Com a Perimetral em obras, o autônomo Ismael Couto faz contornos para o seu deslocamento na área leste de Foz do Iguaçu. Passa pelas ruas Leonardo Otremba e Francisco Fogaça e chega ao São Roque, na Avenida Ayrton Senna. Todas com buracos.
Não é uma exclusividade da Região Leste. O mau estado das ruas e avenidas é motivo de reclamação da população em toda a cidade, dos corredores turísticos às ruas centrais, passando pelos pequenos trechos asfaltados em bairros. A buraqueira é geral. O morador fica com o prejuízo pelos danos em veículos e contratempos.
O ex-prefeito Chico Brasileiro se gabava do programa asfáltico, fator que contribuiu para a sua reeleição. Mas o legado de fato, com uma análise mais aprofundada, mostra o aumento da impermeabilização do solo e o debate atual sobre a qualidade dos serviços herdados.
Mas, afinal, por que o asfalto em Foz do Iguaçu esburaca, segundo a prefeitura? O H2FOZ foi em busca de respostas técnicas depois de a gestão municipal ter sugerido, em nota à imprensa, que os problemas de manutenção não cessam com as chamadas operações tapa-buracos devido às condições do pavimento produzido nos últimos anos.
Em um extenso documento elaborado pela Secretaria Municipal de Obras, a administração afirma que, em relação à pavimentação das vias de Foz do Iguaçu nos últimos anos, a “questão não é má qualidade, mas sim indicação adequada do material e suas limitações”.
Asfalto em Foz
O serviços são realizados com duas soluções que contam com normativas e processos definidos de aplicação para cada particularidade. Os dois tipos de insumos usados em pavimentação pelo município são:
- PMF: pré-misturado a frio; e
- CAUQ: concreto asfáltico usinado a quente.
“A escolha do tipo de revestimento asfáltico é uma das decisões mais críticas no projeto e na manutenção de vias”, expõe a prefeitura. “O PMF e o CBUQ são dois dos tipos mais comuns de misturas asfálticas utilizadas no Brasil, mas possuem características, processos de produção e aplicações muito distintas.”
O PMF (a frio) é aplicado com a temperatura ambiente, com cura — ganho de resistência — pela evaporação da água presente na emulsão. A quente, o CAUQ é aplicado em altas temperaturas, entre 140°C e 180°C, com a cura ocorrendo pelo resfriamento da massa.
Conforme a prefeitura, a principal diferença de desempenho entre os dois produtos está na capacidade de suportar cargas. Em um quadro (veja abaixo), a gestão expõe a aplicação ideal para cada tipo de tráfego, classificado segundo o volume e o peso dos veículos.
A conclusão da prefeitura? A escolha entre PMF e CAUQ não se trata de qual material é “melhor”, mas de usar o mais adequado em cada aplicação. Assim, tem-se, de acordo com o governo do município e o setor de obras:
Uso de PMF:
- para tráfego leve, camadas de base/regularização em tráfego médio e reparos emergenciais.
Oferece solução de baixo custo inicial e menor impacto ambiental. Porém, é mais sensível a intempéries, como em temporadas de chuva e frio. Demanda três dias para adquirir sua resistência ótima.
Uso de CAUQ:
- para tráfego médio e pesado, em que a durabilidade, resistência e segurança são primordiais.
Apesar do custo inicial mais alto, seu desempenho superior resulta em uma maior vida útil e menor necessidade de manutenção em vias de alta solicitação. A resistência ocorre com o simples resfriamento do material.
“A decisão final deve sempre ser baseada nas características de solicitação de cargas/veículos, dos materiais locais, o orçamento disponível e uma análise de custos do ciclo de vida do pavimento”, aponta a prefeitura.
Mas há um porém. O Ministério Público do Paraná acaba de recomendar ao prefeito Joaquim Silva e Luna (PL) e à secretária municipal de Obras, Thaís Escobar, que se abstenham de usar o preparado a frio na manutenção asfáltica. A promotoria cita que foram quatro tentativas, sem sucesso, na Avenida das Cataratas, e cobra o uso de material adequado.
Retornando aos problemas, a reportagem questionou quais são os principais fatores que impactam a manutenção do asfalto em Foz do Iguaçu, a buraqueira. A prefeitura disse que são os seguintes:
- limitações de aplicação do PMF relacionada ao processo de cura, sensibilidade do PMF às intempéries (chuva e frio), capacidade de carga ao tráfego;
- estrutura do pavimento (base e sub-base) subdimensionada com baixa capacidade em vias com tráfego pesado;
- drenagem subdimensionada em diversos bairros do município, que causa deterioração mais acelerada do pavimento.
Como soluções, a prefeitura expôs ao H2FOZ que a Secretaria de Obras prevê:
- aplicação do PMF exclusivamente em regiões de baixo tráfego para pavimentação e tapa-buraco;
- em vias de alto tráfego, uso exclusivo de CBUQ e Concreto de Cimento Portland (Concreto convencional);
- correção de base e sub-base em regiões com estrutura do pavimento mal dimensionado, onde o simples “tapa buraco” e recape não são a solução definitiva do problema;
- implantação de Usina de CBUQ própria para garantir autonomia de produção e redução de custos.
Responsabilização
Considerando que a malha asfáltica, conforme a prefeitura, apresenta problemas de limitação do uso do material a frio e base com baixa capacidade em vias de tráfego pesado, bem com drenagem inadequada, a administração foi indagada se há procedimentos de responsabilização técnica. A resposta foi:
A Secretaria de Obras esclarece que, nos contratos de pavimentação, está previsto o controle de fiscalização e, quando verificadas inadequações, o pagamento não é efetuado e é aberto um processo administrativo.
Tabela comparativa de aplicação dos insumos asfálticos:



