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Dogmas e Devastação: Como as Certezas Coletivas Moldam Civilizações

Professor Caverna convida Marcos Gabriel Tragueta para refletir sobre dogmas.

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Dogmas e Devastação: Como as Certezas Coletivas Moldam Civilizações

Por Marcos Gabriel Tragueta

1. Introdução: Convicções, Valores e o Erro Organizado

    As convicções humanas não são meras opiniões individuais. Elas são expressões condensadas de valores compartilhados, historicamente situados e socialmente reforçados. Eles emergem de processos complexos de negociação simbólica, cristalizando-se em narrativas que respondem a necessidades existenciais fundamentais, como: estabilidade, continuidade e coerência da própria identidade e do mundo; segurança existencial; sentido compartilhado e identidade coletiva.

    Quando institucionalmente sustentadas, essas convicções passam a orientar decisões políticas, práticas econômicas, sistemas jurídicos e narrativas morais, que surgem como sistemas axiológicos operativos, ou arquiteturas de valores que determinam o que é considerado verdadeiro e o que sequer pode ser pensado como possível.

    Os grandes erros humanos em escala histórica, tais como: genocídios; perseguições ideológicas ou colapsos institucionais; raramente foram cometidos por sociedades desprovidas de valores. Ao contrário, como observa Hannah Arendt, as sociedades mais perigosas não são as mais céticas, mas as mais convictas, onde pessoas comuns se convencem ou são convencidas de que estavam cumprindo um dever (Arendt, 1951). O problema central é a absolutização dogmática ou impermeabilidade à refutação das convicções, que interrompe processos de revisão crítica. Assim são criadas as condições para que catástrofes moralmente justificadas surjam.

    A tese aqui desenvolvida propõe que as civilizações enfrentam seus momentos mais perigosos não quando carecem de valores, mas quando seus sistemas axiológicos perdem a capacidade de autorreflexão paradigmática. O erro civilizacional torna-se sistêmico quando:

    ⦁ Valores existenciais anacrônicos são transformados em dogmas incontestáveis;
    ⦁ Mecanismos de crítica institucional são neutralizados;
    ⦁ A dissidência é tratada como patologia social.

    2. Mecanismos Socioculturais da Certeza Dogmática

      O mundo que experimentamos como realidade objetiva e inquestionável é, em sua essência, uma construção social coletiva. A sociologia do conhecimento revela que aquilo que uma sociedade toma por “real” é um edifício simbólico erguido e mantido por processos contínuos de interação, institucionalização e legitimação e não apenas um reflexo passivo do mundo. Como fundamentam Berger e Luckmann, a realidade da vida cotidiana se impõe aos indivíduos com a força opaca de um fato natural, escondendo suas origens humanas e históricas (Berger & Luckmann, 1966).

      Quando certas crenças formam a base de instituições, elas transcendem o status de meras interpretações para se tornarem a lente invisível através da qual o mundo é visto e a base inquestionável sobre a qual a vida social se organiza. É neste solo de certezas objetivadas que germinam os dogmas coletivos. Nesse estágio, questionar tais convicções ultrapassa o simples exercício intelectual e passa a ser um ato percebido como subversão da ordem simbólica estabelecida. O dissenso é, portanto, moralizado e punido, enquanto valores instrumentais específicos são elevados à categoria de fins absolutos, ofuscando outros princípios éticos.

      Este fechamento autorreforçador encontra seu mecanismo social perfeito no groupthink: onde o desejo de coesão e unanimidade dentro de um grupo suplanta a avaliação racional de alternativas (Janis, 1982). Assim, erros coletivos são cometidos e ativamente protegidos, pois sua crítica passa a representar uma ameaça existencial à identidade e à unidade do grupo.

      3. Evidências Históricas: Padrões de Devastação Axiológica

        A história humana demonstra que as maiores catástrofes morais não nasceram do vazio ético, mas da absolutização de convicções. Ideias inicialmente apresentadas como verdadeiras, boas ou necessárias foram progressivamente convertidas em critérios finais de julgamento sobre quem merece viver, quem deve obedecer e quem pode ser eliminado. O que se observa, ao longo do tempo, é a repetição de um mesmo mecanismo: um ou mais valores legítimos são elevados à condição de verdade suprema e passam a justificar a exclusão de outros sistemas de valor.
        Esse padrão aparece primeiro em escala civilizacional.

