Aida Franco de Lima – OPINIÃO
Por mais que falemos em mudanças climáticas extremas, a impressão é de que essa conta é do outro lado do balcão. Como se as prefeituras de cada cidade não tivessem responsabilidade alguma. Olhe ao seu redor. Quantas quadras, em sua cidade, você consegue contar apenas com a presença de árvores, sem que haja aqueles toldos encobrindo a calçada em busca de uma sombra artificial?
E o reinado das palmeiras e árvores sem uma fruta, que transformam nossas cidades em um jardim “clean”, de preferência sem folhas de plantas para sujar as ruas e disputar espaço com bitucas de cigarro, copos e recipientes descartáveis, e até aquelas fraldas que os pais não querem levar para casa e deixam nos cantinhos por aí?
Não importa a cidade, as empresas que cortam e podam árvores, normalmente, seguem o que dizem os editais. E quem é que define o teor deles? O que há na cabeça de secretários e secretárias de Meio Ambiente que, em uma simples canetada, selam o destino de árvores que levaram décadas para que se desenvolvessem e são eliminadas em minutos? Agentes públicos que ocupam cargos comissionados, de confiança, que, sob o ar condicionado de suas salas confortáveis, definem que as cidades ficarão cada vez mais áridas…
- Parece haver um pacto entre os gestores das cidades, ou uma competição, para saber qual delas fica mais impermeabilizada e quente. E o que falar das gramas sintéticas? Elas saíram das quadras de futebol society e foram parar nos parques infantis, nos pés das árvores e, pasmem, nos canteiros centrais. E isso não se restringe ao Paraná, está impregnado em muitos outros cantos. Já vi essa bizarrice também em Palhoça (SC), a cidade praiana que ostenta grama de plástico.
Como a moda das palmeiras-imperiais, que substituem as árvores frondosas por uma espécie que não diria que não é importante, pois todo elemento natural tem função na cadeia ecológica, mas algo exótico que toma espaço de, por exemplo, a palmeira-juçara.
Para piorar ainda mais a situação, há uma indústria de olho na arborização urbana, que lucra com os troncos para fazer lenha e até mesmo outras finalidades comerciais, assim como a galhada para produzir húmus. São contratos milionários, com empresas disputando editais ou com editais viciados, em que sempre ganham as mesmas interessadas. Há altos investimentos para cortar, podar árvores exageradamente, mas não há o mesmo empenho em proteger as árvores, tratá-las — quando cortadas, retirar seus troncos para que outras mudas adequadas, já desenvolvidas, sejam plantadas, cuidadas e tenham mais chances de realmente crescer e chegar à fase adulta.
O que percebemos são espaços — em que havia árvores frondosas — tomados por um simples arbusto. E segue o baile.
E de quem é a responsabilidade por essa tragédia ambiental urbana, além dos prefeitos, que são os mandatários de tudo? Muitos deles acham que o meio ambiente é um fator que impede o desenvolvimento de “suas” cidades. Deles, os secretários e secretárias de Meio Ambiente, que ocupam cargos de confiança. Muitos desses caem de paraquedas nas cidades, não conhecem a cultura local, as tradições, as memórias. E, em vez de cuidar de fato da arborização urbana, simplesmente cortam em nome do “risco” de as árvores estarem “condenadas”, para que os canteiros não virem uma “salada de frutas”.
Tristes exemplos já foram citados nesta coluna em Foz do Iguaçu, Cianorte, Terra Boa, entre outros… Em Cianorte, por exemplo, a mobilização em prol das árvores urbanas vem de anos. Há, inclusive, um abaixo-assinado com mais de 25 mil assinaturas. Praças que há anos eram abrigos de andorinhas, com as conhecidas “falsas seringueiras”, hoje estão praticamente exterminadas. Elas também foram devastadas de parques infantis e em frente ao cemitério.
Mas nesta última gestão a coisa ficou ainda pior. Foi adotada a prática da poda elevada e da poda por setores. Assim, a empresa contratada chega a um quarteirão e corta o máximo de galhadas, extermina ninhos, sombras, flores. Eleva a copa e vai embora, deixando um rastro de destruição. Uma resolução caduca, de 2012, fala a respeito da proibição do plantio de determinadas espécies, entre elas frutíferas. Porém, apesar de o documento dizer que as árvores existentes serão preservadas, não é o que vem acontecendo.
A cidade, conhecida pelas inúmeras avenidas com pés de manga, que mantinha uma cultura de coleta por parte da comunidade e visitantes, agora se depara com as galhadas, que eram alcançadas com as mãos, todas muito altas, com as frutas inalcançáveis. Jogam pedras, paus, para “colher” as mangas. E assim muitas outras caem ainda verdes e colocam em risco os transeuntes e os ninhos.
Outra “moda” é cortar a copa das árvores para padronizá-las, principalmente da espécie Oiti. Deixam as copas planas, eliminando sua função de proteção dos novos brotos e dos animais que buscam abrigo.
Secretários e secretárias de Meio Ambiente passam. Contudo, infelizmente, o estrago permanece. Até quando?
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