Por violino raro, alemão e filha são torturados e mortos (por alemães) no Paraguai

Pai e filha foram torturados e mortos. Assassinos queriam certificados dos valiosos violinos Stradivarius.

Só um dos violinos, com certificado de que era mesmo Stradivarius, pode valer até US$ 16 milhões.

A polícia paraguaia acredita ter solucionado o assassinato de um alemão e de sua filha adolescente, assassinados em casa, no município de Areguá, a 380 km de Ciudad del Este. O crime aconteceu em 22 de outubro e, a princípio, os suspeitos eram os pedreiros que trabalhavam na construção da moradia dos alemães.

Nesta quinta-feira, 11, a promotora Sandra Ledesma abriu processo contra três alemães, detidos pela polícia sob suspeita de serem os assassinos do seu compatriota Bernard Von Bredow e de sua filha. Os dois foram torturados para que entregassem os certificados de autenticidade de valiosos violinos Stradivarius e depois assassinados.

Segundo noticia o jornal ABC Color, os acusados são Volker Grannass, Yves Asriel Spartacus Steinmetz e Stephen Jorg Messing Darchinger, que também moram em Areguá.

A hipótese da promotoria é de que Volker Grannass, de 58 anos, foi o organizador do assalto à casa de Bernard, de 62 anos, invadida por pelo menos três homens. Yves Asriel Spartacus Steinmetz, de 60 anos, e Stephen Jorg Messing Darchinger, de 51 anos, são considerados cúmplices. Os três vão responder ainda a inquérito por transgressão à lei de armas.

Depois de agredidos brutalmente, Bernard e a filha, Loreena Lydia Bredow, de 14 anos, foram executados. Ele levou um tiro na cabeça e ela no abdômen.

Bernard Von Bredow, em foto de sua página no Facebook.

CERTIFICADOS

Uma investigação do departamento de Homicídios da Polícia Nacional apurou que a possível causa do crime sejam os certificados de quatro violinos que pertenciam a Bernard, mas que, para surpresa dos policiais, foram encontrados na terça-feira, 9, na casa do principal acusado, o amigo dele Volker Grannass.

A surpresa maior é que esses quatro violinos teriam queimado num incêndio ocorrido na casa do outro acusado, Yves Asriel Spartacus Steinmetz, que na realidade teria simulado o incêndio para que Bernard acreditasse que os instrumentos tinham sido destruídos, para depois cedê-los ou vendê-los a Volker Grannass.

No entanto, os violinos, que seriam Stradivarius, só teriam grande valor caso se fossem autenticados. Os certificados estavam guardados num cofre que Bernard Raymond Bredow escondia dentro de um dos cinco contêineres que usava como depósito, no pátio da sua casa.

A hipótese é que Volker mandou assaltar Bernard, para exigir que entregasse os certificados. Para isso, Volker contou com a cumplicidade de Yves, que forneceu dados precisos sobre a movimentação na casa, já que era mais próximo da vítima, segundo o ABC Color.

Quanto a Stephen, sua participação ainda está sendo averiguada, mas ele teria ajudado a encobrir os crimes e foi detido quando tentava esconder algumas armas, durante uma série de buscas policiais feitas em Areguá e Itauguá, municípios vizinhos.

VALIOSOS

O luthier (profissional que constrói e restaura instrumentos musicais) Víctor Aguilar, que teve contatos com o alemão torturado e morto junto com a filha, deu entrevista ao jornal Última Hora com detalhes sobre os intrumentos que o alemão tinha e sobre o valor deles no mercado internacional.

Víctor Aguilar disse que o contato dele com Bernard foi de caráter profissional, já que participou de palestras e de um curso do alemão, que também era especializado em restaurar instrumentos.

Ele contou que o alemão chegou a lhe mostrar uma viola, “um instrumento de muitíssimo valor”. Na ocasião, os violinos Stradivarius dele deviam estar ainda na Alemanha.

O luthier explicou que os instrumentos antigos que a vítima possuía são únicos, com som muito particular e alto valor histórico.

“Com um certificado de autenticidade, podem, inclusive, valer US$ 16 milhões”, disse. “Creio que um dos violinos que ele me mostrou custa mais de US$ 100 mil”, acrescentou.

Aguilar disse que a relação entre a vítima e o suposto responsável pelo crime era de amizade, desde que Bernard chegou ao Paraguai.

“Bernard tinha uma boa relação de amizade com ele, mas a relação se quebrou depois da perda de alguns instrumentos, segundo me contaram”, disse (provavelmente referindo-se à falsa destruição dos violinos, arquitetada pelos “amigos”).

STRADIVARIUS

Pintura de Antonio Stradivari com seus violinos. Foto do site do luthier Lineu Bravo

O jornal ABC Color explicou por que os violinos Stradivarius são considerados “obras de arte” e por que são tão valiosos.

Eles foram fabricados a partir do ano de 1683 pelo luthier italiano Antonio Stradivari, que dedicou sua vida a aperfeiçoar o som e a estrutura do instrumento.

Stradivari chegou a fabricar cerca de 1.200 violinos, dos quais existem ainda pouco mais de 600, a maioria pertencentes a coleções de multimilionários, bancos, fundações e museus. Na América Latina, pelo que se sabe, só há um deles, no Museu do Teatro Colón, em Buenos Aires.

A validação da autenticidade do Stradivarius é feita por poucos especialistas. Alguns deles estão na Itália, França e Estados Unidos.

NA CENA DO CRIME

O principal suspeito esteve na cena do crime, dizendo que estava voltando de viagem.

Outra reportagem do ABC Color conta que o principal suspeito do crime, Volker Granass, foi à casa de Bernard quando efetivos policiais estavam fazendo apurações do crime e jornalistas faziam a cobertura.

Granass contou aos jornalistas que a vítima nunca tinha dinheiro em casa e que tinha conversado pela última vez com Bernard em 19 de outubro. Viajou a seguir para o Chaco, de onde afirmou estar voltando naquela mesma tarde em que os corpos foram encontrados.

“AMIGOS”

Quando Bernard chegou da Alemanha, os três suspeitos logo fizeram amizade. E, quando Bernard precisou viajar à Alemanha, confiou seus valiosos instrumentos musicais a Yves Asriel Spartacus Steinmetz.

Mas, quando voltou ao Paraguai, seu “amigo” lhe contou que os violinos haviam sido destruídos num incêndio ocorrido em sua casa.

QUEM ERA

Bernard Raymond von Bredow era arqueólogo, proprietário de um museu (o Mammutheum) e fabricante de instrumentos musicais, inclusive para colecionadores de todo o mundo, segundo a BBC.

Ele ganhou notoriedade na adolescência quando descobriu o esqueleto completo de um mamute perto de sua cidade natal de Siegsdorf, na Baviera. Mais tarde, fundou um museu sobre mamutes e também fez trabalhos em biologia, geologia e outros campos.

O arqueólogo morava no Paraguai desde 2018, mas sempre viajava para a Alemanha e outros países.

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Claudio Dalla Benetta - H2FOZ

Cláudio Dalla Benetta é jornalista e repórter do H2FOZ. e-mail: [email protected] Veja mais mais conteúdo do autor.

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