Por Marcos Gabriel Tragueta
- Axiologia das Escolas Filosóficas Ocidentais – Epicteto
Este texto dá sequência à análise axiológica dos principais pensadores da tradição filosófica ocidental. Após a ética da realização proposta por Aristóteles, o percurso avança para o período helenístico, no qual o estoicismo se destaca por deslocar o eixo do valor da realização externa para a interioridade racional, inaugurando uma nova configuração axiológica centrada na autonomia moral diante da contingência histórica.
- Introdução: Do Florescimento à Fortaleza – A Virada Estoica
Enquanto a proposta aristotélica deslocou o eixo do valor do céu das formas para a terra da realização imanente, coube ao Estoicismo, em um mundo em desintegração, radicalizar este movimento interior até seus limites mais extremos. A solução de Aristóteles, por mais prática que fosse, permanecia vulnerável, uma vez que a Eudaimonia exigia amigos, recursos, cidadania e uma certa dose de boa sorte para florescer. Mas o que ocorre quando a estrutura política, social e econômica desmorona? O que fazer quando o império se torna tirânico ou quando a fortuna é decididamente adversa? Como lidar com os determinismos da genética, ou seja, com os problemas físicos e comorbidades herdadas? A pergunta pela possibilidade de uma vida valiosa em meio ao caos do determinismo histórico e à adversidade pessoal permanecia sem uma resposta satisfatória.
É neste contexto de crise, durante o período helenístico e, posteriormente, com o imperial romano, que o movimento estoico ganha relevância axial. Se Aristóteles trouxe o valor do plano transcendente para o campo das ações e da realização prática, os estoicos levaram essa interiorização ao seu extremo. Para eles, a busca pelo valor não se dá mais na modelagem do mundo externo ou na participação política, mas na construção de uma fortaleza interior inexpugnável, capaz de resistir a qualquer tempestade externa. O valor supremo deixa de ser o florescimento na comunidade e se torna a liberdade (eleutheria) e a serenidade (ataraxia) da vontade individual, conquistadas através do domínio absoluto sobre aquilo que verdadeiramente nos pertence: nossos julgamentos e interpretações.
Um dos principais nomes desta tradição, Epicteto (c. 55–135 d.C.) se destaca não apenas pela lucidez de seu sistema, mas pela força existencial de seu testemunho. Nascido escravo e fisicamente manco, sua vida encarna a tese central de sua filosofia: a verdadeira liberdade e o valor mais alto são independentes de qualquer condição social ou corporal. Suas lições, compiladas por seu discípulo Arriano nos Discursos (Diatribai) e no conciso Manual (Enchiridion), constituem a expressão mais clara e poderosa de uma Axiologia do Interior, da intraconsiencialidade, onde o bem se torna sinônimo de soberania sobre si mesmo.

- O Fundamento: A Distinção Radical e a Topografia do Valor
A pedra angular da construção axiológica de Epicteto e do estoicismo em geral, é uma distinção taxativa que remodela por completo o mapa da experiência valorativa com a divisão entre o que depende de nós e o que não depende de nós.
A famosa abertura do Manual estabelece este princípio de forma simples e objetiva: “Das coisas existentes, umas são encargos nossos; outras não. Encargos nossos são o juízo, o impulso, o desejo, a repulsão — em suma, tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos — em suma, tudo quanto não seja ação nossa” (Epicteto, 1961, p. 1). Esta não é uma simples observação psicológica; é um ato fundador de Soberania Axiológica, onde a consciência humana se torna autônoma na determinação, hierarquização e validação de seus valores fundamentais, não se subordinando ao sentido do bem, do mal ou do valor às contingências externas: sociais, afetivas, históricas ou circunstanciais. Ao circunscrever com rigor o domínio do verdadeiramente “nosso”, Epicteto realiza uma cirurgia conceitual que liberta o valor de sua antiga dependência do mundo exterior.