        O colonialismo europeu foi sustentado por uma convicção amplamente aceita de superioridade cultural e moral. Aimé Césaire descreveu esse processo ao afirmar que a colonização não é evangelização, nem empresa filantrópica, nem um desejo de expandir as fronteiras da ignorância, da doença e da tirania, nem um projeto empreendido para a maior glória de Deus, nem uma tentativa de estender o império da lei, mas é sim, um sistema de exploração legitimado por ideologias civilizatórias (Césaire, 1950/2000, p. 32). Edward Said mostrou como essa superioridade foi construída discursivamente, transformando povos colonizados em objetos passivos de conhecimento e dominação (Said, 1979).

        Nesse contexto, o erro axiológico central foi a incapacidade de valorização interparadigmática: outras formas de vida foram desqualificadas a priori. A violência deixou de ser percebida como transgressão e passou a ser interpretada como dever moral. Matar, escravizar e converter eram vistos como atos de progresso.
        O mesmo mecanismo reapareceu quando a convicção se vestiu de ciência.

        No final do século XIX e início do século XX, valores como ordem, eficiência e progresso foram incorporados ao discurso científico. A eugenia surgiu como tentativa de “aperfeiçoar” a sociedade por meio do controle biológico da população. Daniel Kevles documenta que, apenas nos Estados Unidos, milhares de pessoas foram esterilizadas legalmente com base em leis eugênicas apoiadas por médicos e juristas renomados (Kevles, 1985).

        Essas políticas não foram marginais. Como observa o American Journal of Public Health, a eugenia foi amplamente aceita como ciência legítima até a Segunda Guerra Mundial (Stern, 2005). Apesar da comunidade acadêmica estar munida de conhecimento, o erro foi a certeza excessiva, onde uma noção de pureza biológica foi superdimensionada, enquanto a dignidade humana foi relativizada.

        Nos regimes totalitários do século XX, esse fechamento axiológico atingiu sua forma extrema. No nazismo e no stalinismo, valores como pureza racial ou o determinismo da inevitabilidade histórica foram elevados a verdades absolutas. Hannah Arendt observou que o totalitarismo se caracteriza pela substituição da responsabilidade moral individual por uma lógica ideológica autojustificante (Arendt, 1951). Timothy Snyder documenta que milhões de mortes no Leste Europeu ocorreram como consequências diretas de políticas ideológicas racionalmente planejadas (Snyder, 2010). Não vieram do acaso.

        A violência, nesses sistemas, não era um desvio: era a realização coerente da convicção.

        Na contemporaneidade, esse mesmo padrão reaparece sob formas menos centralizadas, mas não menos destrutivas. O negacionismo científico demonstra que o erro coletivo não decorre da ignorância, mas da identidade. Pesquisas publicadas na Science e na PNAS indicam que indivíduos altamente informados rejeitam consensos científicos quando estes entram em conflito com suas convicções políticas ou culturais (Kahan et al., 2012). Cass Sunstein mostra como ambientes digitais produzem “câmaras de eco” que reforçam crenças pré-existentes, transformando o erro em sinal de pertencimento grupal (Sunstein, 2017).

        Até aqui, o fenômeno aparece no plano macro: impérios, Estados, ideologias e ciência.

        Entretanto, o ponto decisivo é este: o mesmo mecanismo opera no plano doméstico.

        ⦁ Do Estado à Sala de Estar: Casos Reais no Paraná
        Quando se desce do nível das ideologias para o nível da vida cotidiana, observa-se a repetição quase intacta da mesma estrutura moral. Valores legítimos tornam-se absolutos e passam a justificar exclusões e crimes.

        Em 2023, um caso noticiado pelo G1 Paraná relatou que um homem matou a esposa na frente dos filhos após conflitos familiares prolongados, sendo posteriormente levado a júri popular (G1 Paraná, 2023). As reportagens indicaram que o agressor justificava seus atos como forma de “resolver” a situação familiar. O discurso não era de ódio explícito, mas de correção moral.

        Em outro episódio, amplamente divulgado pela imprensa paranaense, uma mulher foi assassinada pelo companheiro após tentar romper o relacionamento, em contexto típico de feminicídio no interior do estado (BBC Brasil, 2022; G1 Paraná, 2021). Declarações posteriores de familiares e vizinhos revelavam justificativas como “ela queria sair sozinha” ou “não respeitava o marido”.

        Aqui, o valor da autoridade masculina superou o valor da vida feminina.

        Casos semelhantes são sistematizados no Memorial de Vítimas de Feminicídio no Paraná, que reúne dezenas de episódios ocorridos em cidades como Foz do Iguaçu, Guarapuava, Londrina e Maringá, todos noticiados pela imprensa local (LESFEM/UEL, 2022).

