“Não é possível democracia plena se as mulheres recebem menos, o trabalho em casa não é dividido e se a mulher tem medo de sair na rua porque pode ser violentada e morta”, diz a professora Madalena Ames, da APP-Sindicato.
Ela foi uma das participantes e organizadoras do ato realizado neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, na Praça da Paz, em Foz do Iguaçu, para reivindicar mais paz, direitos e o fim da violência.
Leia também: Histórias de mulheres que ajudaram a construir Foz no Museu da Imprensa
O manifesto pacífico reuniu mais de 200 pessoas e 20 organizações sociais, sindicais e coletivos feministas. Os principais problemas apontados foram o peso da jornada de trabalho profissional e doméstica, a escalada de violência incluindo os estupros, o racismo, a falta de políticas públicas voltadas às mulheres e o fim da escala 6 x 1.
Madalena também mencionou os 51 anos de reconhecimento do Dia Internacional da Mulher pela Organização das Nações Unidas (ONU) e lembrou que na guerra são as mulheres que mais perdem, porque ficam sem casas, filhos e maridos.

Representante da Andes/Sesunila, Paula Fernandes destacou a tripla jornada de trabalho das mulheres — trabalho remunerado, trabalho doméstico e cuidado familiar. Ela ainda ressaltou a necessidade de mais creches e espaços educacionais para as mulheres.
Amanda Ruiz Martinez, aluna do curso Promotoras Populares da Fronteira, abordou o racismo, violência e repressão que recai sobre as mulheres migrantes em Foz do Iguaçu e destacou a importância das mulheres conhecerem os próprios direitos.
Feminicídios superam homicídios
A morte de mulheres no contexto doméstico, familiar e afetivo caracterizada por feminicídio tem crescido no país e já supera os homicídios. A análise é do Fórum Brasileiro de Segurança Pública na publicação Retratos do Feminicídio no Brasil, publicação coordenada por Samira Bueno.
Em 2025, um total de 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio — crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior.

De acordo com o Fórum, a violência doméstica tem forte influência de fatores estruturais como desigualdades de gênero, padrões culturais de dominação masculina, controle coercitivo e fragilidades na rede de proteção.
Em sentido semelhante, a evolução das taxas de outros crimes contra mulheres — como ameaça, perseguição, violência psicológica, lesão corporal, estupro e tentativa de feminicídio — também vem aumentando de forma consistente nos últimos anos.
O corpo feminino, conforme a publicação, é visto como “território alheio, que poderia ser ameaçado, agredido, sexualmente violentado e assassinado”, avalia pesquisadores do Fórum.
Em Foz do Iguaçu, foram registrados em dois feminicídios em 2024 e 3 em 2025.
Promotoras Legais Populares
Nesse contexto, a informação é uma ferramenta primordial para as mulheres. Em Foz do Iguaçu, o projeto Promotoras Legais Populares da Fronteira visa a trabalhar com a educação popular feminista junto a mulheres que estejam nos bairros.
Projeto de extensão da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), a iniciativa é coordenada pela professora Danielle Araújo, do curso de Antropologia, e já formou cerca de 80 promotoras.

As mulheres que moram em bairros normalizam a violência ou são desencorajadas a denunciar os agressores, diz a professora.
O papel da promotora, explica, é acolher as mulheres e auxiliá-las. “A mulher vai estar assistida por outra mulher.” Ainda segundo Danielle, muitas vezes a violência ocorre em um ambiente conhecido, por isso familiares e vizinhos dificultam que o agressor seja denunciado.
Violência mascarada
Para a professora, a situação na fronteira é mascarada e subnotificada. O desafio da condição da mulher é grande, porque é preciso um enfrentamento de todas as formas de violência, seja à mulher indígena, negra e migrante — que muitas vezes não têm acesso aos direitos e podem ter medo de fazer denúncia por não estarem regulamentada no trabalho, por exemplo.
Ela cita, por exemplo, a violência sofrida por domésticas paraguaias que residem onde trabalham — de segunda a sexta-feira — sem carteira assinada ou garantias trabalhistas.
Outro problema são as condições precárias em que vivem as catadoras de recicláveis, que muitas vezes precisam levar os filhos por falta de vagas em creches e acabam discriminadas.
Feminicídios no Paraná
2021: 75
2022: 77
2023: 81
2024: 109
2025: 87
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2026
Canais de Denúncia
Disque 180
CRAM – 0800 643 8111
Delegacia da Mulher – 3521-2150