Como argumenta A. A. Long (2002), essa distinção não conduz a uma postura de fuga do mundo ou de indiferença existencial, mas a uma reorientação estratégica do investimento moral e afetivo do indivíduo. Trata-se de redefinir aquilo que merece nossa preocupação ética, deslocando o centro do valor para aquilo que permanece sob nosso domínio racional. Desse modo, a invulnerabilidade buscada não decorre de um afastamento da vida ou de seus acontecimentos, mas de uma reorganização cognitiva pela qual o bem-estar deixa de depender das contingências da fortuna e passa a fundamentar-se na estabilidade interior da razão.
É a partir dessa reorganização que se constitui aquilo que pode ser chamado de topografia fundamental da ética estoica: uma cartografia normativa do valor que distingue, com precisão, o que depende de nós daquilo que escapa ao nosso controle. O único mal verdadeiro é o vício, a desordem da alma. Tudo o mais, como: saúde; doença; riqueza; pobreza; fama; obscuridade; vida; morte — é classificado como indiferente. Contudo, dentro da classe dos indiferentes, os estoicos introduzem uma nuance crucial: alguns são preferíveis, como a saúde e a boa reputação, e outros não-preferíveis, como a doença e a infâmia. O sábio age para obter os indiferentes preferíveis, mas seu valor e sua felicidade (eudaimonia) permanecem inabaláveis mesmo na sua ausência ou na presença de seus opostos. O valor, assim, migra definitivamente do ter e do acontecer para o ser e o querer.
- A Virtude como Autarquia: A Liberdade como Valor Supremo
Neste sistema, a virtude se identifica com a liberdade e a autarquia, a autossuficiência da alma bem ordenada. Ser livre, para Epicteto, não é fazer tudo o que se deseja, isso seria escravidão às paixões, mas querer apenas aquilo que a razão aprova, aceitando com serenidade o curso do destino. A liberdade é, portanto, a condição daquele cujo bem-estar não pode ser comprometido por nenhum poder externo, nem mesmo pelo tirano ou pela dor física.
Esta visão é radicalmente expressa na metáfora do jogo de dados, recorrente em seus Discursos, onde ele recorre à metáfora teatral para expressar a relação entre liberdade, destino e responsabilidade moral. Epicteto ressalta que somos como atores em uma peça. Cada indivíduo recebe um papel, breve ou duradouro, elevado ou humilde que não lhe cabe determinar. O que está sob seu domínio não é o conteúdo do papel, mas a qualidade com que o desempenha. A excelência moral consiste, portanto, em exercer com retidão e lucidez a função que lhe foi atribuída, independentemente de sua posição social, condição física ou circunstância histórica. Assim, a liberdade não está em escolher os acontecimentos, mas em assumir, com dignidade e competência moral, aquilo que a ordem do mundo nos confia (Epicteto, 2012). O valor não reside no papel (o indiferente), mas na excelência com que o desempenhamos (a virtude).
O que podemos chamar de psicologia moral estoica, sustenta que esta ética é profundamente cognitiva. Inspirando-se na tradição socrática, Epicteto sustenta que não são as coisas em si que nos perturbam, mas os juízos que formulamos a seu respeito. O sofrimento nasce, assim, de um erro avaliativo, onde a atribuição de valor é dada a algo que não o possui. A prática filosófica assume, nesse contexto, a forma de uma disciplina do assentimento, pela qual o indivíduo aprende a suspender suas reações imediatas, examinando racionalmente as impressões que o afetam.
Como observa Martha Nussbaum (1994), a filosofia helenística pode ser compreendida como uma verdadeira “medicina das paixões”, na qual Epicteto figura como um terapeuta rigoroso da vida psíquica, empenhado em reconduzir o sujeito à lucidez racional e à autonomia interior.
- O Cosmopolitismo e a Vontade Divina: A Base Objetiva do Valor Interior
Apesar de seu foco na interioridade, a axiologia de Epicteto não é subjetivista ou relativista. Ela está ancorada em uma cosmologia objetiva herdada dos estoicos antigos: o universo é um todo racional, vivo e divino, permeado pelo Logos ou Razão Universal, Deus, Natureza, Gaia etc. A virtude humana consiste, então, precisamente em viver de acordo com a natureza, ou seja, em alinhar a razão individual com a razão universal.
