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Linha do tempo Filosófica dos Valores e Axiologia das Escolas Filosóficas Ocidentais – Plotino

Professor Caverna convida Marcos Gabriel Tragueta para dar continuidade á análise axiológica dos principais pensadores da tradição filosófica ocidental

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Linha do tempo Filosófica dos Valores e Axiologia das Escolas Filosóficas Ocidentais – Plotino
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Por Marcos Gabriel Tragueta

⦁ Introdução
Se Epicteto conduziu a busca pelo valor à fortaleza interior da vontade individual, erguendo a liberdade como bem supremo conquistado pela disciplina do assentimento, Plotino (204–270 d.C.) propõe uma síntese filosófica que reconcilia a interioridade estoica com a transcendência platônica, elevando a axiologia a uma dimensão propriamente metafísica e mística. Enquanto o estoico buscava a autossuficiência através do distanciamento racional do mundo, o expoente do Neoplatonismo vislumbra um caminho de retorno que não nega o mundo, mas o compreende como um reflexo hierarquizado de um Princípio absolutamente transcendente.

Seu sistema, exposto nas Eneadas, um compilado de nove livros, não representa um simples retorno a Platão, mas uma radicalização criativa que integra pitadas de conceitos aristotélicos e estoicos em uma estrutura ontológica original, onde ser, valor e beleza são manifestações graduais de uma única Fonte inefável. Neste esquema, a questão axiológica fundamental se transforma: não se trata mais apenas de como viver bem no mundo ou apesar dele, mas de como a alma, emanada da plenitude absoluta, pode reconhecer seu valor próprio e realizar sua vocação mais alta ao retornar, extaticamente, à sua Origem.

⦁ A Tríade Emanativa
Segundo Russell, B. (2017, p.153), a metafísica de Plotino é baseada na teoria da tríade emanativa, que consiste no Uno, no Nous e na Alma. Essa teoria neoplatônica tende a ser confundida com a trindade cristã. No entanto, esta aproximação é conceitualmente imprecisa, pois não evidencia a natureza hierárquica e assimétrica do sistema emanativo de Plotino. Diferentemente da doutrina cristã da Trindade, que postula três entidades coiguais e consubstanciais em perfeita comunhão, a estrutura plotiniana estabelece uma cadeia de subordinação ontológica e degradação axiológica. Essa subordinação é ilustrada pela hierarquização da tríade de Plotino, e a degradação se encontra na alienação em que a maioria se encontra, ao se prender na superficialidade dos acontecimentos cotidianos e aceitar respostas prontas para os dramas humanos.
Na filosofia de Plotino, o Uno é um princípio absolutamente transcendente e impessoal, emana por superabundância necessária o Intelecto (Nous), que por sua vez emana a Alma (Psychē), sendo cada degrau uma imagem progressivamente mais múltipla, fragmentada e menos valiosa do anterior. Enquanto o cristianismo elabora uma teologia da relação pessoal e da criação livre, Plotino propõe uma metafísica da emanação ou derivação necessária (processão) e do retorno ascensional, onde valor e ser são estritamente proporcionais à proximidade com a fonte unitária, indivisível, indizível e indescritível.

Para Plotino, o Uno é princípio primeiro que está além da essência, tomando emprestada e radicalizando a formulação platônica da República. O Uno não é um ser, nem pensa, nem deseja. Ele é apenas a simplicidade absoluta, a superabundância de realidade que, por não poder conter-se em si mesma, emana necessariamente o que lhe segue, como a luz emana do sol ou o calor do fogo. Esta emanação não é uma ação deliberada, mas uma consequência ontológica de sua perfeição. De acordo com a análise de Émile Bréhier (1961), a filosofia plotiniana concebe a emanação como o mecanismo fundamental através do qual a perfeição do princípio originário se propaga e se manifesta nos diferentes níveis da realidade. Deste ato fundador deriva uma axiologia ontológica rigorosa: o valor de qualquer coisa é uma função direta de sua proximidade com o Uno. A realidade é, assim, um continuum hierárquico onde grau de ser e grau de valor são coextensivos.

A cadeia emanativa estabelece a ordem eterna dos valores. Do Uno emana o Intelecto, primeiro momento da multiplicidade inteligível, onde residem, em unidade sintética, todas as Formas platônicas. O Intelecto contempla o Uno e, nesse ato de contemplação, constitui-se como a plenitude do pensamento que pensa a si mesmo. Dele, por sua vez, emana a Alma, princípio de vida e movimento, que se divide entre uma parte superior voltada para o Intelecto e uma parte inferior que engendra e governa o cosmos sensível. Finalmente, no limite extremo da processão, está a Matéria, entendida não como substrato positivo, mas como pura privação, o não-ser que recebe, de modo imperfeito, as formas da Alma. Nesta descida, cada degrau é uma imagem atenuada do anterior: quanto mais distante da Fonte, maior a multiplicidade, a divisão e a potencialidade para o mal, entendido como ausência de forma e unidade.

