Por Leonardo Pereira Montejo
De maneira subentendida, o ilustre livro 1984, de George Orwell, por meio de suas figuras monárquicas como o Big Brother e a cultura da observação, estava por nos corajosamente arrecadar um pequeno vislumbre de nosso porvir.
Às invenções adiantadas de Orwell, com alguns relógios pela frente, com meia perna na fantasia, não deixam de se provar naturalmente, ao passo do tempo, cada vez mais prudentes, mais proféticas, e até um pouco redundantes. No mundo de 1984, tudo será visto.
Orwell imaginou um mundo impiedoso em que tudo que seja de caráter móvel ou comprometedor possa ser visto, possa ser digerido com mil olhos, e mal sabia ele que ao fazer isso estava a atirar uma garrafa ao mar com uma mensagem inscrita, uma mensagem inscrita para um tempo não conhecido, mas muito bem retratado, como se estivesse a escrever a contracapa de um futuro tempo.

Quando o escritor inglês meditou sobre a fome dos olhos, e sobre uma costura social em que toda atitude deveria de ser notificada, compartilhada e vista, não imaginou também – e como poderia – que estava a escrever sobre o calendário nosso, não o dos astecas ou dos incas, mas o nosso, e suas normativas, e um mesmo regime de vigilância.
Em um mundo em que toda plataforma social é crente de maturidade, e em que estas passam a engolir a verdade por detrás da sua respectiva fundação – o mundo – , uma prática de não muitos escrúpulos, mas em absoluto normalizada, passou a ganhar vigor; a prática de expulsar o mundo de si mesmo, de sujeitá-lo a uma terra estrangeira, de fazer de toda privacidade uma iguaria, e de toda fundação de pudor um espólio.
Sem embargo, em decorrência dessa práxis, e dessa instituição de pensamento que alega que toda exposição é uma urgência, passou a se configurar paulatinamente nos tempos últimos uma ocupação não reconhecida pelo estado, a dos digital influencers, que a grosso modo, são figuras que fazem desse aluguel dos olhos um ganha-pão.
Quase não é preciso dizer que os tais digital influencers promovem muito essa cultura de exposição descomedida em que a margem entre o privativo e o alheio passa a ser problematizada, e os valores a se perder na mera velocidade. Orwell agora é como Nostradamus. Entretanto, fazer do mundo transparente e da exposição um lúdico, implica em outro ponto temerário, de natureza mais sútil: se tudo que existe é visto, em contrapartida, naturalmente tudo que não existe não é visto, em outras palavras também, tudo o que não é visto não existe, e é aí que se tem o marco do mundo de aparências.
De natureza análoga, convém recordar a proposição filosófica do pensador alemão Gottfried Leibniz do século XVII, e sua respectiva corrente de pensamento, que alegava que o mundo precisava de ser contemplado, precisava de ser visto para, por fim, existir. Leibniz acreditava que o mundo era como uma decorrência da percepção, e não o contrário, não como o mundo primeiro e a impressão póstuma, como se o mundo em entendimento fosse um grande oceano e as percepções acerca dele fossem corpos d’água menores responsáveis por lhe atribuir forma, e assim dimensão. Todavia, se toda percepção é muito trabalhada, como ocorre com as plataformas sociais, o mundo se faz de uma fantasia também sugerida.
A tese filosófica elaborada por Leibniz alguns séculos atrás me parece muito retratar a concepção que temos hoje enquanto inseridos nessa nova dimensão cibernética do mundo, e em suas respectivas culturas idolátricas e expositivas.
A noética – o átomo de seu pensamento – passa pela citada percepção, e igualmente é assim também nas redes; no senso comum existe um punhado de entendimentos de que se não se divulga alguma atividade que se faz, ela efetivamente, em algum nível, não existe. Em um mundo em que se preza muito pela exposição, e menos pelo acolhimento, muitas pautas fundamentais acabam sendo abordadas ou mesmo tratadas como anedotas quaisquer em detrimento de outros holofotes.
Não obstante, a atividade que para os digital influencers é como um trabalho que não deixa de crescer, e isso em uma velocidade vertiginosa que acaba por diluir qualquer oposição ou construção adversa, afinal, se vive em um relógio de todo velocista.
De compartilhar coisas mais extraordinárias como episódios inusitados de eventos a divulgar o itinerário da manhã, desde o despertar a se aprontar um café, existe uma discrepância que não mais é apelável, é normalizada.

De contrário modo, enquanto isso, às enfermidades, de todos os gêneros, as oportunidades frustradas, atiradas para um nada vizinho, as decepções a nível pessoal seja com projetos próprios ou com vínculos terceiros, não são reveladas, ironicamente, e em um mundo que preza pela exibição o que não se vê não tem categoria de existência, voltando outra vez para a proposição de Leibniz, que nesse retrato cai como uma luva.
Passa a se ter um esmero tão grande nas plataformas sociais com o que se divulga, que o mundo acaba por ter um verniz quase imperceptível mas igualmente sensível, e desnorteante, que embaraça as impressões como um espelho translúcido; se pode ver a silhueta de alguém mas talvez nada mais. À vista disso, convém sugerir sempre trabalhar o senso crítico, será este quem irá fazer dos ouvidos peneiras, para que não se colha tudo, e dos olhos uma totalidade de óculos para que não se incute, grave tudo que se veja.
Assim sendo, ter a iniciativa de desenvolver este conhecimento de que muito do que é visto não é genuíno, de que não se compromete necessariamente com a realidade, como no caso das fake news, das montagens, e do movimento das edições – pós-verdades – como também de que muito do que é notificável é de mesma maneira inseguro, e de um gênero nebuloso, como uma verdade de perna curta, é fundamental como poética cidadã.
Por último, recém-virado o ano de 2026, com o calendário a engatinhar, me pareceu indispensável recordar que todo conhecimento é construtivo, e de que toda disciplina em algum momento foi um andaime antecedente, um degrau a ser consolidado, e de que toda essa escalada está ao nosso favor, atenta a nossa sabedoria.
onvite Especial: Café Filosófico

Temos o prazer de convidá-los para o V Café Filosófico, um encontro especial onde pais e filhos poderão compartilhar um momento de reflexão e diálogo sobre os dilemas da vida.
Em um mundo repleto de desafios e mudanças constantes, criar espaços para conversas significativas fortalece os laços familiares e amplia nossa visão de mundo. Neste evento, vamos explorar juntos questões que nos fazem pensar, crescer e nos conectar de maneira mais profunda.
Por que participar?
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Venha viver essa experiência enriquecedora conosco! Sua presença fará toda a diferença.
Esperamos por você!
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Ingressos para o V Café Filosófico:

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Comunidade do “Café Filosófico” no WHATSAPP:

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Obs. Caro leitor, o objetivo aqui é estimular a sua reflexão filosófica, nada mais! mais nada!
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Léo, parabéns pela afinação contemporânea e poética, avanti com o pensamento critico! Viva a coluna pensante!