Desta cosmologia decorre um profundo cosmopolitismo, onde todos os seres humanos pertencem a uma única comunidade global. Se todos os seres humanos participam do mesmo Logos, então todos são, em essência, irmãos e cidadãos da grande cidade do universo. Pierre Hadot (2016) destaca como este exercício de cosmovisão permite ao indivíduo situar seus infortúnios na perspectiva ampla do cosmos, dissipando seu peso emocional e transformando o dever em um serviço harmonioso à ordem universal.
O valor da ação, portanto, não é medido por seu sucesso externo, que não depende de nós, mas pela qualidade da intenção que a guia. A famosa “reserva mental” ou “cláusula de exceção”: agir buscando um fim preferível, mas reservando interiormente o assentimento ao resultado que o destino determinar. Este é o mecanismo prático que preserva a liberdade do agente. Ato de valor é, em última instância, um ato de cooperação consciente e livre com a vontade divina.
- Legado, Críticas e Limitações
O legado de Epicteto é imenso e atravessa os séculos. Seu pensamento influenciou diretamente o imperador-filósofo Marco Aurélio. No cristianismo primitivo, figuras como São João Crisóstomo admiravam sua ética. Na modernidade, ressoa no cogito cartesiano, que busca um fundamento indubitável na interioridade; na ética do dever kantiana, que proclama a boa vontade como o único bem incondicional; e, de forma notável, na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) contemporânea. O psicoterapeuta Albert Ellis, fundador da TCC, reconheceu explicitamente sua dívida intelectual para com Epicteto, cuja máxima central: “não são as coisas que nos perturbam, mas a visão que temos delas” (Epicteto, 1961), pode ser considerada o princípio fundador da reestruturação cognitiva.
Contudo, a axiologia estoica enfrenta objeções significativas, que não anulam sua força, mas revelam seus limites estruturais:
1. O Problema da Empatia e do Engajamento: Uma ética que busca a impassibilidade e desvaloriza os laços e os resultados externos pode ser acusada de fria, de promover uma alienação do mundo e uma diminuição da compaixão. Como conciliar a serenidade interior com um engajamento caloroso e vulnerável pelos outros?
2. A Negação da Vulnerabilidade: A tese de que o sábio é completamente feliz mesmo sob tortura (um exemplo estoico clássico) parece contraintuitiva e desumanizante. Ignora a dimensão corpórea e passional do sofrimento, que parece constitutiva da condição humana.
3. Um Ideal Inalcançável? A figura do sábio estoico, imperturbável e perfeito, funciona mais como um ideal regulador do que como uma realidade psicológica. Isso pode levar a uma culpa ou a um sentimento de fracasso no aspirante que não consegue aniquilar suas paixões.
4. O Risco de Despolitização da Ética. Ao deslocar o eixo do valor quase exclusivamente para a interioridade, a ética estoica corre o risco de enfraquecer a dimensão política da vida moral. Se a verdadeira liberdade reside apenas na disposição interior da vontade, injustiças estruturais, opressões sociais e desigualdades históricas podem ser relativizadas como meros externos fora do domínio do agente. Tal perspectiva pode favorecer uma adaptação passiva às condições sociais injustas, reduzindo o ímpeto transformador da ação ética coletiva e deslocando o sofrimento social para uma responsabilidade meramente individual.
5. A Tensão entre Determinismo Cósmico e Responsabilidade Moral. A cosmologia estoica sustenta uma ordem racional absolutamente determinada, regida pelo logos. No entanto, essa concepção levanta uma dificuldade clássica: se tudo ocorre por necessidade, em que sentido o sujeito pode ser considerado moralmente responsável? Ainda que os estoicos defendam uma forma de compatibilismo, segundo a qual a liberdade consiste em consentir racionalmente com a necessidade, permanece a tensão entre determinação universal e imputabilidade moral. Essa tensão desafia a coerência interna da noção de autonomia ética proposta pelo estoicismo.
