Bombeiros, gatos e grades nos bueiros

Bombeiros foram mobilizados para resgatar filhote de gato, caído em bueiro, após abandono. Foto: Rafaela Menotti
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Aida Franco de Lima – ARTIGO

Desde quando éramos crianças, entre as figuras heroicas de nosso imaginário, estavam eles, os bombeiros. E apesar de inúmeras notícias em que alguns desonram a farda, como no caso recente do bombeiro do Rio de Janeiro, que baleou um atendente do McDonald’s por conta de um cupom vencido que lhe daria direito a um desconto de 4 reais, nossos heróis continuam nos orgulhando.

Equipe de Bombeiros resgatou filhote de gato que estava caído em bueiro, após abandono. A certeza da impunidade faz com que os abandonos ocorram nos mais diversos pontos do País. Foto: Rafaela Menotti

O caso ocorreu em Cianorte, Paraná, na noite fria de 19 de maio última, mas não importa a cidade, a história se repete. Algum inconsequente em vez de usar as redes sociais para buscar lares para 3 filhotes de gatos, achou mais fácil abandoná-los. Era fim de tarde, em uma via movimentada, estavam lá três pontinhos pretinhos e peludos, na beira de um bueiro ou também chamado de boca de lobo. Um dos mais ousados tentava atravessar a avenida e quase foram suas sete vidas embaixo de quatro pneus.

Ninhada foi abandonada e um dos gatinhos caiu dentro do bueiro. Equipe do Corpo de Bombeiros de Cianorte foi mobilizada para fazer o ‘resgato’. Vídeo: Rafaela Menotti

Foi quando nos unimos para resgatá-los, mas um deles, o terceiro elemento caiu na boca de lobo, com profundidade de mais de um metro. Ou seja, eles não saíram daquele local, eles foram soltos ali.

Como não conseguíamos retirá-lo de dentro do bueiro, ligamos para o 193. Depois de ter certeza que não se tratava de um trote, em menos de 20 minutos estava lá a viatura. Com as ferramentas adequadas, e muita boa vontade, a tampa do bueiro foi aberta e mais que esperado, o filhotinho assustado foi para dentro da tubulação. Então tivemos a ideia de usar um dos irmão que já estava salvo, como uma espécie de ísca. Ele foi retirado da caixa de transporte e posto na gatoeira. O filhotinho perdido saiu de dentro da tubulação, que foi fechada com uma tampa suspensa por um fio. E então, um dos bombeiros entrou na boca de lobo e resgatou a pequena fera.

Os demais gatinhos só não caíram todos no bueiro porque o lixo que veio com enxurrada ficou parado nas grades. O lixo foi retirado para ajudar no resgate, e como é possível perceber, no interior do bueiro não há aquela quantidade exorbitante de detritos. Vídeo: Rafaela Menotti

Para nossa surpresa, o que foi interessante perceber era que o bueiro, não estava entupido. Estava livre de sujeira. Isso por conta de uma simples grade de ferro, disposta entre o meio-fio e a boca de lobo, que impediu que o lixo fosse carregado junto da água. Uma ideia simples e útil! Quantos problemas seriam resolvidos, se os ‘bueiros inteligentes’ fossem ativados? Claro, tem que ser uma grade anti-roubo também. No caso em questão, era apenas uma meia dúzia de pedaços de ferros fixados. Sim, tem que ser presos para que eles não rodem com as águas e nem com os furtos.

Filhote que estava preso no bueiro foi atraído para fora da manilha com outro da mesma ninhada, já preso na gatoeira. Vídeo: Rafaela Menotti

Também uma ideia simples e útil é que os municípios chamem pra si a responsabilidade de efetivarem uma Educação Ambiental de verdade. Já escrevi sobre isso, no texto cujo título é explicativo: Castrar, chipar, educar e multar: o caminho para proteger nossos animais. No caso em questão, tivemos de mobilizar uma equipe com 03 homens e caminhão, para socorrermos um filhote que, se não fosse tal trabalho, morreria de fome no bueiro. Isso porque, quem o jogou, confia que a Lei de Crimes Ambientais não é cumprida. Que não lhe seria imposta nenhuma multa ou pena por tamanha crueldade.

Mais uma vez, fica o agradecimento às equipes de Bombeiros de todo o Brasil que atendem às chamadas da população, mesmo quando se trata de um ‘resgato’, afinal, o direito à vida é a maior das dádivas. A imagem da Corporação, que deve ficar para a sociedade, é dessa que socorre pessoas e animais, a qualquer hora do dia ou da noite. O resto, deve ficar por conta da Justiça e no bueiro da História.

Já recolhidos, os 3 filhotes agora passarão pela longa jornada de tentar encontrar um lar. Foto: Aida Franco de Lima

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Aida Franco de Lima

Aida Franco de Lima é jornalista, professora e escritora. Dra. em Comunicação e Semiótica, especialista em Meio Ambiente. E-mail: [email protected] Veja mais conteúdo da autora.

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