⦁ A Beleza como Sinal do Valor
Neste sistema, a experiência do valor se manifesta de forma paradigmática na beleza. Para Plotino, a beleza sensível não é um valor autônomo, mas um chamado e um reflexo. Um objeto é belo não pelas proporções materiais em si, mas porque nelas a forma impõe uma unidade harmoniosa à matéria múltipla e rebelde e podem ser observados valores como: simetria; estabilidade; semelhança. A beleza é aquilo que resplandece da consonância das partes entre si e com o todo, fazendo transparecer através do sensível a presença do inteligível que o ordena. Essa manifestação se dá através de qualidades que são, na verdade, reflexos sensíveis de princípios eternos.

A beleza como transparência do inteligível ocorre quando reconhecemos em um objeto não apenas sua aparência imediata, mas os valores universais que ele encarna e reflete. Na simetria de um rosto ou de uma construção arquitetônica, percebemos o valor da ordem e proporção. Na estabilidade de uma montanha ou de um carvalho centenário, testemunhamos o valor da persistência e resiliência. Na semelhança entre pais e filhos, ou na repetição de padrões naturais como os fractais, reconhecemos o valor da continuidade e reprodução.

Além destes, inúmeros outros valores se tornam perceptíveis através da experiência estética. Na simplicidade elegante de uma equação matemática ou de um design minimalista, contemplamos o valor da economia e essencialidade. No ritmo de uma dança ou das estações do ano, experimentamos o valor do movimento ordenado e da ciclicidade. Na complexidade integrada de um ecossistema ou de uma sinfonia, apreciamos o valor da interdependência e da harmonia na diversidade. Na luminosidade que parece emanar de certas obras de arte ou paisagens, intuímos o valor da clareza e da revelação.

Cada uma dessas qualidades sensíveis funciona como uma porta de entrada para um reino valorativo mais profundo. A simetria não é bela em si mesma, mas porque nos fala de uma ordem subjacente ao caos aparente. A estabilidade nos atrai porque promete durabilidade em um mundo de fluxo constante onde tudo muda o tempo todo. A semelhança nos comove porque sugere uma identidade que persiste através da diferença. Plotino compreende que nossa atração pela beleza não é superficial, mas profundamente axiológica: somos atraídos pelo belo porque nele reconhecemos, ainda que obscuramente, os valores eternos que são a verdadeira pátria de nossa alma.

Esta concepção tem profundas implicações axiológicas e pedagógicas. A beleza funciona como a primeira escada da ascese espiritual. Como argumenta Pierre Hadot (1999), a experiência estética, para Plotino, é um exercício de ver de outro modo: aprender a discernir, no belo sensível, a presença do inteligível que o anima, para então se voltar progressivamente para as formas mais puras de beleza: a das virtudes; a das ciências; a do próprio Intelecto. O valor estético é, assim, instrumental e propedêutico: seu fim último é conduzir a alma de volta à fonte de toda beleza, que é o Uno através do Intelecto.

⦁ Caminho do Retorno
Se a processão é um movimento necessário da superabundância divina, o retorno é o movimento livre e valorativo por excelência da alma. A vida filosófica é a prática sistemática desse retorno, um processo de simplificação e interiorização. Plotino (2021) descreve essa jornada como uma fuga do particular para o universal e, finalmente, do universal para o Uno.

O caminho exige uma purificação que é, antes de tudo, ética: o abandono das paixões, dos apegos aos bens exteriores e da identificação com o corpo. Num segundo momento, requer uma contemplação das realidades inteligíveis, exercitando a faculdade noética da alma. Contudo, o ápice da via não é intelectual, mas místico. A união com o Uno, experiência que Plotino afirma ter vivido várias vezes, transcende a atividade do Intelecto. É um êxtase, uma simples visão onde o sujeito contemplante se funde com o contemplado, numa união anterior à distinção sujeito-objeto. Neste estado, a alma não mais conhece, mas é. Não mais busca o valor, pois está unida à sua Fonte. Como descreve Plotino (2021): Não era mais uma coisa dupla, mas uma só; não havia distinção, pois o que contemplava era, por assim dizer, ele mesmo.