        O mesmo mecanismo aparece nas expulsões familiares de jovens homossexuais. Em 2021, o G1 Paraná noticiou o caso de um adolescente expulso de casa após revelar sua orientação sexual a uma família de forte orientação religiosa. Conselhos tutelares relataram aumento de ocorrências semelhantes no interior do estado (G1 Paraná, 2021). A justificativa recorrente era: “não posso aceitar isso dentro da minha casa”.

        O valor abstrato da pureza moral foi colocado acima do valor concreto do cuidado parental. A exclusão foi tratada como ato ético.

        Ainda pode ser observada a deterioração axiológica, hipocrisia, incoerência e contradição, onde a fé, que dita o amor ao próximo e o perdão, é utilizada como arma de punição e humilhação pública, ultrapassando até mesmo o instinto de preservação e propagação da própria espécie.

        Nos casos de abuso sexual intrafamiliar, a lógica é ainda mais silenciosa. O agressor é, frequentemente, pai, padrasto ou parente próximo. O Ministério Público do Paraná e reportagens do G1 PR documentam episódios nos quais a criança foi orientada a não denunciar para não “destruir a família” (MPPR, 2022; G1 Paraná, 2022).

        Aqui, o valor da honra familiar torna-se superior ao valor da proteção da criança.

        A convicção não apenas permite o crime: ela o encobre.
        Quando o abuso envolve líderes religiosos, o fechamento axiológico se intensifica. Reportagens da BBC Brasil e do El País Brasil mostraram como denúncias contra padres foram inicialmente silenciadas em nome da preservação da instituição (BBC Brasil, 2019; El País Brasil, 2020). A denúncia é interpretada como ataque à fé. O agressor é deslocado. A vítima é desacreditada. O valor da igreja se torna superior ao valor da criança.

        Assim, aquilo que antes aparecia como ideologia de Estado reaparece como moral doméstica.

        O que era política racial reaparece como hierarquia familiar.

        O que era dogma científico reaparece como dogma religioso ou comunitário.

        O padrão é o mesmo:
        Um valor legítimo (fé, família, honra, tradição, identidade);
        é absolutizado;
        torna-se inquestionável;
        transforma o outro em ameaça moral;
        legitima a exclusão ou a violência;
        é protegido pelo silêncio coletivo.

        A devastação axiológica não começa no campo de extermínio.

        Ela começa quando a diferença é tratada como erro.
        Quando a dúvida é vista como pecado.

        Quando a consciência individual é substituída por obediência.

        O genocídio começa no discurso.
        O feminicídio começa na desumanização.
        A pedofilia começa na sacralização da autoridade.
        O parricídio começa na absolutização da obediência.
        Do macro ao micro, a lógica se mantém: quando a convicção se torna absoluta, a vida se torna descartável.

        4. Dissidência, Crise e Reorganização Axiológica

          A história demonstra que sistemas de convicção raramente se autocorrigem por reflexão interna espontânea. Ao contrário, quanto mais institucionalizada e bem-sucedida uma crença se torna, maior tende a ser sua resistência à revisão. A dissidência, nesse sentido, não emerge como gesto periférico, mas como força estruturante da mudança histórica. No entanto, ela quase nunca é bem recebida.

          Thomas Kuhn demonstrou que paradigmas científicos não são abandonados simplesmente por estarem errados, mas porque deixam de funcionar como estruturas explicativas eficazes. Segundo Kuhn, a decisão de rejeitar um paradigma é sempre simultaneamente a decisão de aceitar outro (Kuhn, 1962, p. 77). Essa transição não é puramente racional: envolve conflitos geracionais, disputas institucionais e perdas simbólicas significativas para aqueles investidos no paradigma anterior.

          Do ponto de vista axiológico, esse processo pode ser descrito como uma reorganização da hierarquia de valores. Valores antes centrais, como estabilidade, tradição, autoridade, perdem força diante de valores emergentes, como adaptabilidade, neofilia, abertura epistêmica e responsabilidade ética ampliada. A crise paradigmática é, portanto, uma crise de valoração, não apenas de explicação.

          A dissidência cumpre, nesse contexto, uma função essencial: ela reabre o espaço interparadigmático, interrompendo o fechamento dogmático. Dissidentes forçam a coletividade a confrontar aquilo que foi naturalizado. Contudo, como observa Michel Foucault, “Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua ‘política geral’ da verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros.” (Foucault, 1979). Questionar a verdade dominante implica, quase sempre, custos sociais elevados: marginalização, ridicularização ou punição institucional.

