Aida Franco de Lima – OPINIÃO
Havia um tempo em que os escravos eram açoitados em praça pública e isso era normalizado. Mesmo com tal situação não sendo mais aceitável, e jamais deveria ter sido, há quem ainda insista nessa prática.
Na Grande São Luiz, no Maranhão, um caso ganhou destaque na mídia e nos leva a refletir sobre até que ponto as pessoas se sentem à vontade para cometer crimes e acreditam que realmente, sempre, sairão impunes, inclusive contando vantagem acerca do que é motivo de vergonha para a espécie humana.
É o caso de Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, que contratou Samara Regina, uma jovem de 19 anos, grávida, para limpar a sua grande casa. Teria sido combinado um mês de trabalho, com jornada de segunda a sábado, das 9h às 19h, com 30 minutos de intervalo, porém sem definir o valor. De acordo com a funcionária, foram duas semanas trabalhando dez horas por dia, para receber o valor de R$ 750. Mas ao final das faxinas, em vez de um PIX, tapas e outras agressões.
Não contente em cometer o crime entre suas paredes, a agressora gravou áudio e mandou para um grupo de amigas. A “sinhá digital” estava segura de que tal façanha lhe daria mais status?
Carolina acusou Samara de ter roubado um anel e planejou uma estratégia para recuperar a sua joia, para o dia seguinte. Na manhã de 17 de abril, mandou a moça arrumar a casa porque receberia um amigo. Era um policial, que chegou com a arma, nas palavras de Carolina, “uma jumenta de uma arma que chega brilhava”.
Nos áudios enviados ao grupo de amigas, narrou como foi a sessão de tortura com todas as “doidices” que podiam fazer. Foi mais de uma hora procurando a tal joia — e, mesmo depois de encontrá-la no cesto de roupas sujas, as agressões continuaram.
Carolina tem histórico de pagar as ex-funcionárias por meio de contas de terceiros e em seu currículo responde a cerca de dez processos. Em um deles, de 2024, acusou uma ex-babá de ter roubado uma joia. A calúnia lhe atingiu o bolso, com uma indenização de R$ 4 mil, e a pena de seis meses de reclusão foi convertida em serviços comunitários. Prova de que pena branda apenas a deixou com mais “bala na agulha”.
De acordo com notícia do G1, “Carolina Sthela Ferreira dos Anjos e o marido, Yuri Silva do Nascimento, foram condenados em 2023 por furto qualificado mediante fraude após desviarem mensalidades de uma escola de natação em São Luís”. A empresa é de sua irmã, e o valor do desvio foi de R$ 20 mil. Até mesmo a família é vítima daquela que a imprensa trata de empresária.
A patroa ainda contou vantagem ao dizer que, após ser denunciada por Samara, policiais foram até sua casa, mas como era amiga de um deles nada lhe aconteceu. Ela realmente achou uma grande vantagem narrar com riqueza de detalhes seus atos de violência.
Foi somente depois de o caso viralizar nas redes sociais que a mão leve da Justiça foi acionada. Carolina, como todo e bom acusado faz, disparou uma nota no estilo do “quem me conhece sabe”.
- “Também registro que repudio qualquer forma de violência, especialmente contra mulheres, gestantes, trabalhadoras e pessoas em situação de vulnerabilidade. Justamente por reconhecer a gravidade do assunto, entendo que tudo deve ser apurado com seriedade, equilíbrio, provas e respeito ao devido processo legal.”
A torturadora reclama de que sua família está sendo linchada virtualmente, porque veio à tona o linchamento físico e moral que ela cometeu contra uma gestante. Diz esperar que os fatos sejam esclarecidos…
O caso é investigado pela 21.ª Delegacia de Polícia Civil do Araçagy, pois a vítima registrou um boletim de ocorrência. Carolina Sthela passou por audiência de custódia na 2.ª Central das Garantias da Comarca da Ilha de São Luís, que decidiu manter a prisão que havia sido decretada somente na última quinta-feira (7). Ela foi presa quando tentava fugir do Maranhão. O policial militar envolvido no caso, Michael Bruno Lopes Santos, entregou-se e também foi detido.
As fotos da acusada de agressões sendo presa não lembram em nada aquelas das redes sociais, com nariz empinado e ar de “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Carolina tem Anjos no seu sobrenome, mas pelo andar da carruagem tinha costume de infernizar a vida de seus semelhantes, os quais, pelo visto, acostumou-se a tratar como simulacro de escravos. Não deverá ficar muito tempo atrás das grades, mas quem sabe no futuro, à frente de suas decisões, lembre-se de que, eventualmente, a justiça tarda, mas não falha.
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