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Valores e axiologia Santo Agostinho

Professor Caverna convida Marcos Gabriel Tragueta para dissertar sobre os pensamentos de Santo Agostinho

16 min de leitura
Valores e axiologia Santo Agostinho

Por Marcos Gabriel Tragueta

Do Êxtase Impessoal à Comunhão Amorosa

Se Plotino elevou a axiologia ao plano da união extática com um Princípio transcendente e impessoal, coube a Santo Agostinho de Hipona (354–430 d.C.) realizar a transposição decisiva que reconciliaria a profundidade metafísica neoplatônica com as exigências de um encontro pessoal e amoroso com a fonte do valor. A grandiosa síntese plotiniana, ao erigir uma hierarquia emanativa necessária, deixava sem resposta a questão fundamental da relação pessoal entre o buscador e o fundamento do valor. Como transformar o Uno inefável, que não conhece, não ama e não dialoga, em um interlocutor capaz de ouvir o lamento, perdoar a culpa e acolher o desejo do coração humano? Como converter a ascese solitária do intelecto em uma via de comunhão e graça?

Agostinho, profundamente marcado por sua leitura dos neoplatônicos, especialmente através dos textos de Plotino e Porfírio (BROWN, 2000), encontrou ali as ferramentas conceituais para pensar a transcendência, mas não a resposta para sua inquietação existencial. Sua famosa jornada, narrada em sua obra Confissões, é precisamente a história dessa transição: da busca filosófica pela Verdade abstrata ao encontro pessoal com o Deus que é mais íntimo a mim do que eu mesmo (AGOSTINHO, 1998, III.6). Se para Plotino o valor supremo estava na fuga do múltiplo, para Agostinho ele residirá no regresso a uma relação viva com Aquele que é, simultaneamente, o fundamento do ser e o sujeito do amor. A axiologia, assim, sofre uma transfiguração radical: o bem supremo, ou bem maior, deixa de ser um estado contemplativo de união impessoal para tornar-se a bem-aventurança da comunhão amorosa com um Deus pessoal.


O Amor como Princípio Estruturante da Realidade e do Valor

A pedra angular da axiologia agostiniana é a redefinição do próprio fundamento da realidade. Enquanto Plotino partia do Uno como princípio primeiro de onde tudo emana por necessidade, Agostinho proclama, com o cristianismo, que no princípio era o Verbo. E o Verbo era Deus, e Deus era Amor. O Amor não é uma qualidade entre outras da divindade; é a sua própria substância. Em A Trindade, Agostinho (1994) desenvolve a doutrina de que Deus é uma comunhão eterna de amor entre Pai, Filho e Espírito Santo. Desta premissa trinitária decorre uma revolução axiológica: se a realidade última é relacional e amorosa, então o valor supremo não pode ser a absorção em uma unidade impessoal, mas a participação nesta comunhão.

Esta participação se dá através do amor ordenado. Para Agostinho, a desordem moral e a infelicidade humana nascem precisamente de um desarranjo nesta ordem do amor: amar como fim aquilo que deve ser amado como meio, e amar com medida moderada aquilo que deve ser amado sem medida. O valor de qualquer coisa é determinado por seu lugar nesta hierarquia amorosa, que culmina no amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Como escreve em A Doutrina Cristã: A virtude nada mais é do que o amor ordenado (AGOSTINHO, 2002, I.22.21). Diferente da hierarquia plotiniana de degradação ontológica, a hierarquia agostiniana é uma escala de ordenação afetiva, onde tudo encontra seu valor próprio quando amado na medida e no lugar corretos. Como observa Hannah Arendt (1996) em seu estudo sobre o conceito de amor em Agostinho: a ordenação do amor é, para ele, a própria estrutura da realidade moral.

A Interioridade como Local da Busca e do Encontro

Agostinho herda dos neoplatônicos a virada para a interioridade, mas a transforma de forma significativa. Para Plotino, a interioridade era o caminho para encontrar em si a centelha divina, a parte não emanada da alma. Para Agostinho, a interioridade é o espaço do diálogo com Deus. A recomendação para o Santo é: não queiras ir para fora, retorna a ti mesmo; na interioridade do homem habita a verdade (AGOSTINHO, 1998, VII.10.16), não aponta para uma verdade abstrata, mas para a presença de Deus na memória, no intelecto e na vontade.

