Por Caroline Cavalcante Espínola | OPINIÃO
O respeito que você demonstra em público é o mesmo que sustenta quando ninguém está olhando? Dentro da sua casa, o que prevalece: diálogo ou imposição, cuidado ou controle? Que tipo de exemplo você está construindo nas relações que cultiva todos os dias? Enfrentar a violência contra a mulher não começa no outro, começa na consciência e na atitude de cada um de nós.
A violência contra a mulher não é um problema distante; ela está próxima, presente e se manifesta de múltiplas formas, muitas vezes silenciosas, naturalizadas e invisibilizadas no cotidiano. Tratar desse tema não é apenas necessário, é urgente: é um convite à conscientização, à responsabilidade coletiva e, sobretudo, à revisão de atitudes. Enfrentar essa realidade não começa no outro, mas em cada um de nós, nas escolhas que fazemos, nas omissões que evitamos e nas posições que decidimos assumir.
Ao longo das últimas décadas, avanços importantes foram conquistados. A Constituição Federal consagrou a igualdade entre homens e mulheres, e a Lei Maria da Penha tornou-se referência internacional no enfrentamento à violência doméstica, ao afirmar, de forma clara, que a violência dentro de casa não é um assunto privado, mas uma violação de direitos humanos. Ainda assim, permanece uma inquietação que não pode ser ignorada: se temos instrumentos tão relevantes, por que a violência continua atravessando tantas histórias e marcando a vida de milhões de mulheres?
Talvez a resposta esteja além das leis. Normas são fundamentais, protegem, punem, organizam. Mas relações verdadeiramente saudáveis não se constroem apenas com regras; elas nascem de valores vividos no dia a dia. Exigem diálogo, empatia, reconhecimento do outro e, acima de tudo, respeito genuíno.
Isso começa cedo. Começa quando ensinamos que cuidado não é controle, que afeto não é posse, que ninguém tem o direito de diminuir ou silenciar o outro. Começa quando deixamos de naturalizar o autoritarismo dentro de casa e passamos a cultivar relações baseadas na dignidade e na igualdade.
A legislação representa um marco civilizatório. Mas a transformação real acontece quando o respeito deixa de ser uma obrigação imposta e passa a ser uma escolha consciente. Quando a dignidade feminina não precisa ser constantemente defendida — porque já é reconhecida, na prática, como um princípio inegociável da convivência humana.
Basta abrir os jornais e o impacto não é apenas informativo: é emocional. Casos de feminicídio, agressões físicas e psicológicas, abuso sexual de meninas, violência patrimonial e moral ocupam manchetes quase diariamente. Não são relatos distantes. São histórias que atravessam bairros, cidades, famílias. Histórias que chocam, revoltam e, sobretudo, entristecem pela repetição quase rotineira. Por trás de cada número há um rosto. Há uma mulher que sonhava, trabalhava, cuidava, planejava o futuro. Há uma menina cuja infância foi interrompida por uma violência que jamais deveria ter
conhecido. Há mães que enterram filhas, filhos que crescem marcados pela ausência, lares que se desfazem sob o peso do trauma. Quando lemos estatísticas, corremos o risco de enxergar apenas percentuais. Mas cada dado representa uma vida concreta, uma trajetória abruptamente interrompida ou profundamente ferida. Não são episódios isolados, são sinais de uma estrutura que ainda falha em proteger, em educar para o respeito e em romper ciclos históricos de desigualdade.
A repetição dessas notícias não pode nos anestesiar. Se a indignação se transforma em indiferença, a violência encontra terreno fértil para continuar. E é justamente contra essa naturalização que o mês de março se levanta: para lembrar que nenhuma mulher deve ter seu destino definido pelo medo.
