Rádio Clube
H2FOZ
Início » Opinião » Pra não dizer que não falei das flores

Opinião

Pra não dizer que não falei das flores

Artigo de Zé Beto Maciel, poeta e jornalista; e Silvana de Souza, professora e doutora em educação da Unioeste.

8 min de leitura
Notícias no seu WhatsApp
Pra não dizer que não falei das flores
Não há como não se questionar que uma cidade tão rica tenha uma média salarial entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil, nos melhores cenários.
Google News iconSiga-nos no Google News

Silvana Souza e Zé Beto Maciel – OPINIÃO

Com a posse do economista Ênio Verri para diretoria-geral brasileira da Itaipu Binacional, muito se fala e se comenta que a empresa é uma mãe para Foz do Iguaçu, especialmente nos últimos quatro anos, com uma série de obras grandes como a segunda ponte, a perimetral leste, a duplicação da Rodovia das Cataratas, a reforma e ampliação da pista, acesso e do terminal do aeroporto internacional das Cataratas.

Publicidade

A temeridade de alguns setores é a não conclusão das obras, principalmente da Perimetral Leste e das obras complementares da segunda ponte, o que já foi afastado por lideranças do petismo e pelo próprio Verri, apesar que o ritmo das obras vem diminuindo gradualmente.

O canteiro de obras catapultou a boa estima que a binacional tem com os iguaçuenses e projetou o general de reserva Joaquim Luna e Silva como um gestor muito mais do que bem quisto da cidade. Nota-se que a Itaipu deve investir algo mais do que R$ 1,5 bilhão nas obras e que elas fazem parte da ocupação territorial de Foz do Iguaçu, sobretudo, para as regiões leste e nordeste.

É bom lembrar ainda que entre as obras está ainda a iluminação dos trechos urbanos da BR-277 entre Foz, Santa Terezinha de Itaipu e São Miguel do Iguaçu e outras de menor impacto, mas também muito importantes para a cidade.

As obras são necessárias? Sim, são necessárias. O plano de expansão territorial é bom? Sim, é bom. Vai evitar o estrangulamento urbano da região central e suas adjacências, mas há também incongruências que vamos persegui-las neste artigo.

Além da expansão urbana, o argumento da Itaipu Binacional para as obras custeadas por seus recursos – o que diga-se de passagem também são nossos – é dotar a cidade de uma infraestrutura adequada para receber bem e ampliar a presença do turista na região da tríplice fronteira. O próprio setor que opera o turismo aponta que a região já recebe perto de quatro milhões de visitantes por ano.

Esse binômio de investimentos públicos e privados soma o equivalente a mais de R$ 3 bilhões entre novos atrativos, novos empreendimentos e a promessa das concessionárias do parque nacional do Iguaçu e do aeroporto internacional para os 30 anos de exploração da unidade de conservação e do terminal aeroportuário.

É o sonho e projeto de transformação da cidade de hubs de turismo e de logística (com o porto seco, aeroporto de cargas e ramal da Ferroeste) do Mercosul, somada a um centro internacional de compras mais econômico para os bolsos dos brasileiros e para os moradores do Cone Sul do que Miami (EUA). Esse é o plano que ainda não tem críticas, fora aquelas pontuais.

Falamos das licitações das concessões do aeroporto e do parque nacional, uma exploração de 30 anos que não se mensura a capacidade de receber mais visitantes sobre o impacto causado nesse santuário da natureza, muito menos a restrição de acessos para os moradores lindeiros e a dificuldade de garantir parte da renda para planos de divulgação, de educação ambiental e mesmo de proteção e preservação do meio ambiente. Nota-se que a proposta da concessionária de investir R$ 500 milhões nos próximos cinco anos.

O mesmo podemos dizer sobre a concessão do aeroporto internacional. A Itaipu, o Estado e a Infraero investiram mais de R$ 81 milhões nas reformas, ampliação da pista e terminal e a duplicação do acesso. O aeroporto das cataratas, uma das jóias da coroa do sistema aeroportuário do país, foi arrematado por uma outorga de R$ 70 milhões e com a promessa de investimentos de R$ 512,3 milhões nos próximos 30 anos.

Não há qualquer catiça ou mau agouro, mas sempre é bom lembrar que concessões rodoviárias e de terminais aeroportuários já reduziram investimentos ou foram abandonadas quando não há a estimativa do retorno esperado.

Também vamos citar an passant outras três situações. A da Perimetral Leste, além de não se prever as ligações com a região mais central, que saltou seu custo para R$ 336 milhões – o dobro da proposta inicial – com a projeção de mais dois viadutos (Felipe Wandscheer e República Argentina), ainda faltam pelo menos mais três interseções no trecho entre a Avenida República Argentina e BR-277 e projeta-se a necessidade de duplicá-la já que será construída apenas uma pista de rolamento. Verifica-se agora no decorrer das obras que lagoas, alagadiços e nascentes estão sendo afetadas.

A situação da segunda ponte também é sui-generis. A ponte está pronta, porém as obras complementares (acessos, trevos e ligações) estão perto dos 40% no lado brasileiro e somente agora que o Paraguai contratou o projeto executivo das ligações em Presidente Franco.

