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Ano novo? Comportamento novo?

Professor Caverna refleta sobre promesas de ano novo e como mentimos para nós mesmos.

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Ano novo? Comportamento novo?
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Por Professor Caverna

Todo fim de ano acontece o mesmo ritual. Fogos, abraços, promessas e aquela sensação coletiva de que agora vai. O calendário vira, o número muda, e a gente age como se o tempo tivesse apertado um botão mágico de reinício. “Ano novo, vida nova”, dizem. Mas a pergunta que quase ninguém faz é: ano novo… comportamento novo mesmo?

Porque, sejamos honestos: o ano muda sozinho. A Terra gira, o calendário atualiza, o celular manda notificação. Mas o comportamento… ah, esse não muda por decreto. Não muda por superstição, nem por contagem regressiva. Comportamento muda quando dói mudar ou quando dói continuar igual.

A filosofia, desde sempre, bate nessa tecla. Os gregos já sabiam disso muito antes de existir réveillon, champagne e roupa branca. Heráclito dizia que ninguém entra duas vezes no mesmo rio. O problema é que a gente entra, sim, nos mesmos hábitos, nas mesmas desculpas e nas mesmas escolhas, achando que só porque o rio é novo, a travessia vai ser diferente.
Janeiro chega cheio de energia. Academia lotada, livros novos comprados, projetos anotados no caderno. Fevereiro vem com menos empolgação. Março já começa a negociar. Em abril, a maioria voltou ao modo automático. Não porque as pessoas sejam fracas, mas porque mudar comportamento exige mais do que motivação exige consciência.

A verdade desconfortável é essa: não é falta de vontade que nos prende, é falta de honestidade consigo mesmo. A gente diz que quer mudar, mas não quer abrir mão do conforto que o velho comportamento oferece. Quer resultado novo vivendo do mesmo jeito. É como trocar a capa do celular e esperar que o sistema operacional fique mais rápido.

Ano novo não é milagre. É espelho. E espelho não serve para maquiar, serve para mostrar. Quando você diz “esse ano vai ser diferente”, a pergunta filosófica não é “o que você quer?”, mas “o que você está disposto a abandonar?”. Porque toda mudança real cobra um preço. Às vezes é o ego. Às vezes é o orgulho. Às vezes são relações, hábitos, vícios emocionais ou narrativas que você repete sobre si mesmo há anos.

Nietzsche dizia que o ser humano prefere uma mentira confortável a uma verdade libertadora. E isso explica muita coisa. É mais fácil acreditar que “o mundo não ajuda”, “as pessoas atrapalham”, “o sistema é injusto” tudo isso pode até ser parcialmente verdade do que admitir: eu repito padrões que me sabotam.

Ano novo não pergunta seus planos. Ele pergunta sua postura. Você pode mudar o ano sem mudar o comportamento e continuar cansado, frustrado, ansioso. Ou pode mudar o comportamento e transformar até um ano difícil em um ano significativo. Porque sentido não nasce de circunstâncias perfeitas, nasce de escolhas conscientes.

A vida não se transforma quando tudo melhora. Ela se transforma quando você melhora a forma de responder ao que não melhora. E aqui entra um ponto que pouca gente gosta de ouvir: comportamento é identidade em ação. Não adianta dizer “eu sou disciplinado” se você vive adiando. Não adianta dizer “eu valorizo minha saúde” se você se abandona. Não adianta dizer “eu quero crescer” se você foge do desconforto. Somos aquilo que repetimos, não aquilo que prometemos.

O filósofo francês Michel Foucault falava do “cuidado de si”. Não como algo narcisista, mas como responsabilidade ética. Cuidar de si é observar seus pensamentos, suas reações, seus impulsos. É perceber onde você se trai para ser aceito, onde se cala para evitar conflito, onde se perde para não ficar sozinho.

Ano novo é um bom pretexto para essa observação. Não para criar um personagem ideal, mas para encarar o personagem real.

Talvez o comportamento que precise mudar não seja algo grandioso. Talvez não seja “mudar de vida”, mas mudar pequenos acordos silenciosos que você faz consigo mesmo. Dormir melhor. Falar menos e agir mais. Parar de se comparar. Parar de se explicar tanto. Começar o que você vive adiando. Ou, quem sabe, terminar o que já não faz sentido.

A gente romantiza demais a virada do ano e reflete de menos sobre a continuidade. Porque o problema nunca foi começar. O problema é continuar quando o entusiasmo vai embora. A filosofia chama isso de virtude: agir certo mesmo quando ninguém está olhando, mesmo quando não dá prazer imediato, mesmo quando é chato. Virtude não é moralismo, é coerência. É alinhar discurso e prática. É fazer o que precisa ser feito mesmo sem aplauso.

E aqui vai um choque de realidade: se você não mudar o comportamento, o próximo ano vai ser emocionalmente parecido com o anterior. Pode mudar o cenário, o emprego, as pessoas, mas o roteiro interno será o mesmo. Porque você leva você para onde for.

O estoicismo ensina algo simples e brutal: foque no que depende de você. O calendário não depende. O mundo não depende. As pessoas não dependem. Mas suas escolhas diárias… essas são suas. Ano novo não exige perfeição. Exige presença. Presença para perceber quando você está repetindo o automático. Presença para dizer “não” quando antes dizia “tanto faz”. Presença para assumir responsabilidade sem se torturar com culpa. Culpa paralisa. Responsabilidade liberta. Talvez o comportamento novo não seja fazer mais, mas fazer melhor. Não seja correr mais, mas parar de fugir. Não seja falar mais, mas escutar inclusive a si mesmo.

A pergunta “ano novo, comportamento novo?” não é motivacional, é existencial. Ela pergunta quem você está se tornando enquanto os dias passam. Pergunta se você está vivendo por escolha ou por inércia. Pergunta se você está consciente ou apenas ocupado.

No fim das contas, o ano novo não muda nada sozinho. Mas ele oferece algo valioso: uma pausa simbólica para você decidir se vai continuar sendo refém dos mesmos padrões ou autor de novos caminhos. E isso não acontece no dia 1º de janeiro. Acontece numa terça-feira qualquer, quando ninguém está vendo, quando não tem fogos, quando a decisão é só sua.
Ano novo pode ser só mais um número. Ou pode ser o começo de um comportamento mais honesto, mais lúcido e mais alinhado com quem você diz que quer ser. A escolha, como sempre, não está no calendário. Está em você.

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    Professor Caverna

    Caverna é professor de Filosofia, criador de conteúdo digital e coordenador do projeto “Café Filosófico” em Foz do Iguaçu.

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