Em pleno outono, Argentina lança o Plano Primavera. Pobre Argentina!

“No llores por mi Argentina…” A triste melodia, tema do filme “Evita”, vem a calhar pra descrever a crise atual do país vizinho. 

A letra até poderia incluir um “Llores por ti!” Porque não há muito o que fazer pra debelar uma situação caótica, quase catastrófica. Não chega a ser uma Venezuela, mas passa perto.

A inflação dos últimos 12 meses chegou a 54,7%, uma das mais altas do mundo. Só em março, o índice atingiu 4,7%, o que equivale a mais do que é previsto de inflação para o ano inteiro no Brasil e no Paraguai.

Junto com ela, a inflação, veio uma queda de 2,5% do Produto Interno Bruto, em 2018, e uma nova queda prevista pra 2019.

País rico

Buenos Aires em 1900, tempo de riqueza. Foto site Libertad y Progreso

A pobreza já aumentou para 32% da população. Logo na Argentina, país que nos anos 1920 era a sexta economia mais rica do mundo, à frente de Itália, Espanha e muitos outros países europeus. A classe média ostentava a riqueza em viagens ao exterior.

Dados coletados pela Maddison Project Database, vão além no passado, para mostrar que, em 1895 e 1896, os argentinos eram simplesmente os mais ricos do mundo. 

Pelo ranking da época, o produto per capita da Argentina era de 5.786 (não coloquemos a moeda, porque não há como definir o valor de então, só a proporção), à frente de Estados Unidos (5.569), Bélgica, Austrália, Reino Unido, Nova Zelândia e – veja só – Suíça, Países Baixos, Alemanha e Dinamarca.

Não é à toa que, entre nobres do século 19, era comum se referir a alguém com muita riqueza como “tão rico quanto um argentino”.

A queda

Houve ditaduras, em meio a governos democráticos, houve crises econômicas sequenciais, inflação sempre alta ao longo das décadas e, hoje, a economia da Argentina está em 28° lugar no mundo. E em 78° se for considerado o PIB per capita, quer dizer, todas as riquezas do país divididas entre cada argentino.

A de agora, é uma tragédia a mais na história argentina. Esta última começou há cerca de um ano, quando o câmbio descambou. O peso desvalorizou tanto que sacudiu a economia inteira e levou o país a uma recessão.

O governo foi obrigado a recorrer ao Fundo Monetário Internacional, o que já significa o fundo do poço.

Vem pior

Mas sabe a altíssima inflação de março? Pois em abril virá ainda maior, segundo o próprio ministro da Fazenda argentino, Nicolás Dujovne.

Ele não disse, mas é que o governo acertou com vários setores da economia um congelamento de preços, medida que é normalmente antecedida por uma alta generalizada de tudo. Os empresários sobem pra congelar.

O congelamento de preços faz parte do Plano Primavera, anunciado esta semana, com um objetivo claramente eleitoreiro, já que haverá eleições em outubro e a imagem do presidente Mauricio Macri, ao contrário da inflação, não para de despencar.

Plano Primavera em pleno outono? É que a ideia é que os efeitos do plano comecem a ser sentidos na primavera, com reaquecimento da economia, menos inflação. Enfim, sonho de uma noite de verão. Ou de outono.

Nem Maurício Macri acredita no plano que seu governo anunciou. Foto El Independiente

Subiu antes

Além do congelamento de preços de produtos básicos, o plano inclui também também as tarifas dos serviços públicos e descontos em medicamentos.

E até um acordo com as operadoras de telefonia celular para manterem o preço das linhas pré-pagas por cinco meses, até 15 de setembro. Só que as empresas já haviam aplicado um bom reajuste neste mês.

O brasileiro já sabe o que é isso. Foram vários planos econômicos com congelamento de preços, todos fracassados, até que a inflação fosse debelada pelo Plano Real.

O que o governo Macri não teve coragem de fazer, em sua política ao mesmo tempo neoliberal e populista, foi atacar as causas da inflação.

Nem ele acredita

Aliás, vale ressalvar que o próprio presidente não acredita nas medidas que o governo está anunciando. Ele sempre foi contra intervenções desse tipo. Tanto que não foi Macri que as anunciou. Passou a bola pros ministros, tentando se resguardar de um quase certo fracasso.

E como ficam as tarifas públicas? Pois é, o governo absorve aquilo que o consumidor deixa de pagar. Medida que também nunca dá certo. Aumenta a dívida pública, aumenta a desconfiança dos investidores e, ao fim e ao cabo, uma hora ou outra haverá um “aumentaço” para compensar as perdas. 

Assim como o próprio Macri fez ao assumir. Para alinhar os preços das tarifas públicas aos custos, promoveu aumentos dolorosos na luz, nos combustíveis, no gás, etc, etc. 

Quando poderia ter feito isso aos poucos, enquanto adotava medidas para controle da inflação, sem sacrificar tanto justamente os mais pobres.

Há ainda outras medidas no Plano Primavera, nesta mesma linha de agradar os pobres e a classe média. E, também, para beneficiar as pequenas e médias empresas.

O Brasil

Para os brasileiros, que sempre veem os argentinos como rivais em tudo, o que importa a crise por que passam? Mas, se não somos solidários, sejamos então egoístas.

E o egoísmo mostra que a crise deles afeta diretamente a economia brasileira, que por sinal também não vai nada bem. Se a economia argentina está na UTI, a brasileira sofre enquanto espera vaga numa enfermaria lotada.

A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China e Estados Unidos. E somos superavitários no comércio exterior, principalmente com a venda de carros (que despencou nos últimos meses).

A Argentina em crise deixa em situação ainda mais difícil também para o Paraguai, que perde compradores em suas fronteiras.

E o Brasil perde nas exportações.

Lloremos por ti Argentina. Y por nosotros.

Claudio Dalla Benetta - H2FOZ

Cláudio Dalla Benetta é jornalista e repórter do H2FOZ. e-mail: [email protected] Veja mais mais conteúdo do autor.

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