminuras, 2015.
(5) No tempo das catástrofes, de Isabelle Stengers, CosacNaify, 2015.

f: @coletivo ambiental de Foz do Iguaçu – CAFI

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