A violência contra mulheres e meninas foi classificada pela ONU Mulheres como uma “pandemia invisível”, os indicadores de violência doméstica cresceram de forma expressiva em diversos países. O isolamento social, a perda de empregos, a sobrecarga doméstica e as tensões intrafamiliares agravaram um problema que já era estrutural. Segundo o relatório “Progresso nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): Panorama de Gênero 2022”, no ritmo atual, o mundo pode levar quase 300 anos para alcançar a plena igualdade de gênero. Conflitos armados, pandemias, crises econômicas, mudanças climáticas e retrocessos nos direitos sexuais e reprodutivos aprofundam ainda mais as desigualdades.
Em alguns contextos, o cenário é o retrocesso institucional. No Afeganistão, por exemplo, um novo código penal introduzido sob o regime do Talibã prevê punições extremamente brandas para casos de violência física contra mulheres, como penas de poucos dias de detenção por agressões graves, enquanto sanções mais severas podem ser aplicadas a outros tipos de infração. O caso expõe como estruturas legais podem ser utilizadas não para proteger, mas para consolidar a desigualdade e a vulnerabilidade feminina.
Diante desse cenário, o mês de março não pode ser reduzido a flores e homenagens protocolares. A data exige reflexão séria sobre o que ainda falha na estrutura social que deveria proteger mulheres e meninas. Exige questionar por que as denúncias não são devidamente acolhidas, por que o silêncio ainda impera dentro de muitas casas e por que a violência continua sendo relativizada como um “conflito privado” em vez de ser tratada como a grave violação dos direitos humanos que realmente é.
A transformação não depende apenas da existência de leis, embora elas sejam indispensáveis. Exige políticas públicas consistentes, redes de apoio estruturadas, autonomia econômica feminina e, sobretudo, uma mudança cultural capaz de internalizar o respeito nas interrelações. Esse processo começa na formação das crianças, passa pela revisão de estereótipos que naturalizam desigualdades, pela responsabilização efetiva de agressores e pela atuação firme e coordenada das instituições. Sem essa base estruturante, a legislação permanece como promessa formal distante da vida real e da proteção efetiva das mulheres.
Falar sobre igualdade não é dividir a sociedade. É equilibrá-la. É garantir oportunidades reais e ambientes seguros para que cada mulher desenvolva plenamente seu potencial. Comunidades que protegem suas mulheres são mais estáveis, mais produtivas e mais humanas.
O Dia Internacional da Mulher já passou, mas a realidade não muda quando a data vira página. Para muitas mulheres, a desigualdade e a violência continuam no dia seguinte, no outro, e em tantos outros.
Não é sobre um dia. É sobre o que a gente faz todos os dias.
Não adianta aplaudir discurso e seguir ignorando situações ao nosso redor. Não dá mais para fingir que não vê, que não ouve, que não é com a gente.
Cada atitude conta: no respeito, na escuta, na forma de se posicionar, no apoio a quem precisa. Mudar esse cenário não depende só de leis ou campanhas, depende de pessoas reciclando os seus valores e costumes.
Depende de nós.
Se o ritmo atual aponta para séculos de espera, a pergunta que se impõe é inevitável: o que estamos dispostos a fazer hoje para acelerar essa mudança? A igualdade não será fruto do tempo, mas da decisão conjunta de transformar estruturas sociais profundamente enraizadas, rever práticas prejudiciais e assumir responsabilidades individuais e coletivas na busca por um mundo mais justo e igualitário.
Não é apenas sobre simbolismo ou datas comemorativas. É sobre vidas reais que precisam ser protegidas.
A realidade das mulheres não pode esperar.
Caroline Cavalcante Espínola é mestre em Direitos Humanos e autora do livro “Direitos Humanos das Mulheres: A Efetividade da Lei Maria da Penha”. Atua como pesquisadora na área de enfrentamento à violência contra a mulher e é fundadora da Rede Aragonitas, iniciativa voltada à capacitação e ao desenvolvimento de projetos sociais. Recebeu o Prêmio SESI ODS – Agenda 2030 e a certificação no Programa de Integração da Universidade e da Empresa.