Há uma terceira situação que vamos expô-la. Trata-se da construção do novo porto seco em Foz do Iguaçu. A Receita Federal apontou três perímetros para a escolha de uma área e nos três casos, os impactos vão além do ambiental e social. Se vende o novo terminal alfandegário com um investimento privado fabuloso de R$ 300 milhões – e o é mesmo. Mas a nossa pergunta é simples: como uma atividade que movimentou R$ 33 bilhões no passado, não têm condições de oferecer contrapartidas para mitigar os prejuízos causados por um empreendimento desta envergadura?

Não somos iconoclastas, ecochatos ou extremistas intencionados em atravancar o crescimento da cidade. Entendemos que o desenvolvimento econômico é muito importante para Foz do Iguaçu desde que mediado e que atenda os interesses do conjunto da população, não somente de poucos afortunados. Não há como não se questionar que uma cidade tão rica tenha uma média salarial entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil, nos melhores cenários.

Por isso, voltamos ao papel que a Itaipu pode exercer na cidade e na região, muito mais do que erguer e traçar grandes obras e que isso seja sua função primordial. Antes mesmo de jogar no ralo da memória, é muito importante destacar a guinada dada pela binacional a partir de 2003 com a criação de um parque tecnológico, o apoio à implantação de uma universidade latinoamericana (a Unila), o apoio a promoção e divulgação de turismo e aos agentes ambientais e projetos que poderiam potencializar desde a preservação dos mananciais (Água Boa) à produção pesqueira.

No parque nacional, a visitação passou de 646 mil em 2002, progressivamente até dois milhões antes da pandemia. Cenário econômico, os aeroportos se transformando em rodoviárias (para o desespero de alguns) e a Itaipu ajudaram a esse impulso. Assim como o Fundo Iguassu contratou vários projetos executivos que vão desde praças à avenidas (Beira Foz).

E é justamente por essa perspectiva que esperamos a atuação da binacional na cidade. Que os investimentos não se concentram naqueles que chamam em perfumarias (portais, mirantes, etc) e que também não se concentrem na região norte.

Que o Vila A Inteligente alcance o Porto Meira, que o projeto de reforma e construção de moradias atenda o Bubas, que a construção de ciclovias possa formar uma malha ligando todas as regiões da cidade, que o plano de revitalização de rios e áreas verdes alcance o Boicy, Monjolo, Almada, Beira Foz, se estendendo a proteção e preservação das matas ciliares, cursos e nascentes de água.

Que apoio da Itaipu abrace os estudantes mais pobres no ensinos fundamental, médio e superior, que envolva projetos de transporte urbano (tarifa zero), apoie a determinação dos povos indígenas na região, implemente e custeie projetos de desenvolvimento científicos e de incentivo à leitura nas escolas públicas, apoie a produção cultural popular e periférica, produção de filmes que registrem a história do nossa cidade e nosso povo, que amplie o apoio às cooperativas de catadores e que incentive hortas comunitárias, compostagem, a produção da agricultura familiar e agroecológica.

Elencamos essa lista de iniciativas para dizer duas máximas surradas: uma cidade é boa para o turista quando é boa para seus moradores; e que progresso não significa verticalizar, canalizar rios e rasgar regiões com obras. Progresso e crescimento significam qualidade de vida, redução da desigualdade social e valorização dos trabalhadores,

O pronunciamento do presidente Lula na posse de Enio Verri é inspirador e contradita a prática, embora míope, que o poder público serve preferencialmente para atender os interesses de quem está no alto da pirâmide social.

Silvana de Souza é professora e doutora em educação da Unioeste.

Zé Beto Maciel é poeta e jornalista.

________________________________

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.

Quer divulgar a sua opinião. Envie o seu artigo para o e-mail portal@h2foz.com.br

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e fique por dentro do que realmente importa.


    Você lê o H2 diariamente?
    Assine no portal e ajude a fortalecer o jornalismo.
    Assuntos

    Por leitor

    Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ. Quer divulgar a sua opinião. Envie o seu artigo para o e-mail portal@h2foz.com.br

    1 comentário em “Pra não dizer que não falei das flores”

    1. Luiz

      De fato esse projetos impulsionados pela Itaipu são ótimos antes eles do que nada, mas a um favorecimentos maior desses projetos a setores, regiões e classes da cidade, o setor turístico por exemplos sendo dominante na cidade e diretamente favorecido com dinheiro publico gasto em investimento em marketing por exemplo, enquanto o setor paga pouco aos funcionários, e todo esse dinheiro arrecadado no setor de turisco sai da cidade uma vez que a maioria das redes instaladas são de fora, só ficando mesmo o baixíssimo salario pago aos trabalhadores, o mesmo acontece com as concessionarias dos parques da cidade.
      Deveria haver um planejamento para o desenvolvimento de outras cadeias econômicas para a cidade não fica dependente de um único setor que em sua maioria so deixa na cidade o salario do trabalhador, trabalhador esse que moras em regiões extremas da cidade sobrevivendo, e uma vez que ele tenha oportunidade e destreza para se desenvolver na carreira ou na formação ele sai da cidade, porque a cidade não tem muito a oferecer, sendo apenas uma cidade boa para turistas e uma minoria de classe, a grande população apenas segue.
      Que novos horizontes mais promissores e menos dependentes de um único setor, sejam buscados pelos representantes, e os que já estão em andamento sejam fiscalizados.
      Apenas a opinião de um afegão.

    Os comentários estão encerrado.