Aida Franco de Lima – OPINIÃO
Há uma canção do Silvio Brito, de 1985, que se chama Pare o mundo que eu quero descer. Um trecho diz: “Ter que pagar pra nascer, ter que pagar pra viver, ter que pagar pra morrer.” E quando a gente paga, paga, paga, mas os governantes não dão o retorno quando mais precisamos?
Ninguém está preparado para receber a notícia de uma fatalidade, como acidente de carro ou perda de um bebê. E a dor é ainda maior quando a família e amigos não têm nem direito de velar e despedir-se com dignidade da pessoa querida. A angústia aumenta em casos de desaparecimento, quando não há o paradeiro do corpo. A sensação é de que, sem finalizar o sepultamento, o luto não se encerra. E quando a família está diante do corpo da vítima, no asfalto, sob chuva, sem poder fazer nada, esperando vir um carro do Instituto Médico Legal (IML) de cidades vizinhas?
Cidades consideradas pequenas carecem de infraestrutura, e a comunidade se obriga a acostumar a depender de serviços de fora. É o caso de Cianorte, com média de 80 mil habitantes, que não tem UTI Natal nem mesmo IML. É uma luta para nascer e outra para ter o direito de ser sepultado. Uma vergonha para um município que torra milhões em seu aniversário não ser capaz de presentear seus bebês com tratamento digno. Ou despedir-se dos seus com dignidade.
- Na última terça-feira, 7, em um acidente de trânsito, um jovem de 26 anos perdeu a vida. O acidente ocorreu por volta das 15h30. O corpo só foi recolhido pelo IML após as 21h! Foi necessário praticamente um dia para liberá-lo… O velório foi realizado somente das 14h30 às 17h da quarta-feira, 8. A mãe do rapaz foi avistada em uma igreja inconsolável. Ela mal teve tempo de velar seu amado filho.
A dor do luto se misturava à inconformidade e revolta em ver o corpo do filho jogado no asfalto, com a chuva espalhando seu sangue, e ela sem poder fazer nada, impedida de recolhê-lo e sem nenhuma autoridade para fazê-lo. Até quando famílias passarão por esse sofrimento?
- Em outro caso, uma amiga narrou: o irmão se acidentou às 19h30. O IML chegou somente às 23h30. O corpo foi liberado apenas no outro dia, praticamente 24 horas depois, às 21h. Luto, angústia, sentimento de impotência… Impotência diante da morte, mas principalmente ante o descaso. Não descaso dos trabalhadores, que se desdobram para atender à demanda de toda a região, e sim de quem tem a caneta para contratar quantos trabalhadores bem entenderem. E só não o fazem porque para eles não importa. Simples assim.
Anunciaram que haveria o IML na cidade, e saiu a foto da placa no jornal… Dezenas de acidentes aconteceram… Anunciaram o lançamento da pedra fundamental, e mais outras fotos nas redes sociais em busca de curtidas… Enquanto isso, mais acidentes. Quantas outras famílias precisarão sofrer essa agonia até que um dia realmente o tal IML saia dos planos e se concretize? Cianorte é uma cidade com quase 83 mil habitantes. Muitas outras cidades menores dependem da infraestrutura local. Imagina o que passam as famílias dessas outras localidades?
E não, não é falta de dinheiro. As autoridades não concretizam essa obra, não dão conta de tal demanda porque não se importam. Porque não são seus filhos e seus parentes que morrem ou choram no trânsito. Afinal, eles são imortais. Não precisam desses serviços de simples plebeus! E quando é autoridade, vale a lei da carteirada. Você acha que o filho de um político ou um ricaço ficaria exposto assim? No mínimo, o serviço seria acelerado. Alguém ligaria para outro alguém para cortar a fila e dar a prioridade ao “dotô”. Porque manda quem pode e obedece quem tem juízo, dizem por aí…
O mesmo ocorre com a UTI Neonatal, abortada há décadas. No dia 26 de julho de 2013, o então governador Beto Richa anunciou seis leitos de UTI Neonatal. Assim como a duplicação da PR-323. Saíram fotos e anúncios na mídia, muitos votos certamente foram conquistados com o que não passou de promessa. Eu sei disso porque eu presenciei essa mentira, ou melhor, esse anúncio, e basta dar uma busca na internet para encontrar notícias da época. Até hoje, Cianorte não tem nem UTI Neonatal e muito menos duplicação de rodovia. Só balela. Os políticos que decidem os rumos de nossa região dependem de UTI Neonatal? Dependem das rodovias? Não, né? Usam planos de saúde e aviões, jatos e helicópteros pagos com nossos impostos.
- Este é o relato de Letícia Pivato, em uma postagem que fiz no Facebook, em 24 de setembro de 2025. “Fiquei indo 21 dias pra Umuarama quando meu filho ficou internado lá, pra ficar lá 30 minutos dentro da UTI Neonatal e ter que retornar pra casa com o coração na mão pela distância. Só eu sei o que passamos quando ele foi transferido para Campo Largo. Eu ficava 24 horas com ele na UTI pediátrica. Cianorte necessita de uma uti neonatal urgente !”
- Este é outro relato, de Fernada Ribeiro, em postagem no Facebook, em 06 de abril de 2022. “Eu queria expor minha indignação com a saúde precária em Cianorte. O meu bebê nasceu ontem por volta do meio dia, ele é prematuro, tem 35 semanas, está com problema pra respirar e precisa urgente de uma vaga na UTI. Mas aqui nesse hospital São Paulo é uma enrolação, o parto dele sequer foi acompanhado por uma pediatra. Como deixam um bebê sofrendo desse jeito? A vida dele está em risco. Prefeito junto com a secretaria de saúde, por favor tomem uma providência. É a vida de vários bebês que está em risco por essa cidade não ter uma UTI Neonatal. Eu estou orando pra que meu bebê fique bem, porque se algo acontecer com ele não sei a loucura que sou capaz de fazer.Desculpem é o desabafo de uma mãe desesperada. Por favor compartilhem pra ver se conseguem tomar uma providência.” No dia seguinte a mãe comentou que ontem seu bebê foi transferido para a UTI Neonatal de Ivaiporã e ela estava hospedada em uma casa de apoio para acompanhá-lo.
Até quando vamos chorar com o descaso com quem morre e depende de IML e por quem não nasce porque dependia de UTI Neonatal, por conta de políticos que só pensam em si e usam sempre a mesma desculpa esfarrapada? Quando querem aprovar projetos que são de seus interesses, para atenderem seus grupos, fazem-no a toque de caixa. Depois, vão para as redes sociais, mostrando os dentes, tão falsamente brancos como suas preocupações com os interesses da sociedade.
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