          No plano intraconsciencial, a dissidência exige algo ainda mais raro: a assunção da responsabilidade individual pelo juízo. Hannah Arendt enfatiza que o colapso moral em regimes totalitários ocorreu quando indivíduos transferiram seu julgamento ético para a lógica do sistema, abdicando da reflexão pessoal (Arendt, 1951). O dissidente, ao contrário, recusa essa terceirização da consciência. Ele aceita o risco de errar sozinho em vez de errar coletivamente.

          Historicamente, mudanças axiológicas profundas, como: a abolição da escravidão, o reconhecimento dos direitos civis ou a crítica a práticas científicas abusivas, foram precedidas por longos períodos de dissidência minoritária. Essas vozes não triunfaram por serem inicialmente mais convincentes, mas porque as contradições internas do sistema dominante tornaram-se insustentáveis. A dissidência acaba por revelar estas crises sistêmicas.

          5. Para uma Sociedade Antifrágil de Ideias: Princípios Axiológicos

            Se os grandes erros civilizacionais são produtos de convicções absolutizadas, a questão central deixa de ser como eliminar crenças e passa a ser como estruturar sociedades capazes de conviver produtivamente com a incerteza. Uma sociedade axiologicamente madura, ao não evitar o erro, consegue aprender com ele sem precisar colapsar moralmente ou recorrer à violência para preservar suas certezas.

            Inspirando-se na noção de antifragilidade, pode-se afirmar que sociedades saudáveis são aquelas que ganham complexidade a partir da crítica, em vez de se defenderem dela. Enquanto sistemas frágeis se protegem por meio do silenciamento do dissenso, sistemas antifrágeis incorporam a contestação como mecanismo de autorregulação. Nesse sentido, o conflito intelectual deixa de ser ameaça e passa a ser recurso evolutivo.

            Isso exige transformações em três níveis axiológicos fundamentais: institucional, histórico-cultural e intraconsciencial.

            5.1 Instituições Fortes para Ideias Fracas

            O primeiro princípio consiste em fortalecer instituições que protejam processos, e não dogmas. O método científico, a imprensa livre e o Estado de direito são exemplos de estruturas que, idealmente, operam sob a premissa de que nenhuma verdade é definitiva. Como observa Karl Popper, o progresso do conhecimento depende da possibilidade de falsificação, não da confirmação permanente (Popper, 1959).

            A função dessas instituições não é preservar convicções, mas criar condições para que elas sejam constantemente testadas. Quando passam a defender conteúdos fixos, ideologias, narrativas nacionais imutáveis ou verdades científicas intocáveis, deixam de funcionar como espaços de investigação e passam a atuar como fortalezas simbólicas. O resultado é paradoxal: quanto mais se tenta proteger a convicção, mais frágil o sistema se torna diante de sua inevitável contestação.

            Sociedades antifrágeis, ao contrário, compreendem que ideias precisam ser estruturalmente frágeis para que as instituições sejam fortes. A crítica pública, o contraditório jurídico e a revisão científica não são sinais de decadência, mas indicadores de vitalidade cultural. Onde a discordância é tratada como traição, a verdade se transforma em ideologia. Onde a discordância é institucionalizada, o erro se torna fonte de aprendizado coletivo.

            Esse princípio também implica separar autoridade de infalibilidade. Instituições maduras reconhecem que podem errar e constroem mecanismos para corrigir seus próprios equívocos. A transparência, a prestação de contas e a pluralidade de vozes deixam de ser ameaças e passam a ser dispositivos axiológicos de contenção da arrogância moral e cognitiva compartilhada por um grupo social que passa a considerar seus valores como absolutos e inquestionáveis, legitimando a exclusão do outro e a suspensão de limites éticos em nome de uma suposta missão histórica ou moral (hybris coletiva).

            5.2 Memória Histórica como Valor Existencial

            O segundo princípio é o cultivo ativo da memória histórica. Sociedades que lembram publicamente seus erros desenvolvem maior resistência à repetição dos mesmos padrões. Museus, comissões da verdade, educação histórica crítica e rituais de memória funcionam como dispositivos axiológicos de contenção da hybris coletiva, isto é, da convicção socialmente compartilhada de que um grupo, uma ideologia ou uma civilização possui acesso privilegiado à verdade, à moral ou ao destino histórico, legitimando a imposição de seus valores aos outros e ignorando limites éticos e humanos.

