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Entre três nações, uma pergunta: quem eu sou quando ninguém me vê?”

Professor Caverna reflete sobre como o mundo nos ensina a usar máscaras.

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Entre três nações, uma pergunta: quem eu sou quando ninguém me vê?”
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Por Professor Caverna

Crescer entre três nações não é apenas mudar de idioma, moeda ou comida. É aprender cedo que identidade não cabe numa gaveta só. É perceber que o espelho devolve rostos diferentes conforme o lugar, o contexto, a língua que sai da boca. Em cada fronteira atravessada, algo fica para trás e algo novo gruda na pele. Mas quando o passaporte dorme na gaveta, quando ninguém pergunta de onde você vem, sobra a pergunta que realmente importa: quem eu sou quando ninguém me vê?

Entre três nações, aprendi a arte de me adaptar. Não como quem mente, mas como quem sobrevive. Aprendi a rir das piadas locais, a modular o tom da voz, a esconder certas opiniões e a exibir outras. Em um lugar, eu era “o de fora”. Em outro, “o que já não é daqui”. No terceiro, uma mistura estranha, difícil de explicar. Com o tempo, percebi que o mundo nos ensina a usar máscaras com eficiência assustadora. Algumas tão confortáveis que esquecemos que são máscaras.

A juventude tem esse talento raro de transformar confusão em combustível. A gente se perde, mas segue andando. E enquanto anda, pensa. Pensa muito. Pensa demais. Entre três nações, eu pensava em quem eu deveria ser para caber. Para ser aceito. Para não causar estranhamento. Só que ninguém ensina como caber em si mesmo. Isso a gente aprende apanhando da vida, tropeçando em silêncios, errando nomes e errando caminhos.

Jean-Paul Sartre dizia que “a existência precede a essência”. Em termos menos acadêmicos: você não nasce pronto, você se constrói. Essa frase bate diferente quando você vive entre fronteiras. Porque se não existe uma essência fixa, então quem sou eu muda conforme as escolhas que faço e as escolhas que evito. Sartre também lembrava que estamos condenados à liberdade. Não escolher já é uma escolha. E entre três nações, não escolher uma identidade única parece, ao mesmo tempo, libertador e angustiante.

Tem dias em que a mistura pesa. Você sente que não pertence totalmente a lugar nenhum. Em reuniões de família, você é “o diferente”. Em rodas de amigos, é “o que pensa estranho”. No fundo, existe uma solidão silenciosa que só quem vive entre mundos entende. Não é tristeza constante, é um ruído de fundo. Uma pergunta que não cala. Quem eu sou quando ninguém me vê? Sem bandeiras, sem sotaques, sem expectativas alheias?

Quando ninguém me vê, sou menos personagem e mais rascunho. Sou aquilo que ainda está em processo. Sou as dúvidas que não cabem em conversa de bar e as ideias que surgem às três da manhã. Sou as músicas que ouço sozinho e os pensamentos que não posto. Quando ninguém me vê, não preciso explicar de onde vim nem para onde vou. Posso simplesmente existir. E isso, curiosamente, dá medo.

Nietzsche falava sobre tornar-se quem se é. Parece simples, mas é uma das tarefas mais difíceis da vida. Tornar-se quem se é exige coragem para encarar o vazio que existe quando tiramos as camadas impostas pelo mundo. Entre três nações, esse vazio aparece com mais frequência. Porque você percebe que muito do que chamava de “eu” era apenas resposta ao ambiente. E quando o ambiente muda, o “eu” precisa ser refeito.

A linguagem jovial da vida moderna tenta vender respostas rápidas. “Seja você mesmo”, dizem. Como se isso fosse um botão. Mas quem é esse “você mesmo” quando suas referências são múltiplas, às vezes contraditórias? Entre três nações, eu aprendi que identidade não é uma linha reta. É um mapa rabiscado, cheio de atalhos, desvios e regiões ainda não exploradas. E tudo bem. Talvez seja assim para todo mundo, mas nem todos têm coragem de admitir.

Quando ninguém me vê, eu não preciso performar sucesso nem fracasso. Posso falhar em paz. Posso mudar de ideia sem pedir desculpa. Posso admitir que ainda não sei. A juventude cobra certezas, mas a filosofia sussurra dúvidas. Sócrates já dizia que saber que nada se sabe é o começo da sabedoria. Entre três nações, essa frase vira prática diária. Você aprende a desconfiar das verdades absolutas, inclusive das suas.

Existe uma força silenciosa em quem vive entre mundos. Uma habilidade de observar antes de falar, de ouvir antes de julgar. Você percebe que cada nação acredita ser o centro do mundo, e nenhuma está totalmente errada nem totalmente certa. Isso relativiza o ego. Te deixa mais atento. Mais humano. Quando ninguém me vê, sou esse observador cansado, mas curioso. Alguém que ainda acredita que pensar vale a pena.

No fim das contas, talvez a pergunta “quem eu sou quando ninguém me vê?” não tenha uma resposta fixa. E talvez isso não seja um problema, mas um privilégio. Entre três nações, aprendi que identidade não é um destino, é um movimento. Um fluxo constante entre o que fui, o que sou e o que ainda posso ser. Quando ninguém me vê, sou exatamente isso: possibilidade.

E talvez seja aí que mora a verdadeira liberdade. Não em escolher uma bandeira definitiva, mas em reconhecer que sou feito de travessias. Que minha casa não é um ponto no mapa, mas um estado de consciência. Sartre estava certo: somos aquilo que fazemos com o que fizeram de nós. E entre três nações, eu sigo fazendo, desfazendo e refazendo. Mesmo quando ninguém está olhando.

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    Professor Caverna

    Caverna é professor de Filosofia, criador de conteúdo digital e coordenador do projeto “Café Filosófico” em Foz do Iguaçu.

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