6. A Redução da Complexidade Emocional Humana. Ao privilegiar a racionalidade como critério último de valor, a ética estoica tende a reduzir a complexidade afetiva da experiência humana. Emoções como luto, angústia, apego ou compaixão profunda podem ser interpretadas como formas de erro cognitivo, quando talvez expressem dimensões legítimas da finitude e da intersubjetividade humana. Tal racionalização excessiva pode empobrecer a compreensão do sofrimento, transformando experiências existenciais profundas em meros desvios a serem corrigidos pela razão.
7. A Ambiguidade entre Autodomínio e Autossupressão. Embora o estoicismo proponha o autodomínio como expressão de liberdade, há o risco de que essa prática deslize para uma forma sutil de repressão afetiva. A exigência de constante vigilância racional pode conduzir não à integração das emoções, mas à sua negação sistemática. Nesse sentido, a fronteira entre liberdade interior e auto aniquilamento emocional torna-se tênue, especialmente quando o ideal do sábio é interpretado de maneira rígida ou literal.

- Conclusão: A Inexpugnável Cidadania da Razão
Apesar dessas críticas, a força da axiologia de Epicteto permanece como um farol em tempos de incerteza. Em um mundo cada vez mais volátil e complexo, sua filosofia oferece um antídoto poderoso contra a ansiedade gerada pela ilusão de controle. Ela nos convida a uma migração decisiva: transferir nosso investimento existencial do frágil reino das circunstâncias para o soberano reino de nossa capacidade de julgar e escolher.
A grande lição de Epicteto é que o valor não é algo a ser encontrado ou conquistado fora, mas uma capacidade a ser exercitada e fortalecida dentro. A vida valiosa não é aquela que acumula sucessos, mas aquela que, independentemente dos resultados, pode olhar para si mesma e afirmar: “minha vontade permaneceu íntegra, minha razão, alinhada com o todo”. Se Aristóteles nos ensinou a florescer no mundo, Epicteto nos ensina a ser livres apesar do mundo.
A solução estoica, contudo, por mais heroica que fosse, continha uma tensão. Ao erigir uma fortaleza interior inexpugnável, ela corria o risco de isolar a alma em sua própria cidadela, divorciando-a de uma conexão positiva e amorosa com a fonte última da realidade. O Logos estoico era uma razão impessoal e imanente ao cosmos; a liberdade era conquistada por uma disciplina de negação e distanciamento. Restava uma pergunta: seria possível conceber uma interioridade que, em vez de se fechar para se proteger, se abrisse em êxtase para se unir ao princípio transcendente de todo valor e de todo ser?
É nesta busca por uma reconciliação mais profunda entre o interior e o transcendente que o pensamento de Plotino (204-270 d.C.) encontra sua vocação. Filósofo grego do Egito romano, ele é considerado o fundador do Neoplatonismo, um sistema que busca sintetizar e superar as tradições platônica, aristotélica e estoica. Se Epicteto localizou o valor supremo na vontade autônoma da alma individual, Plotino proporá algo ainda mais radical: o valor mais alto é o retorno da alma à sua Fonte, uma realidade absolutamente transcendente e inefável que ele chama de O Uno. O bem não é mais apenas viver de acordo com a razão, mas dissolver-se no êxtase da união mística com o princípio originário de tudo.
Enquanto Epicteto confiava na escolha moral para garantir a serenidade, Plotino confiará na contemplação e no amor ascendente para conduzir a alma em sua jornada de volta ao lar. A axiologia, assim, prepara-se para sua transfiguração: da ética da autonomia para a metafísica do êxtase.
Fontes Primárias
EPICTETO. Discursos. Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, 2012.
EPICTETO. Manual (Enchiridion). In: EPICTETO. Discursos e Manual. Tradução de D. José B. Duarte. Porto: Lello & Irmão, 1961.
HADOT, P. A filosofia como maneira de viver. Tradução de Lara Christina de Malimpensa. São Paulo: É Realizações, 2016.
LONG, A. A. Epictetus: A Stoic and Socratic Guide to Life. Oxford: Oxford University Press, 2002.
NUSSBAUM, M. C. The Therapy of Desire: Theory and Practice in Hellenistic Ethics. Princeton: Princeton University Press, 1994.
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