É nesta interioridade que ocorre a dramática luta entre dois amores que estruturará toda a sua antropologia e axiologia: o amor de si até o desprezo de Deus que gera a cidade terrena, e o amor de Deus até o desprezo de si, que edifica a cidade de Deus. O valor de uma vida, de uma ação ou de uma instituição é medido por qual desses dois amores a orienta. Esta visão introduz uma dimensão histórica e coletiva ausente em Plotino: a axiologia não é apenas individual e contemplativa, mas social e histórica, manifestando-se na tensão entre duas comunidades fundamentadas em amores opostos. Como analisa Henri de Lubac (1998), a oposição entre as duas cidades em Agostinho exprime, no plano histórico e social, a dramatização da luta interior entre dois amores fundamentais que estruturam a vida moral da humanidade.

A Graça como Condição de Possibilidade do Valor Realizado

Aqui reside talvez a maior ruptura agostiniana com o neoplatonismo e a contribuição mais original de sua axiologia. Para Plotino, o retorno ao Uno era conquistado pelo esforço ascético do filósofo, pela purificação intelectual e moral. Para Agostinho, após anos de batalha interior e de frustração com suas próprias limitações, fica claro que o ser humano, ferido pelo pecado original, não pode, por suas próprias forças, reordenar seu amor e alcançar o bem supremo. A vontade humana está dividida, cativa do pecado, incapaz de amar corretamente sem um auxílio exterior.

É daí que emerge o conceito axial da graça. A graça não é um prêmio pelo mérito, mas o dom prévio e imerecido do amor de Deus que cura a vontade, ilumina o intelecto e inflama o coração, capacitando-o para amar corretamente. Como Agostinho argumenta contra Pelágio, sem a graça, mesmo os atos exteriormente bons carecem do valor do amor ordenado e não conduzem à salvação. A verdadeira virtude, portanto, não nasce do esforço autônomo, mas da colaboração entre a vontade humana e a graça divina. A axiologia agostiniana é, assim, profundamente teocêntrica e relacional: o valor moral de uma ação não reside apenas em sua conformidade objetiva a uma norma, mas na qualidade do amor que a anima. Um amor que, em última instância, é suscitado e sustentado por Deus. Como sintetiza Étienne Gilson (1960), a moral agostiniana funda-se na caridade, na qual o valor do ato deriva da orientação da vontade humana pelo amor a Deus, que lhe confere sentido ético e mérito.

A Beleza como Vestígio do Amor Divino

Assim como em Plotino, a beleza ocupa um lugar privilegiado na experiência do valor. Mas em Agostinho, ela não é apenas um reflexo da Forma inteligível; é um vestígio e uma imagem da Trindade amorosa no mundo criado. A beleza do cosmos, a harmonia da música, a proporção das formas, tudo isso fala de um Deus que é Beleza suprema e que imprimiu sua marca na criação. No entanto, o perigo aqui, como Agostinho bem conhecia por experiência própria, é o da fruição desordenada: deleitar-se com a beleza criada como se fosse um fim em si mesma, em vez de um sinal que aponta para o Criador.

A beleza, portanto, tem uma função pedagógica semelhante à plotiniana, mas com uma orientação relacional explícita. Ela deve levar à admiração e ao louvor, não à absorção contemplativa. O êxtase estético deve converter-se em gratidão e em movimento do coração em direção àquele que é a fonte de toda beleza. A experiência estética mais elevada, para Agostinho, não é o silêncio da união mística, mas o cântico de louvor, como os Salmos que permeiam suas Confissões, onde a alma, reconhecendo a beleza recebida, responde em amor ao Amor que a criou. Como destaca Carol Harrison (2006), em Agostinho a beleza não constitui primariamente uma categoria estética autônoma, mas uma categoria teológica, na medida em que remete ao amor do Criador e desperta na criatura uma resposta amorosa que a reconduz à fonte do ser.

Legado, Críticas e Limitações

O legado de Agostinho é imensurável. Ele moldou por completo a teologia e a espiritualidade ocidentais por mais de um milênio, influenciando profundamente figuras como Anselmo, Bernardo de Claraval, Lutero, Calvino e Pascal. Sua análise da interioridade, da vontade e do tempo antecipou questões centrais da filosofia moderna, ressoando em Descartes, Kierkegaard e na fenomenologia. A ética do amor ordenado continua a inspirar reflexões contemporâneas sobre a hierarquia de valores e a formação do caráter.

