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Quaresma, Ramadã, Iemanjá, Lutero e Ano Novo

Estamos em um período em que podemos celebrar tudo isso aqui mesmo e estabelecer um diálogo de fé e respeito sem imposição de credos.

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Quaresma, Ramadã, Iemanjá, Lutero e Ano Novo
Diálogo inter-religioso é o que o nome diz, um diálogo. Curiosidade e respeito mútuo sem hierarquias - Foto: Claudio Siqueira

Por Claudio Siqueira

Então avistaram o primeiro crescente no dia 17 deste mês e aqui no sul do mundo iniciou-se o Ramadã que coincidiu com o início da Quaresma. Dizem que essa sincronização das duas temporadas de santificação e contrição espiritual para cristãos e muçulmanos só se repetirá, provavelmente, daqui a 163 anos (em 2189).
Coincidentemente ainda, neste fevereiro de 2026 também temos, no dia 17, o Ano-Novo Chinês. E das datas fixas, dois de fevereiro foi celebrada Iemanjá (segundo dia do segundo mês) que ocorreu com a celebração do cinquentenário desta celebração aqui em Foz, iniciada pela Vovó Benedicta, saudosa Yalorixá e líder espiritual do povo de axé daqui da nossa terra. Ainda, a Quaresma, data católica romana (também observada por anglicanos e luteranos — os ortodoxos observam o período de jejum em outra data que se inicia na segunda, que chamam de limpa), este ano caiu no dia em que anglicanos e luteranos reverenciam a data de morte de Lutero.

Bastante informação de uma vez só, junto e misturado. Vamos agora por partes.

O Ramadã é o nono mês do calendário islâmico, considerado o período mais sagrado para os muçulmanos por marcar a revelação do Alcorão ao profeta Maomé. É um tempo dedicado à purificação espiritual, autodisciplina e caridade. O cálculo do Ramadã é baseado no ciclo lunar, o que explica por que a data muda todos os anos no nosso calendário solar (gregoriano). Tradicionalmente, o mês só começa quando a primeira fatia da lua crescente (hilal) é avistada a olho nu após a lua nova. No 29º dia do mês anterior (chamado Sha’ban), comitês religiosos observam o céu logo após o pôr do sol. Se a lua for vista: o Ramadã começa após o por do sol. Se a lua NÃO for vista (nuvens ou posição): o mês de Sha’ban completa 30 dias e o Ramadã começa automaticamente no dia seguinte. O início do Ramadã pode variar conforme o país e o método de observação (visual ou cálculo astronômico) — no Brasil, a observação do início do Ramadã segue a tradição islâmica de monitoramento do ciclo lunar, combinando a observação visual direta com cálculos astronômicos modernos.

A Quaresma é o período de 40 dias de preparação espiritual que antecede a principal festa do cristianismo, a Páscoa. Inspirada nos 40 dias que Jesus passou no deserto, ela é um tempo de conversão, penitência e reflexão. A Páscoa é calculada dentro de um sistema solis-lunar, ou seja, observa-se o calendário solar justapondo o lunar. Assim, a Páscoa é celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia que ocorre após o equinócio fixado eclesiasticamente em 21 de março, que para nós do Sul é o equinócio de outono. Então calcula-se 40 dias retroativos, descontando os domingos, e chega-se à quarta-feira de cinzas, que é o dia posterior ao carnaval. O Carnaval é a maior festa popular do Brasil, mas o que muita gente esquece é que ele está diretamente ligado ao calendário religioso que acabamos de conversar: ele é a “festa da carne” antes do jejum da Quaresma. Na verdade, Carnaval vem do latim “carnem levare”, que significa algo como “despedida da carne”. Então não, o carnaval, como data cristã, não é o “festival da carne”, mas o período em que a igreja permitia aos fiéis extravasar para se despedirem da “carne”, pois logo viriam longos 40 dias de jejum e oração.

Curiosamente este ano a Quaresma então cai no dia exato e fixo da celebração e observação da data da morte de Lutero. Falar de Martinho Lutero é falar do homem que “rachou” a cristandade ocidental. Ele não era um revolucionário político, mas um monge obsessivo com a própria salvação que acabou mudando a geopolítica e a filosofia da Europa. Por isso católicos não o veneram, mas anglicanos e luteranos o reverenciam.

