A gente conta os dias. Planeja, cria expectativas e imagina que as férias serão o momento ideal para descansar, relaxar e desligar-se da rotina. Mas quando elas finalmente chegam, muita gente percebe que algo não mudou tanto assim: o corpo até está de férias, porém a mente continua funcionando no ritmo de antes.
Pensamentos sobre trabalho, estudos, pendências e responsabilidades insistem em aparecer. E isso costuma vir acompanhado de uma cobrança interna: “por que eu não consigo relaxar?”. A ciência ajuda a responder a essa pergunta.
Corpo e mente funcionam em ritmos diferentes quando se trata de descanso. Enquanto o corpo responde rapidamente à mudança de ambiente — menos compromissos, outro cenário, mais tempo livre —, a mente costuma levar mais tempo para sair do modo de alerta.
Assista o novo episódio:
Uma meta-análise publicada em 2025 no Journal of Applied Psychology, que reuniu dados de 32 estudos científicos, concluiu que as férias têm um efeito positivo consistente no bem-estar. No entanto, esse efeito é significativamente maior quando há desligamento psicológico, ou seja, quando a pessoa consegue realmente parar de pensar nas demandas do trabalho durante o período de descanso.
Isso ajuda a explicar por que, nos primeiros dias de férias, muitas pessoas ainda se sentem cansadas ou inquietas: o cérebro precisa de tempo para desacelerar.
A dificuldade de desligar não é só individual — é cultural.
Além dos dados científicos, levantamentos de comportamento mostram que a dificuldade de desconexão é algo bastante comum: estamos cada vez mais conectados, disponíveis e mentalmente ocupados — mesmo em períodos que deveriam ser de descanso.
Ou seja, não é apenas uma dificuldade individual, e sim um reflexo de como a rotina de trabalho e a tecnologia moldaram nossa relação com o tempo livre.

Vista de um resort em Foz do Iguaçu em janeiro de 2026.
Descansar é um processo, não um botão
Esses dados reforçam uma ideia central: o descanso mental é gradual. A mente precisa de um período de transição para sair do ritmo acelerado da rotina. Por isso, não se cobrar por não relaxar imediatamente é parte fundamental do processo de descanso. Outro ponto destacado por pesquisas recentes é que não é somente o tempo de férias que conta, mas a qualidade das experiências vividas nesse período. Um estudo publicado, em janeiro de 2025, na revista Sustainability mostrou que experiências de turismo em contato com a natureza estão associadas à redução de estresse, ansiedade e sintomas depressivos — com efeitos que, em alguns casos, foram observados até seis meses depois.
Atividades que quebram a rotina exigem presença no momento, envolvem prazer — como caminhadas, passeios ao ar livre, contato com a natureza ou hobbies — e ajudam o cérebro a sair do ciclo automático de pensamentos ligados às obrigações.
Menos cobrança, mais consciência
Talvez o maior desafio das férias não seja descansar, e sim desapegar da rotina que estrutura o ano inteiro. A mente não muda de marcha no mesmo instante em que o calendário muda. E entender isso faz diferença.
Quando a gente reconhece que descansar é um processo — e não uma obrigação a ser cumprida com perfeição —, o período de férias tende a ser mais leve, mais realista e mais restaurador.
Ou seja, respeitar o tempo da mente durante as férias não é perda de tempo — é investimento. Pode ser, inclusive, um passo importante para um planejamento mais saudável e efetivo para 2026.
Em resumo: descansar não é desligar tudo de uma vez. É um processo — e compreender isso já é uma forma de começar a descansar.


