Viver com os pés nas ruas em Foz do Iguaçu é aprender a observar, é o que o personagem principal deste texto ensina. Entre pontes, fluxo intenso de pessoas e desafios diários, Vinicius Filipi Santana cresceu entendendo que o mundo ao redor nunca está parado. Para acompanhar esse ritmo, é preciso desenvolver uma forma própria de leitura muito específica de quem é da cidade.
A música aparece cedo na vida do rapper iguaçuense. Aos 8 anos, incentivado pelo pai, advogado e violonista, teve no instrumento o primeiro contato. A influência familiar atravessa esse início: o irmão, baterista, já escutava rap dentro de casa, ampliando as referências.
Criado em um contexto religioso, encontrou no rap um espaço de expressão que nem sempre era bem-compreendido. “O rap foi uma muleta muito forte pra mim, foi uma terapia”, afirma. A música, segundo ele, não surgiu apenas como linguagem, mas como ferramenta de elaboração do próprio mundo.
Já na adolescência, aos 12 anos, passou a frequentar batalhas de rima. Antes de competir, observou e se inseriu no ambiente. Aos 16 anos, participou da primeira batalha. Hoje, relembra que o impacto sempre foi além da performance: “A batalha é um debate… você coloca à prova o que sabe. Às vezes, o outro MC te cala, mas abre teus olhos.”
O artista reconhece que as experiências nas batalhas moldaram sua identidade de forma definitiva. “Eu sou reflexo de todas as pessoas que passaram”, resume, ao confirmar a influência direta da cena local na sua formação.
Um dos registros mais antigos dele batalhando é de 2 de maio de 2019, contra Savio Leal, na 10.ª Batalha do Gramadão. Na ocasião, apresentou-se com o nome artístico Big Show.
Primeiras canções autorais
Depois de muita presença na cena hip-hop, vêm os lançamentos, nos quais o artista assume controle total das etapas do trabalho: escreve, produz, grava, edita e dirige. A escolha, no entanto, não nasce somente de uma busca estética. “Na época, era muito caro… então fui aprendendo a fazer tudo”, explica.
A primeira música divulgada no YouTube é Falei com a minha Mãe, rap produzido em parceria com SmokF e Maro, em 29 de outubro de 2021.
Hoje, ao revisitar os primeiros trabalhos, ele reconhece limitações técnicas, porém preserva o valor emocional dessas produções. “Tenho vergonha da produção, mas orgulho de tudo. Muitas eu escrevi chorando”, diz. O registro permanece como documento de um momento específico da sua trajetória.
Em 7 de fevereiro de 2022, lança Deixe Ir e Passando a Fronteira. Enquanto a primeira soa como um trap de ode à vida tranquila e apaixonada, na segunda o que se apresenta não é uma narrativa distanciada, e sim um retrato direto do cotidiano. A cidade surge em movimento, atravessada por comércio, tensão e adaptação constante.
Falar de Foz do Iguaçu, para ele, não é apenas ambientar a música, é afirmar presença. “Quando a gente escuta algo da nossa região, traz pertencimento… faz a gente sentir que não está sozinho”, realça. A vivência local deixa de ser pano de fundo e passa a estruturar o discurso.
Logo em seguida, em 18 de abril, a letra de Soulja Big se desloca para um campo mais explícito. Questões como desigualdade, racismo e independência deixam de ser contexto e passam a orientar o discurso. Ainda assim, não há ruptura com o restante da obra. O que muda é a forma de dizer, não o ponto de partida.
A circulação dos primeiros trabalhos rendeu convites para apresentações na região, como o Sabadão do Rap, realizado em um bar universitário de Medianeira. Estavam também presentes Emanuel Xacal e o grupo 377 Gang.
O primeiro álbum e a consolidação de um percurso
A dimensão mais íntima retorna na levada melódica de Pitanga, lançada em 29 de junho, e no reggae Passos Quânticos, de 30 de novembro. Nessas faixas, o artista trabalha relações, afetos e inseguranças sem abandonar a lógica de observação.
É em 2023 que vem o primeiro álbum, Cronologia, que organiza esses diferentes momentos e a versatilidade dos singles de 2022. O disco funciona menos como síntese e mais como disposição de percurso. Em Brinde à Vida, aparecem questionamentos sobre consumo e valor; em Pano de Chão, o rap assume função direta de denúncia.
Durante a produção, arquivos foram perdidos; músicas, refeitas; e o projeto, quase abandonado. “Teve momento que pensei em desistir”, lembra. Ainda assim, o trabalho foi retomado e finalizado como parte de um processo maior de amadurecimento.
Nos trabalhos mais recentes, como Movimento, Passa ou Repassa e Comédia Brasileira pt.1, novas camadas se incorporam. Espiritualidade, crítica ao modelo econômico e reflexões sobre comportamento passam a coexistir com os temas já recorrentes.
A escrita se amplia, mas mantém o eixo: experiência transformada em linguagem nas Três Fronteiras. Com o avanço da profissionalização no audiovisual, as faixas passam a contar com clipes mais elaborados, com nível de produção que remete a trabalhos exibidos na antiga MTV Brasil.
Em março de 2024, o artista foi ato de abertura do paulista Pedro Qualy, integrante do Haikaiss, em sua primeira apresentação em Foz do Iguaçu. No mesmo mês, também foi atração principal de um campeonato de skate na cidade.
Em março de 2025, apresentou-se no Making Music Day e consolidou sua presença em mais um campeonato de skate, em setembro. Já em dezembro, subiu ao palco do Teatro Barracão durante um evento organizado pelo Rimando no Front, que teve como headliner o curitibano Cassol.
No período pré-natalino, também se apresentou no Natal da Família no Gramadão, a convite da Itaipu Binacional. Foi um marco que ele reconhece como sinal de reconhecimento da comunidade.
Encerrando 2025, a partir dos primeiros passos do que viria a ser a Big Records, em 12 de dezembro foi lançada Raiabuza (LiFreestyle Sessions 0.1). O clipe apresenta uma sessão caseira com participações de amigos do artista.
Momento atual da carreira
Depois de mais de dez anos descobrindo-se na música, Big Santa não se define por um momento específico ou por uma virada abrupta. Seu percurso se constrói por acúmulo de experiências, registros e escolhas.
Hoje, a pressa deixa de ser regra. O artista prefere reduzir a frequência de lançamentos em busca de impacto duradouro. “Quero que a pessoa lembre de uma frase, de uma cena… não só escute e esqueça”, ressalta.
O primeiro trabalho de 2026, lançado em 6 de março, é CALOI 2K. Feito totalmente por ele, o som retoma a sequência de lançamentos do artista iguaçuense. Com beat pesado e flow acelerado, já mobiliza o público. Um dos comentários no visualizer resume a recepção: “Quero muita roda punk no show com essa.”
O H2FOZ segue acompanhando e mapeando a atuação de artistas do hip-hop e da cultura urbana em Foz do Iguaçu e região. MCs, coletivos e projetos podem ser indicados para futuras matérias e conteúdos nas redes sociais do portal (@h2foz).


