Aida Franco de Lima – OPINIÃO
O uso da causa animal para ganhar engajamento nas redes sociais e arrecadar doações e, principalmente, votos é a nova praga virtual que mistura protetores com aproveitadores dos animais. O caso mais recente é do deputado federal Marcelo Queiroz (PSDB-RJ) — que, de acordo com a Polícia Federal, associou-se à causa animal para beneficiar-se de um suposto esquema de fraude em licitações.
O esquema teria se originado quando Queiroz era titular da Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Em sua gestão, nos anos de 2021 e 2023, fechou acordos para prestação de serviços de quase R$ 200 milhões, dos quais R$ 35 milhões já haviam sido pagos à empresa veterinária Consuvet — Soluções em Saúde Animal. Ela era recém-fundada, apenas três meses, e tinha capital social de R$ 20 mil.
O caso de Queiroz é apenas mais um dos que vêm a público. Os interessados em cargos públicos descobriram que a causa animal pode ser um belo trampolim.
As castrações gratuitas, em massa, salvo raras exceções, são planejadas de acordo com o calendário eleitoral e não em torno do cio dos animais. Percebam como as movimentações aumentam no período de campanha, com deputados e vereadores alardeando mais uma campanha em massa, como se fosse um favor, não obrigação estatal.
- Tais campanhas são realizadas por clínicas que disputam editais cujo critério é o mesmo para comprar sabão: o menor preço. E as ações são realizadas como em processo industrial, em cima de um calendário que percorre o estado e realiza mutirão de castração em dias estipulados. Parece bonito, parece eficaz. Mas não é. Esse dinheiro seria mais bem-aplicado se, em vez de uma única clínica externa, clínicas da cidade e da região fossem contempladas com o valor e realizassem as castrações periodicamente.
É bastante comum que, nos dias de castrações, muitos animais não sejam atendidos por inúmeros motivos. Cães e gatos errantes nem sempre deixam ser capturados a tempo. Em outras situações não é possível fazer o atendimento porque o intervalo de jejum é muito curto ou extremamente longo. Em outros, porque o animal apresenta algum problema de saúde ou mesmo quando o tutor é impedido, por algum motivo, de levá-lo ao atendimento. Assim, os procedimentos contratados acabam não atingindo 100%.
No dia 7 de fevereiro, animais que já estava anestesiados tiveram as cirurgias canceladas. O motivo foi o excesso de calor. Na véspera, os termômetros atingiram 38°C. Era a segunda edição do Castra+Paraná 2. O programa é pago por meio de emendas parlamentares encaminhadas por deputados estaduais. Normalmente, tais eventos funcionam em clínicas móveis e tendas improvisadas.
Todo programa de castração é muito bem-vindo, pois essa é uma luta de décadas de ativistas. Há alguns anos, quem defendia castração em massa paga via impostos era achincalhado. Contudo, políticas públicas podem e devem ser melhoradas.
No lugar de contemplar uma única clínica que rode todo o estado, é preciso pensar em aplicar o dinheiro nas economias locais, nas clínicas que já atendem à região. Não há como falar que convênios com clínicas locais vão impedir os desvios de finalidade, as fraudes, porém talvez ajudem a dificultar.
É também um meio de encurtar a distância que separa tutores e clínicas, os quais muitas vezes não as procuram com receio de o atendimento ter um valor exorbitante. E quem paga o pato, mais uma vez, são os animais.
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