⦁ Legado, Críticas e Limitações
O legado de Plotino é monumental. Sua filosofia forneceu a estrutura conceitual que permitiu a Santo Agostinho e a outros Padres da Igreja sintetizarem a tradição platônica com a revelação cristã, identificando o Uno com Deus Pai. Sua hierarquia do ser permeou todo o pensamento medieval, do Pseudo-Dionísio a São Tomás de Aquino. No Renascimento, Marsílio Ficino traduziu e reviveu seu pensamento, tornando-o central para o humanismo florentino. No idealismo alemão, ecos de sua dialética da unidade e multiplicidade ressoam em Hegel.

Contudo, sua axiologia enfrenta objeções importantes:

  1. A Negação do Valor do Mundo Sensível: Ao identificar o valor máximo com a fuga do múltiplo e do material, o sistema pode ser acusado de um desprezo pelo mundo concreto, pela corporeidade e pela história, tendendo a um ascetismo radical. Esta posição marginaliza aspectos fundamentais da experiência humana como a criação artística, o amor corporal, o engajamento político e a transformação histórica, reduzindo-os a meros degraus provisórios em uma escada que se deve abandonar.
  2. O Problema da Inefabilidade e do Elitismo: Se o Bem Supremo é inefável e acessível apenas pela experiência mística, como fundamentar uma ética social ou um discurso racional sobre os valores? Há um risco de elitismo espiritual, reservando a plenitude axiológica a uns poucos iniciados capazes da ascese necessária, enquanto a maioria permaneceria em um estado de degradação axiológica. Esta perspectiva dificulta a construção de uma ética pública democrática, onde valores devem ser discutidos, justificados e aplicados coletivamente.
  3. A Tensão entre Emanação Necessária e Liberdade do Retorno: Se a processão do múltiplo a partir do Uno é necessária, o mal e a fragmentação parecem ser consequências inevitáveis da natureza divina. A liberdade humana, então, reduzir-se-ia apenas ao movimento de retorno, colocando em questão a responsabilidade ética no mundo descendente. Esta visão oferece poucas ferramentas para enfrentar problemas éticos concretos como injustiça social, sofrimento injusto ou a construção de uma sociedade mais justa.
  4. A Passividade frente ao Sofrimento e à Injustiça: A ênfase plotiniana na aceitação contemplativa do mundo como reflexo necessário da emanação divina pode conduzir a uma atitude de resignação passiva diante do sofrimento e da injustiça. Se tudo é determinado pela cadeia emanativa necessária, qual espaço resta para a transformação ativa do mundo? Esta objeção é particularmente relevante em contextos de opressão social, onde a aceitação metafísica pode ser confundida com conformismo político.
  5. A Subvalorização da Individualidade e da Singularidade: Ao privilegiar a união extática com o Uno como ápice axiológico, o sistema neoplatônico subvaloriza a singularidade individual e as diferenças pessoais como portadoras de valor. A jornada espiritual é concebida como um processo de simplificação e abandono das particularidades, não como um cultivo das potencialidades únicas de cada indivíduo. Esta perspectiva entra em tensão com visões contemporâneas que valorizam a autenticidade pessoal e a diversidade como bens em si mesmos.
  6. A Dificuldade de Conciliação com a Ciência Natural: A visão hierárquica e teleológica de Plotino, onde a matéria ocupa o degrau mais baixo da realidade, entra em conflito com a visão científica moderna que atribui à matéria e aos processos naturais uma realidade autônoma e intrínseca. A física contemporânea, por exemplo, revela na matéria uma complexidade e uma capacidade de auto-organização que desafiam sua caracterização como mera privação ou não-ser.

Conclusão
Apesar das críticas, a contribuição de Plotino permanece como um dos ápices da reflexão axiológica ocidental. Ele oferece uma resposta grandiosa à pergunta pelo fundamento último do valor: este não reside em convenções, nem na vontade autônoma, nem no florescimento imanente, mas na própria natureza do real, estruturado como uma doação hierárquica de ser a partir de uma Fonte absolutamente transcendente e boa.

Sua grande lição é que a busca pelo valor mais alto é, em última instância, uma busca de retorno e unificação. É um convite a uma ascese que, começando pela admiração da beleza do mundo, pela prática da virtude e pelo exercício do intelecto, culmina no silêncio extático da união. Em Plotino, a axiologia atinge seu ponto mais metafísico e místico até então, propondo que a realização do valor supremo é a própria alma reencontrando sua morada na Unidade primordial de onde tudo emana e para onde tudo, consciente ou inconscientemente, aspira retornar.

