O jejum, no Islã, é uma prática coletiva que expressa de forma profunda os valores de igualdade e justiça entre as pessoas. Durante esse período, todos se colocam sob a mesma regra, vivem a mesma experiência e seguem o mesmo propósito, independentemente de origem, cor, posição social ou condição econômica.
Ricos e pobres, líderes e cidadãos comuns, estudiosos e simples trabalhadores, todos se abstêm de comer, beber e satisfazer desejos do amanhecer ao pôr do sol, movidos pela obediência a Deus e pela busca de crescimento espiritual.
No jejum, as diferenças que normalmente marcam a vida cotidiana perdem força. O dinheiro não concede privilégios, o status social não reduz as exigências, e o prestígio não cria exceções. Essa vivência ensina à sociedade uma lição essencial: o valor do ser humano não está no que ele possui ou no cargo que ocupa, mas nos seus valores, na sua consciência e na sua responsabilidade diante de Deus e da comunidade. É uma mensagem universal, compreensível a qualquer sociedade que busque justiça e dignidade humana.
O jejum também promove uma profunda identificação entre as pessoas. Ao sentir fome, sede e cansaço, todos compartilham sensações semelhantes, o que desperta empatia e solidariedade, especialmente em relação aos mais vulneráveis.
Aqueles que enfrentam dificuldades diariamente deixam de ser uma realidade distante e passam a ser compreendidos a partir da própria experiência.
Assim, o jejum deixa de ser apenas um ato religioso individual e se transforma em uma escola social, que incentiva a compaixão, a generosidade e o cuidado com o próximo.
Outro aspecto marcante é o senso de disciplina coletiva. As rotinas mudam, os horários se alinham e os comportamentos se tornam mais conscientes. A pessoa aprende a controlar impulsos, a refletir antes de agir e a respeitar limites, mesmo quando ninguém está observando.
Essa autoconsciência fortalece valores como honestidade, responsabilidade e respeito, fundamentais para qualquer sociedade que deseje conviver de forma harmônica. Os efeitos dessa igualdade vivida no jejum ultrapassam o indivíduo e alcançam o conjunto da sociedade. Observa-se maior calma, mais paciência nas relações e uma disposição maior para o diálogo e a compreensão mútua. Ao aprender a dominar desejos pessoais, o ser humano se torna mais capaz de lidar com frustrações, conflitos e diferenças, contribuindo para um ambiente social mais equilibrado e humano.
Dessa forma, o jejum se apresenta como uma prática que une pessoas diferentes em torno de um mesmo objetivo, reforçando a ideia de que todos compartilham a mesma condição humana.
Ele lembra que o caminho para o crescimento espiritual e moral está aberto a todos, sem distinção, e que a verdadeira superioridade reside na ética, na consciência e nas boas ações. É uma experiência que dialoga com os valores da sociedade brasileira, marcada pela diversidade, e que aponta para a construção de uma convivência mais justa, solidária e fraterna.
Por Sheikh Oussama El Zahed
Líder religioso da Mesquita de Foz
Centro Cultural Beneficente Islâmico de Foz do Iguaçu



