Mundo do trabalho: analogia à escravidão física e mental

O filme Tempos Modernos, de Chaplin, reflete a situação atual, em que determinados ambientes de trabalho exploram a saúde mental e física de quem vende sua força de trabalho.

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Por AIDA FRANCO LIMA | OPINIÃO

Na semana que passou, o Brasil, mais uma vez, foi surpreendido com denúncias de trabalho análogo à escravidão. Desta vez, em vinícolas do Rio Grande do Sul. O fato de a mão de obra ocorrer por empresa terceirizada não limpa essa mancha vergonhosa nas logomarcas envolvidas.

A empresa terceirizada é a Fênix Prestação de Serviços, contratada pelas vinícolas  Aurora, Salton e Cooperativa Garibaldi, que mantinha mais de 200 trabalhadores em sistema análogo à escravidão, resgatados em cidades do Rio Grande do Sul.

Os trabalhadores eram surrados com cabo de vassoura, além de receberem mordidas, choques elétricos e ataques com spray de pimenta. Também denunciaram práticas irregulares sobre seus salários. Tudo isso somado às más condições de trabalho e de alojamento. Eles denunciaram ainda práticas como vales, multas e descontos nos pagamentos. Contaram que só tinham direito a comprar no mercadinho do próprio local. Com os preços nas alturas, o salário já ficava por ali mesmo. 

Essas e outras situações levaram o Ministério do Trabalho e Emprego e o Ministério Público do Trabalho a considerarem a situação como um regime de trabalho análogo à escravidão. Os trabalhadores saíram da Bahia em busca de emprego e encontraram marcas do sistema escravocrata.

Há muita água para passar debaixo da ponte. Por mais que as corporações tratem os funcionários não mais apenas como empregados, e sim colaboradores. E mesmo que haja murais com o nome do funcionário do mês e o calendário de aniversário lembre que haverá bolo e salgadinhos ao final do expediente, há muito que mudar.

A dor do trabalhador que é açoitado e obrigado a morar em alojamentos impróprios, que ferem a dignidade humana, assemelha-se a dor do trabalhador que, mesmo parecendo estar em um ambiente limpo, exala toxicidade. Trabalho análogo à escravidão é parente em primeiro grau do assédio moral.

Os trabalhadores estão adoecendo no ambiente de onde tiram seu sustento. E que muitas vezes não paga os remédios dos quais se tornam dependentes. Quando o algoz não consegue surrar e espancar, pois está à vista de todos, faz silenciosamente. Uma das técnicas é pôr na geladeira aquele funcionário exemplar. Faz da sua experiência um nada. Não lhe dá poder de decisão algum e faz a pessoa sentir-se e ser vista como  estando em um cabide de emprego. Não porque não queira trabalhar, mas porque não lhe é permitido.

Trabalho análogo à escravidão é vergonhoso e criminoso. Trabalho embrulhado em papel de assédio moral, ainda mais quando ocorre no serviço público, é leviano. Afinal, além de prejudicar a vítima da violência, prejudica os serviços públicos oferecidos à população. A pessoa assediada também contribui para custear o salário de quem a persegue das mais diversas formas.

Não podemos passar pano para esse tipo de atitude. Quem é responsável por aniquilar a saúde do trabalhador deve ser denunciado e processado. Quem pratica crimes contra os direitos dos trabalhadores não o faz por falta de informação, e sim pela ausência de ética e certeza da impunidade.

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