Uma Releitura Contemporânea do Uno Plotiniano
A tradição neoplatônica, ao postular o Uno como princípio primeiro e inefável, pode ser reinterpretada sob uma ótica contemporânea não como uma entidade metafísica singular, mas como um campo dinâmico de valores universais em constante evolução, uma matriz organizadora da experiência consciente que se manifesta progressivamente através da história humana e do desenvolvimento psíquico individual.

O Uno como Campo de Valores Emergentes
Na visão tradicional, o Uno é além do ser e além do intelecto. Em uma leitura contemporânea, podemos entendê-lo como aquilo que precede e condiciona todas as formulações valorativas particulares, não um deus transcendente, mas o campo de possibilidades axiológicas a partir do qual emergem todos os sistemas de valor. Na leitura de John Cottingham (2022), a ética não pode ser reduzida a construções culturais arbitrárias, pois a experiência humana do valor revela padrões normativos recorrentes que expressam estruturas profundas de significado, compartilhadas para além de contextos históricos ou culturais específicos.

Esta matriz não é estática, mas evolutiva. Ela não emana de uma necessidade metafísica, mas se revela progressivamente ao longo do desenvolvimento histórico da consciência moral humana, seguindo padrões reconhecíveis de complexificação e integração. Nesse sentido, Steven Pinker (2018), ao analisar o progresso moral, identifica tendências históricas que apontam para a ampliação do círculo moral e para uma crescente sofisticação dos sistemas éticos.

A Emanação como Processo de Especificação Histórica
A tríade plotiniana (Uno → Intelecto → Alma) pode ser reinterpretada como um processo de especificação progressiva deste campo valorativo universal:

  1. O Uno como Campo Potencial: Trata-se de um nível mais profundo do valor, anterior a qualquer norma, regra ou formulação ética concreta. É o campo das possibilidades valorativas, onde ainda não há códigos morais definidos, mas sim disposições fundamentais que tornam esses códigos possíveis. Em termos contemporâneos, esse plano pode ser comparado às estruturas profundas da gramática moral, que organizam intuitivamente nossos julgamentos éticos, ou aos arquétipos valorativos descritos pela psicologia junguiana, que funcionam como padrões simbólicos recorrentes na experiência humana do bem, do mal e do sentido.
  2. O Intelecto (Nous) como Sistema Coerente: É o momento em que esses valores básicos deixam de ser apenas intuições e passam a ser organizados de forma clara e estruturada. Eles se transformam em sistemas de pensamento, como as grandes tradições éticas e morais: por exemplo: o estoicismo; o budismo; a ética de Kant; as declarações universais de direitos humanos e os sistemas jurídicos modernos. Nessa etapa, os valores ganham nomes, regras, princípios e explicações racionais que orientam a vida individual e coletiva.
  3. A Alma (Psychē) como Experiência Vivida: É a fase em que esses valores deixam de ser apenas ideias ou regras escritas e passam a fazer parte da pessoa. Eles se transformam em motivações reais, influenciam emoções, escolhas e atitudes do dia a dia. Aqui, os valores aparecem no nível da consciência moral individual, na forma como alguém age, decide, lida com os outros e constrói o próprio caráter ao longo da vida.

O Retorno como Processo de Conscientização Axiológica
O movimento de retorno à fonte, tão central em Plotino, adquire novo significado nesta leitura: trata-se do processo de conscientização crescente sobre os próprios valores e suas fontes mais profundas. Não é uma fuga do mundo, mas uma integração progressiva de níveis cada vez mais fundamentais de significado na vida concreta.

Como descreve a psicologia humanista-existencial de Rollo May (2015), a busca por significado constitui uma necessidade fundamental da existência humana, responsável por integrar experiências dispersas em estruturas coerentes de sentido. Nessa perspectiva, o êxtase plotiniano pode ser compreendido como uma experiência de integração axiológica máxima, na qual o indivíduo vivencia sua vida em profundo alinhamento com aquilo que reconhece como mais valioso e significativo.

Hierarquia como Complexificação, não como Subordinação
A hierarquia plotiniana tradicionalmente implica subordinação ontológica. Nessa releitura, ela representa níveis crescentes de complexidade e integração:

