A desigualdade social e suas mazelas econômicas e sociais

Foto aérea da Ocupação Buba, a maior ocupação urbana do Paraná - Foto: Marcos Labanca

TEXTO DE OPINIÃO

Em todos os lados se vê uma sucessão de escândalos, causando instabilidade econômica, social e emocional, gerando uma desesperação total na vida das pessoas. Já não chega a dor da perda de tantas vidas, pela pandemia de covid-19, vemos a miséria e o desemprego afligindo grande parte da população.

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Os dados mostram que no Brasil, a cada cem pessoas, 15 estão desempregadas. No primeiro trimestre do ano, o desemprego alcançou a maior taxa, atingindo o recorde de 14,8 milhões de brasileiros desocupados, o maior número desde 2012. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

E Foz do Iguaçu segue o mesmo caminho. Os dados mostram que em março a cidade perdeu 183 empregos formais; e em abril, 171 postos de trabalho com carteira assinada.

Os ricos e os pobres cada dia estão mais distanciados em todos os sentidos e formas. De acordo com um estudo publicado no periódico científico Journal of Gerontology, ser rico adiciona nove anos à expectativa de vida de uma pessoa. A pesquisa durou dez anos e foi realizada no Reino Unido e nos Estados Unidos pela University College London. E como se não já soubéssemos, a pesquisa chegou à conclusão de que essa diferença está ligada cada dia mais à diferença da qualidade de vida entre ricos e pobres.

A desigualdade social, causada pelo acúmulo de poder e dinheiro, as poucas oportunidades de trabalho, a má administração dos que foram eleitos, e o pouco investimento em cultura, esporte e lazer têm gerado dor na vida de uma grande parcela da sociedade.

Em Foz, por exemplo, nota-se o crescimento de pessoas dormindo nas ruas, sem ter o que comer e onde viver. “Apenas o projeto Anjos da Madrugada atende 280 moradores de rua”, explicou Johnson Mateus Santos, no programa Marco Zero do último sábado. O trabalho é realizado sem ajuda do poder público, somente de voluntários e com doações.

No prédio do Ministério do Trabalho e Emprego, na esquina das Avenidas Brasil e Jorge Schimmelpfeng no centro de Foz, morador de rua monta sua casa para se proteger do frio e da chuva – Foto: Marcos Labanca

E a coisa piora pela falta de planejamento e visão de futuro, fazendo a situação desandar mais ainda neste período da pandemia. Exemplo vimos nos trabalhadores do turismo, incluindo taxistas e motoristas de aplicativos, com grandes dificuldades e praticamente nenhuma ajuda do poder público local.

De acordo com os dados do Ministério da Cidadania, o número de famílias cadastradas no Bolsa Família aumentou 43,6% no período entre março de 2020 e junho deste ano. Veja aqui o gráfico.

Em meio ao caos social de sempre, ver a pandemia como justificativa da crise econômica e social instalada em Foz do Iguaçu só mostra a incapacidade e a falta de responsabilidade com os iguaçuenses.

Depois de fortes chuvas e alagamentos, moradores da Zona Industrial tentam sair de casa – Foto: Marcos Labanca

É importante frisar que os problemas econômicos e sociais em Foz do Iguaçu sempre existiram e nunca houve interesse real em solucioná-los. Até mesmo porque o modelo atual de gestão favorece os grupos econômicos e políticos que dominam o município desde sempre, apenas em comum acordo se revezam nas indicações do nome para sentar na cadeira do Palácio das Cataratas, com acordos para manter o crescimento de seus patrimônios e latifúndios.

A maior prova da desigualdade em Foz do Iguaçu é que, dos 258 mil habitantes, 95.714 fazem parte do Cadastro Único do governo federal – e, destes, 27 mil sobrevivem com R$ 89 por mês. Aqui você verá um dos gráficos atualizados do Ministério da Cidadania.

A falta de projetos sustentáveis em todos os aspectos da sociedade e o fato de nunca se buscarem soluções reais de desenvolvimento nos trouxeram até aqui, uma Foz que não foi preparada para os desafios ocasionados pela mudança climática, conflitos, insegurança alimentar, muito menos ameaças sanitárias, e por isso o caos social e econômico atinge parte da população.

É a visão tacanha e obtusa dos que desde sempre cuidam da cidade; tentam, como se estivessem varrendo a sujeira para baixo do tapete, esconder aqueles que mais precisam, enviando-os para casas populares longe do centro, lugares onde falta tudo, onde os moradores precisam sair e caminhar muito para comprar o básico, já que o contrato do município com o Consórcio Sorriso tem trazido grandes tristezas aos usuários do transporte público. Sem falar da falta de posto de saúde, creche e escola perto, prejudicando mais ainda a vida daqueles que mais precisam.

Sem espaços de lazer, crianças brincam entre lama e poça d’água da chuva

A solução está em investir nos que mais precisam, oferecendo saúde pública, emprego e renda, para que o bem-estar humano e social desenvolva as pessoas; e, consequentemente, a cidade.

Enquanto a preocupação forem estruturas e prédios – embora no momento certo isso tenha a sua importância –, a cidade continuará nesse contraste, e a miséria seguirá assolando a vida da nossa gente.

É importante que o poder público e a sociedade compreendam que uma cidade se desenvolve com investimento nas pessoas. Enquanto isso não for o entendimento de todos, a tendência de Foz será o acúmulo de riqueza para uns e miséria e desesperança para outros.

* Amilton Farias é jornalista e colaborador do H2FOZ
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