Bom, fevereiro por si já coincidiu datas interessantes para um diálogo inter-religioso, mas, também em fevereiro, logo no começo, o povo do terreiro celebra Iemanjá, orixá dos mares. Sua festa é uma das maiores manifestações de fé sincrética do Brasil, o dia da “Rainha do Mar”, que os católicos celebram dedicando a data a Nossa Senhora dos Navegantes.

Então, como quatro datas não são suficientes para o fevereiro de 2026, temos ainda no dia 17, o Ano-Novo Chinês, que observa um calendário lunar. O ano chinês é composto de 12 meses lunares que alternam entre 29 e 30 dias e um 13º mês complementar para fechar o ano solar (não ocorre todo ano — ele é inserido 7 vezes em ciclos de 19 anos). Eles repetem esse ciclo em um ciclo maior de 60 anos atribuindo a cada ano um dos 12 animais do horóscopo chinês associado a um dos cinco elementos. Este ano de 2026 é o do cavalo de fogo — quem assistiu ao desenho na TV nos idos dos anos 80-90 sente saudades, mas não é deste cavalo de fogo que se trata o Ano-Novo Chinês de 2026.

Na prática, o Ramadã começou oficialmente dia 18, coincidindo com a Quaresma, mas a primeira observação da lua foi no dia 17, coincidentemente com o Ano-Novo Chinês — apenas uma pequena nota para não nos perdermos aqui.

Assim, temos duas datas fixas que observam o calendário solar gregoriano, duas datas móveis que observam calendários lunares distintos, e uma data que observa um calendário solis-lunar. O Sul do mundo se coordenou astronomicamente este ano.

Tudo isso é muito interessante, tanto do ponto de vista cultural e sociológico como antropológico. Estamos em um período em que podemos celebrar tudo isso aqui mesmo e estabelecer um diálogo de fé e respeito sem imposição de credos.

Sobre diálogo inter-religioso é importante saber que ele não é nem sincretismo nem ecumenismo. Ecumenismo é o termo dado ao diálogo das igrejas maiores da cristandade, como católicos, ortodoxos e protestantes (anglicanos e luteranos). Um ecumenismo mais ampliado inclui o movimento evangélico e um ecumenismo ainda mais ampliado inclui o Islã e o Judaísmo, que assim como o cristianismo são as maiores religiões monoteístas atualmente; porém aqui é importante salientar que formalmente não existe ecumenismo ampliado, já que ecumenismo é o diálogo inter-cristão. E o budismo, onde entra? Budismo não é monoteísta (tampouco politeísta) e não está relacionado com o Ano-Novo Chinês, que vem de uma cultura milenar que sincretiza o taoísmo e o confucionismo. Nem por isso menos merecedor de respeito e admiração.

Já diálogo inter-religioso é o que o nome diz, um diálogo entre crenças e fés que se propõem não a se misturarem, mas a se observarem com respeito mútuo.

Já sincretismo é um termo complicado de falarmos em um escopo de texto curto como o deste aqui, mas temos duas abordagens consagradas no Brasil, como na Umbanda, de forma geral, que como religião brasileira genuína tem no sincretismo do catolicismo popular e das religiões afro a sua base; e o Candomblé, que para sobreviver disfarçou seus orixás em santos por causa da perseguição. Hoje o Candomblé se despe do sincretismo, mas a Umbanda o cultiva.

Sincretismo quase sempre é a mistura de credos forçada por processos coloniais onde o léxico de fé do opressor se sobrepõe ao credo do oprimido. Mas em outro momento faremos essa conversa.
Já diálogo inter-religioso é o que o nome diz, um diálogo. Curiosidade e respeito mútuo sem hierarquias.

Assim, celebremos esse segundo mês do vigésimo sexto ano do segundo milênio da era comum no Ocidente. Com respeito, carinho, curiosidade e admiração pelo outro, pela diversidade e pela unidade.

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    Claudio Siqueira

    Claudio Siqueira é um cidadão iguaçuense com sotaque da fronteira. É editor de vídeos e designer do H2FOZ.

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