Contudo, sua axiologia enfrenta críticas profundas que exigem análise rigorosa:

O Problema do Mal e a Teodiceia Inaceitável: A explicação agostiniana do mal como “privação” e “consequência do livre arbítrio” constitui uma das falhas mais graves de seu sistema axiológico. Como conciliar um Deus onipotente, onisciente e perfeitamente amoroso com a existência de sofrimentos extremos, doenças congênitas ou desastres naturais que atingem inocentes? A resposta agostiniana mostra-se insuficiente diante da magnitude do mal no mundo. Além disso, sua doutrina da predestinação — desenvolvida na controvérsia com Pelágio — cria uma axiologia profundamente perturbadora: se Deus, em sua sabedoria eterna, já determinou quem receberá a graça da salvação e quem será condenado, todo o discurso sobre mérito, esforço moral e responsabilidade individual torna-se uma farsa. Como observa John Hick (2010), o agostinianismo apresenta uma tensão estrutural entre a afirmação de um Deus absolutamente amoroso e a doutrina da condenação eterna, uma vez que a onisciência e a providência divinas tornam previsível e, em certo sentido, inevitável, o destino das criaturas.

O Desprezo pelo Corpo e pela Sexualidade: A herança neoplatônica em Agostinho produziu uma visão profundamente negativa do corpo e da sexualidade que marcou negativamente a moral ocidental. Sua interpretação do pecado original como transmitido através do ato sexual, sua visão do desejo sexual como consequência da Queda, e sua idealização da virgindade criaram uma ética da repressão que causou danos psicológicos e relacionais incalculáveis. Como argumenta Elaine Pagels (1988), a interpretação agostiniana do pecado original e da sexualidade contribuiu para uma compreensão negativa do prazer sexual que, além de reconfigurar a antropologia cristã, operou historicamente como instrumento de regulação social e de subordinação feminina. Esta desvalorização do corporal contamina toda sua axiologia, tornando-a incapaz de reconhecer valor intrínseco na experiência encarnada.

A Passividade Política e o Quietismo Ético: A dicotomia radical entre a cidade de Deus e a cidade dos homens, embora ofereça uma crítica profunda aos projetos políticos terrenos, tende a um quietismo perigoso. Se o verdadeiro valor está apenas na cidade celeste, por que se empenhar na transformação das estruturas sociais injustas? Por que lutar contra a escravidão, a desigualdade ou a tirania, se tudo isso é passageiro? Esta posição foi historicamente usada para justificar a passividade cristã diante de regimes opressivos. Como argumenta Gustavo Gutiérrez (1971), a centralidade agostiniana da salvação como realidade interior e escatológica contribuiu, em certas recepções históricas, para uma dissociação entre fé cristã e transformação social, produzindo uma tensão entre espiritualidade e práxis histórica.

O Individualismo Espiritual e a Negação da Dimensão Coletiva: Apesar de seu conceito de Igreja como corpo de Cristo, a ênfase agostiniana na interioridade e na relação pessoal com Deus tende a um individualismo espiritual. A salvação torna-se uma questão quase privada entre a alma e seu Criador, minimizando a dimensão comunitária, política e ecológica da existência. Esta visão ignora que valores como justiça, solidariedade e paz são essencialmente relacionais e só podem ser realizados coletivamente.

A Complexidade Inacessível e o Autoritarismo Teológico: O esforço de pensar o fundamento do valor como uma comunhão trinitária de amor resulta em uma doutrina de extraordinária complexidade que se torna inacessível à maioria dos crentes. Além disso, ao estabelecer a Igreja como intérprete autorizada da vontade divina, Agostinho lançou as bases para um autoritarismo teológico que, através dos séculos, sufocou a livre investigação e impôs dogmas através do poder temporal. Como observa John Rist (1994), embora Agostinho tenha promovido uma síntese entre fé e razão, essa articulação tendeu, em sua recepção histórica, a subordinar o exercício crítico da razão à autoridade da fé, restringindo o espaço para a investigação filosófica independente.

VII. Conclusão: Limites e Potencialidades de uma Axiologia do Amor

A contribuição de Agostinho para a história da axiologia é transformadora, mas profundamente ambígua. Ele deslocou o eixo do valor da contemplação de um princípio para a comunhão com uma pessoa, introduzindo a categoria do amor como fundamento axiológico. Sua grande intuição foi ter compreendido que o coração humano, inquieto por natureza, só encontra repouso e valor pleno quando direciona seu amor para a única realidade capaz de corresponder a ele infinitamente: o próprio Deus-Amor.

