Por Professor Caverna
Mapas são linhas. Riscos coloridos que fingem organizar o mundo. Um traço aqui, outro ali, um nome escrito em letras maiúsculas, e pronto: nasce um país. As fronteiras são acordos silenciosos entre pessoas que talvez nunca se conheçam, mas que concordam em algo essencial “daqui pra lá é outro nós”. Elas organizam exércitos, economias, idiomas e bandeiras. Funcionam. Ou pelo menos parecem funcionar. Mas quando a gente sai do mapa e entra no peito humano, tudo vira bagunça. Porque o coração do homem não respeita linhas retas, nem tratados internacionais.
A grande pergunta é essa: se fronteiras dividem países, quem divide o coração do homem? E mais ainda: será que ele precisa ser dividido? Desde sempre, o ser humano vive em tensão. Somos feitos de contradição. Queremos pertencimento, mas também liberdade. Queremos paz, mas somos viciados em conflito. Queremos amar, mas temos medo de nos entregar. É como se dentro da gente existissem vários territórios disputando espaço, travando guerras silenciosas todos os dias. E nenhuma delas aparece no noticiário.

Jean-Jacques Rousseau dizia que “o homem nasce livre, mas por toda parte encontra-se acorrentado”. Normalmente a gente pensa nessas correntes como leis, governos, sistemas. Mas talvez as correntes mais pesadas não estejam fora estejam dentro. Correntes emocionais, ideológicas, morais, traumas, crenças herdadas, medos que a gente nunca questionou. O coração humano vira um país ocupado por forças que ele mesmo não entende.
Quando somos crianças, o coração é quase um território aberto. Ele sente tudo sem pedir autorização. Ama sem estratégia. Confia sem cálculo. Mas o tempo passa, e as fronteiras começam a surgir. Alguém nos machuca, e levantamos um muro. Alguém nos trai, e criamos uma alfândega emocional. “Daqui pra dentro só entra quem provar que é seguro.” O problema é que, nesse processo, muitas vezes a gente também se proíbe de sair.
Nietzsche falava da luta interna entre forças opostas dentro do homem. Para ele, não somos uma unidade simples, mas um campo de batalha. Razão contra instinto. Moral contra desejo. Medo contra vontade de potência. O coração, nesse sentido, não é um lugar pacífico é uma fronteira em constante conflito. E talvez seja isso que nos torna humanos: não a resolução dessas guerras, mas o fato de vivermos nelas. O curioso é que adoramos discutir fronteiras externas. Debatemos imigração, soberania, invasões, muros. Mas quase nunca falamos das fronteiras internas. Quem decidiu que você não pode mais sonhar daquele jeito? Quem decretou independência entre o que você sente e o que você mostra? Quem separou o seu “eu público” do seu “eu verdadeiro”? Essas divisões não aparecem nos mapas, mas moldam destinos inteiros.
O coração do homem é dividido, muitas vezes, pela própria necessidade de sobrevivência. Em certos ambientes, sentir demais é perigoso. Amar demais é fraqueza. Pensar demais é ameaça. Então a gente aprende a compartimentalizar a alma. Uma parte trabalha, outra ama, outra sofre em silêncio, outra finge que está tudo bem. Criamos pequenos países internos que quase nunca se comunicam. E chamamos isso de maturidade. Mas será mesmo maturidade ou apenas adaptação?
Hannah Arendt, ao refletir sobre o mal, trouxe uma ideia perturbadora: o mal nem sempre nasce do ódio intenso, mas da incapacidade de pensar e sentir profundamente. Da banalização. Talvez o coração dividido seja também um coração anestesiado. Quando separamos demais o sentir do agir, o pensar do viver, corremos o risco de nos tornarmos funcionais, porém vazios. Organizados, porém desconectados.
Vivemos numa época em que identidades viraram bandeiras. Tudo precisa ser definido, rotulado, defendido. Esquerda ou direita. Forte ou fraco. Racional ou emocional. Bem ou mal. Essa lógica de fronteira invade o coração. Somos pressionados a escolher lados até dentro de nós mesmos. Se você é sensível, não pode ser forte. Se é firme, não pode ser vulnerável. Se questiona, não pode pertencer. O coração vira um território fragmentado por ideologias internas que nunca param para conversar.
Sócrates dizia que “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”. Talvez hoje a frase precise de um complemento: um coração não examinado acaba sendo governado por forças invisíveis. Quando não olhamos para nossas próprias divisões internas, elas decidem por nós. O medo decide. O ego decide. O hábito decide. E depois a gente chama isso de destino. Mas e se o coração não fosse feito para ser dividido, e sim integrado?

Isso não significa ausência de conflito. Pelo contrário. Significa coragem para olhar para os conflitos sem fingir que eles não existem. Significa aceitar que podemos amar e odiar ao mesmo tempo, ter fé e dúvida, querer ficar e querer fugir. A unidade não nasce da eliminação das partes, mas do diálogo entre elas. O coração humano é mais parecido com uma cidade antiga do que com um país moderno. Ruas tortas, camadas históricas, construções sobre ruínas. Nada é perfeitamente alinhado, mas tudo carrega sentido. Quando tentamos impor fronteiras rígidas demais, matamos essa complexidade. Simplificamos o que nasceu para ser profundo.
Talvez a pergunta “quem divide o coração do homem?” tenha uma resposta desconfortável: nós mesmos. Dividimos para nos proteger. Dividimos para caber. Dividimos para sermos aceitos. Mas toda fronteira tem um custo. Ela impede invasões, mas também impede encontros. No fim, fronteiras entre países podem até ser necessárias. Organizam o mundo externo. Mas no mundo interno, talvez o caminho seja outro. Talvez o desafio da vida adulta não seja erguer mais muros, e sim aprender quando derrubá-los. Não para se perder, mas para se tornar inteiro. Porque um coração inteiro não é aquele que nunca foi dividido. É aquele que, mesmo marcado por fronteiras, escolhe construir pontes.
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Obs. Caro leitor, o objetivo aqui é estimular a sua reflexão filosófica, nada mais! mais nada!
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