Nível 1 – Basal: Valores instrumentais e imediatos. São os valores mais básicos, ligados à sobrevivência e ao bem-estar imediato. Incluem o prazer, o conforto, a segurança e a evitação da dor. Esses valores orientam escolhas do dia a dia, como buscar descanso, proteção, alimento ou estabilidade material. São importantes, pois garantem a continuidade da vida, mas, quando se tornam absolutos, podem levar ao egoísmo, ao medo excessivo ou à busca constante de satisfação imediata. Exemplos: segurança financeira, descanso, prazer físico, conforto, estabilidade.
Nível 2 – Intermediário: Nesse nível, os valores deixam de ser apenas individuais e passam a considerar o outro e a vida em sociedade. Aqui surgem princípios como justiça, lealdade, responsabilidade, honestidade e respeito. Esses valores orientam comportamentos morais, regras de convivência e compromissos sociais. Eles permitem confiança mútua, cooperação e construção de comunidades estáveis. Exemplos: cumprir promessas, agir com justiça, respeitar regras, assumir responsabilidades, ser solidário.
Nível 3 – Superior: Valores existenciais e transcendentais. Esse nível envolve valores que dão sentido profundo à existência e ultrapassam interesses imediatos ou sociais. Incluem a busca da verdade, da beleza, da compaixão universal, do amor ao conhecimento e de um sentido último para a vida. São valores que orientam vocações, projetos existenciais e visões de mundo, frequentemente associados à filosofia, à arte, à espiritualidade, à ciência ou ao compromisso ético universal. Exemplos: busca da verdade, criação artística, compaixão por toda a humanidade, sentido da vida, sabedoria.

Cada nível não nega o anterior, mas o integra em um sistema mais complexo e abrangente. O desenvolvimento axiológico saudável segue esta trajetória ascendente, onde valores mais simples são recontextualizados dentro de quadros mais amplos de significado.

Aplicações Contemporâneas: Crise de Sentido e Busca de Valores

Esta releitura oferece ferramentas para compreender fenômenos contemporâneos:

  1. A Crise de Sentido Pós-Moderna: A chamada crise de sentido pode ser entendida como uma desconexão entre diferentes níveis de valores. Muitas pessoas conseguem satisfazer valores básicos, como: conforto; consumo e segurança. Mas têm dificuldade de conectá-los a valores mais profundos, como propósito, significado e sentido de vida.

O resultado é uma situação paradoxal: abundância material acompanhada de vazio existencial. Esse fenômeno foi analisado pelo filósofo Charles Taylor, que descreve esse cenário como o mal-estar da modernidade: uma sociedade tecnicamente avançada, mas espiritualmente desorientada.

  1. Os Conflitos Éticos Globais: Os grandes conflitos éticos do mundo contemporâneo podem ser vistos como choques entre diferentes sistemas de valores organizados. Na maioria das vezes, não se trata da ausência de valores, mas de divergências profundas sobre como valores considerados universais, como: justiça; dignidade ou liberdade, devem ser compreendidos e aplicados.
    Esses conflitos indicam a necessidade de diálogo e integração, isto é, de buscar formas mais amplas e complexas de compreender os valores, capazes de incluir perspectivas distintas sem anulá-las.
  2. O Desenvolvimento Psicológico: O desenvolvimento humano também segue padrões reconhecíveis de complexificação dos valores. Estudos clássicos da psicologia mostram que as pessoas tendem a passar de valores mais simples e egocentrados para valores mais amplos e inclusivos ao longo da vida.
    Isso é evidenciado, por exemplo:

⦁ Nos modelos de desenvolvimento moral de Lawrence Kohlberg e Carol Gilligan;
⦁ No modelo dos valores em espiral proposto por Clare Graves e desenvolvido por Don Beck.

Essas teorias mostram que amadurecer não é apenas adquirir mais informação, mas reorganizar profundamente o que consideramos valioso.

Conclusão: Do Mistério Metafísico ao Desafio Existencial
Ao reinterpretar o Uno de Plotino como um campo dinâmico de valores em evolução, uma doutrina metafísica antiga transforma-se em um modelo prático para compreender o desenvolvimento humano.

O desafio contemporâneo já não é alcançar um princípio transcendente por meio de experiências místicas excepcionais, mas tornar-se consciente dos valores que realmente orientam nossas escolhas e alinhar a vida cotidiana a eles de forma cada vez mais integrada.

A grande lição dessa releitura é clara: o valor supremo não está fora do mundo, mas na qualidade da nossa participação consciente na criação de significado. O chamado retorno ao Uno deixa de ser uma fuga da existência e passa a significar um retorno às camadas mais autênticas do próprio ser, um caminho de integração, maturidade e profundidade existencial.

Essa abordagem preserva a intuição central de Plotino, que sugere a existência de uma hierarquia de valores, mas a traduz em uma linguagem psicológica e existencial acessível ao pensamento contemporâneo, mantendo sua força sem perder relevância.

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    Professor Caverna

    Caverna é professor de Filosofia, criador de conteúdo digital e coordenador do projeto “Café Filosófico” em Foz do Iguaçu.

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