Sua lição perene é que a vida valiosa não é aquela que acumula méritos através da ascese intelectual, mas aquela que, reconhecendo sua própria pobreza e necessidade, se abre ao dom gratuito do amor divino e, transformada por ele, aprende a amar todas as coisas na ordem correta. Enquanto Plotino nos convidava a ascender sozinhos para nos fundirmos no Uno, Agostinho nos convida a nos deixarmos encontrar, no profundo de nossa própria inquietação, por Aquele que nos criou por amor e nos chama a uma relação de amor.

No entanto, a sombra desta conquista é longa. O preço da interiorização foi uma certa desvalorização do mundo e da história; o preço da ênfase na graça foi uma minimização da agência humana; o preço da ênfase no amor ordenado foi uma moralização rígida que muitas vezes serviu ao controle social. A busca pelo valor torna-se, em Agostinho, uma resposta ao amor que nos precede e nos sustenta, uma jornada não de conquista, mas de aceitação e de retorno amoroso.

VIII. Releitura Contemporânea: Para uma Axiologia do Amor Desinstitucionalizado

Uma leitura contemporânea da axiologia agostiniana pode resgatar sua intuição central: o amor como fundamento do valor, enquanto supera suas limitações históricas e teológicas. Nesta releitura, o “amor ordenado” não precisa ser entendido como obediência a uma hierarquia divinamente estabelecida, mas como capacidade de estabelecer relações de cuidado, reciprocidade e reconhecimento mútuo.

A “graça” pode ser reinterpretada de dom sobrenatural, para a experiência de receber amor e valor de forma imerecida, seja no cuidado parental, na amizade desinteressada, ou na solidariedade de estranhos. Estas experiências “graciosas” revelam que o valor não é algo que conquistamos através do mérito, mas algo que nos é dado através do relacionamento.

A “cidade de Deus” passa de realidade escatológica, para comunidades concretas que praticam valores de justiça, compaixão e inclusão no aqui e agora. A tensão entre as duas cidades torna-se então a tensão permanente entre sociedades fundadas no egoísmo competitivo e sociedades fundadas na cooperação solidária.

Esta releitura secularizada preserva o núcleo da intuição agostiniana, que o valor emerge do amor e do relacionamento, enquanto a liberta de seus elementos problemáticos: o sobrenaturalismo, o autoritarismo eclesiástico, o dualismo corpo/alma, e o quietismo político. Ela nos permite pensar uma axiologia relacional onde o valor supremo não está na união com um Deus transcendente, mas na qualidade das relações que estabelecemos conosco, com os outros e com o mundo.

Nesta perspectiva, a “inquietação do coração” que Agostinho tão profundamente descreveu não é um sinal de nossa origem divina, mas testemunho de nossa necessidade constitutiva de vínculos significativos. O repouso que buscamos não está em um além transcendente, mas na construção de um mundo onde cada pessoa possa experimentar-se como valiosa através de relações autênticas de reconhecimento e cuidado. A grande lição contemporânea de Agostinho, assim reinterpretada, é que nenhuma axiologia pode ser satisfatória se não colocar o amor (entendido como compromisso ativo com o bem-estar do outro) no centro de sua compreensão do valor.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS – AGOSTINHO (PADRÃO ABNT)

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. 8. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1998. (Coleção Os Pensadores).
AGOSTINHO, Santo. A Trindade. Tradução de Augusto Belo. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1994.
AGOSTINHO, Santo. A Doutrina Cristã. Tradução de Nair de Assis Oliveira. São Paulo: Paulus, 2002.
ARENDT, Hannah. O conceito de amor em Santo Agostinho. Tradução de Alberto Pucheu. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1996.
BROWN, Peter. Santo Agostinho: uma biografia. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Record, 2000.
GILSON, Étienne. Introdução ao estudo de Santo Agostinho. Tradução de Cristiano Maia. São Paulo: Paulus, 1960.
HARRISON, Carol. Beauty and Revelation in the Thought of Saint Augustine. Oxford: Oxford University Press, 2006.
LUBAC, Henri de. Agnosticismo e drama humano. Tradução de João Paixão Neto. São Paulo: É Realizações, 1998.

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    Professor Caverna

    Caverna é professor de Filosofia, criador de conteúdo digital e coordenador do projeto “Café Filosófico” em Foz do Iguaçu.

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