            Como argumenta Paul Ricoeur, a memória não é apenas registro do passado, mas orientação ética para o futuro (Ricoeur, 2004). Lembrar não é um ato neutro; é um posicionamento moral. Ao reconhecer seus próprios crimes, uma sociedade limita sua tentação de se imaginar pura, escolhida ou moralmente superior.

            O esquecimento sistemático de erros históricos, seja do colonialismo, da eugenia ou dos regimes autoritários, cria as condições simbólicas para sua reedição sob novas roupagens discursivas. Quando o passado é apagado, o presente perde critérios para reconhecer o perigo da absolutização das convicções.

            A memória histórica também cumpre uma função pedagógica: ela ensina que boas intenções não garantem bons resultados. Muitas das maiores catástrofes foram realizadas em nome do progresso, da ordem, da salvação ou da ciência. A lembrança desses episódios rompe a ilusão de que basta ter valores elevados para agir corretamente. O que importa não é apenas o que se defende, mas como se defende e a que custo humano.

            Assim, a memória deixa de ser apenas patrimônio cultural e passa a ser valor existencial: uma forma coletiva de humildade diante da própria história.

            5.3 Educação para a Humildade Epistêmica

            O terceiro princípio, talvez o mais difícil, é a educação para a humildade epistêmica. Isso implica ensinar não apenas conteúdos, mas os limites do conhecimento humano, os vieses cognitivos, os mecanismos sociais de erro e a historicidade das próprias certezas. Trata-se de formar sujeitos capazes de distinguir entre convicção e verdade, entre identidade e crença, entre discordância e ameaça.

            Estudos em psicologia cognitiva demonstram que indivíduos mais conscientes de suas limitações tendem a ser menos dogmáticos e mais abertos à revisão (Kahneman, 2011). A educação, nesse sentido, não deve produzir certezas rígidas, mas competências reflexivas: capacidade de argumentar, de escutar, de revisar e de suportar a incerteza sem recorrer à violência simbólica ou física.

            No plano intraconsciencial, a humildade epistêmica representa a recusa em confundir identidade com crença. Quando a pessoa se identifica totalmente com suas convicções, qualquer crítica é vivida como ataque existencial. Nesse estado, o erro torna-se insuportável, e o outro se converte em inimigo. Ao separar quem se é do que se acredita, cria-se um espaço interno para a revisão ética.

            Admitir o erro deixa de ser vivenciado como fracasso moral e passa a ser compreendido como condição de crescimento cognitivo e existencial. Esse deslocamento é essencial para evitar que valores legítimos como: fé, justiça, ordem, pertencimento, se convertam em absolutos destrutivos.

            Conclusão: Da Fragilidade Moral à Antifragilidade Axiológica

            A análise sociocultural dos erros humanos revela um paradoxo fundamental: as maiores violências da história foram cometidas por excesso de certeza e não por falta de valores. A devastação nasce da rigidez moral absoluta, onde a convicção sem freio transforma princípios em armas.

            Construir uma sociedade antifrágil de ideias significa aceitar que o erro é inevitável, mas a catástrofe não é. Significa projetar instituições que aprendam, memórias que alertem e consciências que duvidem. Em vez de buscar pureza moral, trata-se de cultivar mecanismos de correção contínua.

            Nesse horizonte, a dissidência deixa de ser ameaça e passa a ser recurso evolutivo. O conflito deixa de ser patologia e passa a ser condição de maturidade e a dúvida deixa de ser fraqueza e passa a ser virtude ética.

            Uma sociedade axiologicamente madura não é aquela que acredita possuir a verdade final, mas aquela que constrói formas de conviver com a incompletude do conhecimento humano. Sua força reside na capacidade de revisar a si mesma sem recorrer à exclusão do outro e sem apelar para a unanimidade.

            Em última instância, a antifragilidade axiológica consiste em transformar a incerteza em fundamento ético: reconhecer que nenhuma convicção é grande o suficiente para justificar a anulação da dignidade humana. Onde essa consciência se instala, os valores deixam de ser instrumentos de devastação e passam a ser condições de convivência.

            Convite Especial: Café Filosófico


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            Obs. Caro leitor, o objetivo aqui é estimular a sua reflexão filosófica, nada mais! mais nada!

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              Professor Caverna

              Caverna é professor de Filosofia, criador de conteúdo digital e coordenador do projeto “Café Filosófico” em Foz do Iguaçu.

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