Auxílio-moradia para uns, lama e morte para outros

Mesmo com obras de intervenções na Grande Recife, o saldo de mortos já é recorde trágico. Foto: Danielle Fonseca/TV Globo
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Aida Franco de Lima – OPINIÃO

Dor, medo, desespero, terra e muito lixo. São sempre as mesmas cenas. Pode ser na Grande Recife ou qualquer outro lugar. Muda o endereço, mas quem sofre são os mesmos perfis de brasileiros: aqueles para os quais o Estado não tem ‘penduricalhos’ para lhes dar, assim como faz para políticos e agentes do Judiciário, que mesmo com renda farta, ganham por exemplo direito a auxílio-moradia.

As cidades que são planas, que não têm encostas para que sejam ocupadas não estão livres de problemas similares, pois as enchente também provocam estragos incalculáveis. Normalmente os fundos de vale, que deveriam ser áreas de preservação, acabam sendo as alternativas para quem procura um teto e não tem como pagar. Assim, parece que estão livres de um mal maior, os deslizamentos, que de uma hora para outra joga lama nos sonhos de famílias e comunidades inteiras.

Até o momento são 107 mortos, 16 desaparecidos e mais de 6 mil desabrigados.

As cenas são sempre um replay de um enredo triste. Encostas que deveriam ter vegetação, de proteção permanente, ocupadas por casas, uma abaixo ou nos fundos da outra; ausência de saneamento básico; ausência de galerias adequadas para águas pluviais; lixo transbordando por todos os lados. E pessoas desesperadas.

Encosta com intervenção realizada pela Prefeitura de Recife. Porém, no entorno é visível que a segurança das demais residências está em risco. Foto: Prefeitura do Recife

Dificilmente quando acontecem essas tragédias o local é virgem de acidente. Há sempre um indício, um sinal anterior, de que uma tragédia com os dias contados, seria confirmada.

As pessoas não escolhem morar em locais em que suas vidas estejam em risco. Muitos dos atingidos não deixam suas residências, quando avisadas pela Defesa Civil, porque não acreditam no risco. Se ali estão é porque não resta qualquer outra alternativa, e como deixar para trás, a única referência de moradia? Como largar o ‘tudo’ para ir a lugar nenhum?

Campanhas diversas surgem, como por exemplo da CUFA – Central Única das Favelas, sede Pernambuco, entre outras. Mas o fato é que precisamos de medidas preventivas que evitem que ano que vem a tragédia venha junto com o novo calendário. E a melhor medida preventiva é possibilitar que as pessoas consigam residir em lugares seguros. E que essas áreas sejam reflorestadas. Quanto mais concreto, quando mais permeabilizado o local, é mais fermento nessa massa trágica.

A prefeitura de Recife, por exemplo, tem investido em obras de segurança, pra contenção de barreiras. Mas o fato é que área de risco, o próprio nome já diz. Quem tem poder de adquirir imóvel em local seguro não vai trocar o certo pelo duvidoso.

Até quando continuaremos pagando impostos, subsidiando mordomias aos Três Poderes e negaremos auxílio-vida para essa parcela da população, que é obrigada a morar em um lugar onde o lar, em vez de sinônimo de doçura, é transformado em fel, lama e dor?

Até quando nossas áreas naturais, que deveriam ser preservadas, serão transformadas em campos de tragédias, para quem insiste em ali residir por conta da cegueira do Estado ?

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Aida Franco de Lima

Aida Franco de Lima é jornalista, professora e escritora. Dra. em Comunicação e Semiótica, especialista em Meio Ambiente. E-mail: [email protected] Veja mais conteúdo da autora.

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