Foz do Iguaçu não está bem na fita quando se trata de renda domiciliar per capita e vive um paradoxo. Uma cidade que recebe vultosos investimentos públicos e privados (R$ 2 bilhões da Itaipu e outros R$ 2 bilhões da iniciativa privada) convive com perversa desigualdade como a revelada em janeiro pelo jornal Folha de Londrina que tabulou dados do censo de 2022, divulgados pelo IBGE.
A renda per capita familiar em Foz está na casa dos R$ 1.911,00, o 14º lugar entre as 40 cidades mais populosas do Paraná. Esse recorte leva à metáfora (Belíndia) criada em 1974 pelo economista Edmar Bacha para descrever a profunda desigualdade social e econômica do Brasil.
A cidade que recebe três milhões de turistas por ano e movimentou US$ 5 bilhões no seu corredor logístico em 2026, fica atrás de Cascavel (R$ 2.217,00), Toledo (R$ 2.165,00), Marechal Cândido Rondon (R$ 2.069,00) e Medianeira (R$ 2.049,00) – quatro cidades da região Oeste.
Os dados do IBGE mostram Foz do Iguaçu atrás de Curitiba (R$ 3.138,00), Maringá (R$ 2.647,00), Londrina (R$ 2.333,00), Pato Branco (R$ 2.310,00), Francisco Beltrão (R$ 2.278,00), Cascavel (R$ 2.217,00), Toledo (R$ 2.165,00), Pinhais (R$ 2.123,00), Marechal Cândido Rondon (R$ 2.069,00), Campo Mourão (R$ 2.064,00), Medianeira (R$ 2.049,00), Umuarama (R$ 1.959,00), Cornélio Procópio (R$ 1.920). E à frente de Ponta Grossa (R$ 1.892,00), Cianorte (R$ 1.868,00), São José dos Pinhais (R$ 1.824,00) e Paranavaí (R$ 1.811,00).
“A economia iguaçuense tem pouca capacidade de agregar valor, pois a nossa indústria é apenas Itaipu; não existe um setor primário nem secundário, apenas o terciário. A estrutura de concentração da renda repete o padrão brasileiro: 90% da renda é apropriada por 10% da população. E 90% da população se apropria de 10% da renda. Isso não muda a décadas”, pontua um economista, servidor público, que conversou com o H2FOZ.
“A estrutura de concentração da renda repete o padrão brasileiro: 90% da renda é apropriada por 10% da população. E 90% da população se apropria de 10% da renda.”
Relação
Para chegar aos números da renda dos moradores das principais cidades do Paraná, o jornal londrinense analisou os dados do grupo dos 10% dos municípios com maior população que concentram cerca de dois terços dos moradores do estado.
Especialistas apontam que a renda domiciliar per capita está diretamente relacionada a fatores como estrutura produtiva, nível de escolarização da população, capacidade de geração de empregos qualificados e dinamismo econômico local. Municípios que conseguem reter mão de obra especializada, diversificar sua economia e manter um mercado de trabalho ativo tendem a apresentar indicadores mais elevados.
Os dados utilizados no levantamento pelo IBGE são considerados os mais completos sobre renda já produzidos no país nesta década. Diferentemente das pesquisas por amostragem, o censo de 2022 coletou informações diretamente em todos os domicílios brasileiros, permitindo uma análise detalhada da realidade econômica de cada município. Os valores refletem a renda de 2022, período em que o salário mínimo era de R$ 1.212.
Estagnação
O estatístico Luiz Carlos Kossar analisa que os números do IBGE mostram que a desigualdade se acentuou a partir do ano 2000 com o fim do turismo de compras. “A cidade entrou num período de estagnação, a população que era de 270 mil (em 2000) ficou com 260 mil no censo de 2022, mais de 50 mil pessoas em idade ativa foram embora. Ficaram os de baixa escolaridade e qualificação profissional, atuavam e ainda continuam atuando na informalidade em razão do comércio de Ciudad del Este”, disse.
O modelo de desenvolvimento baseado no turismo e feriadões, segundo Kossar, é insuficiente para melhorar a qualidade de vida dos moradores de Foz do Iguaçu. “A maioria dos visitantes vêm para fazer compras em Ciudad del Este, fica em média de 2 a 3 dias, gasta 70% dos recursos em compras e os 30% ficam na hotelaria. Foz recebe em média 2 milhões de turistas ao ano (isto já dura mais de duas décadas) e o gasto per capita destes visitantes é de R$ 600. Este modelo baseado no turismo é insuficiente para a demanda da população em idade ativa”, aponta.
O volume de famílias atendidas pelos benefícios sociais pagos pelo governo federal corrobora com a análise de Kossar. Pelo Bolsa Família, 19,1 mil famílias recebem R$ 718,00 por mês. O auxílio gás alcança 5,4 mil famílias – em março, Foz entra no programa no programa Gás do Povo, o que deve aumentar o número de famílias atendidas. O BPC (Benefício de Prestação Continuada) – para idosos e pessoas com deficiência com renda baixa – chega a 12,1 mil pessoas e o seguro desemprego pagou R$ 75,4 milhões em 2025.
Foz está encurralada, diz Kossar

O matemático e estatístico Luiz Carlos Kossar é comumente chamado por empresários e agentes políticos para fazer pesquisas eleitorais, estudos econômicos e sociais e análise de cenários e conjunturas. Nesta entrevista ao H2FOZ, Kossar analisa o impacto dos dados levantados pelo jornal Folha de Londrina em relação a Foz do Iguaçu. “A cidade de Foz está encurralada pelo boom de desenvolvimento que ocorre com os vizinhos do Oeste (Cascavel é polo) e com o Paraguai”, disse. Acompanhe os principais trechos.
Por que a desigualdade persiste em Foz do Iguaçu como mostrado no levantamento da Folha de Londrina?
A principal razão é que a cidade ficou refém da Itaipu, que é uma fábrica de energia que não capilariza a economia da cidade. O setor do comércio não consegue concorrer com os preços de Ciudad del Este e o de serviços está em queda em razão do crescimento de Cascavel, principalmente da área de saúde. Já o setor industrial é inexistente
Qual a sua avaliação de Foz ter uma renda percapita tão baixa (14º lugar entre as grandes cidades)?
A partir do ano 2000, em razão do término do chamado turismo de compras, a cidade entrou num período de estagnação, a população que era em 2000 de 270.000 ficou com 260.000 no censo de 2022, mais de 50 mil pessoas em idade ativa foram embora da cidade. Ficaram os de baixa escolaridade e qualificação profissional, proliferaram nas periferias, atuavam e ainda continuam atuando na informalidade em razão do comércio de Ciudad del Este. Atualmente mais de 19 mil famílias vivem de auxílio (bolsa família), totalizando em torno de 100 mil pessoas.
“Este modelo baseado no turismo é insuficiente para a demanda da população em idade ativa.”
A economia de Foz do Iguaçu não reflete no aumento de renda da maioria da população, quais são as razões?
O modelo de desenvolvimento baseado no turismo e feriadões, onde a maioria dos visitantes vêm para fazer compras em Ciudad del Este, fica em média de 2 a 3 dias, gasta 70% dos recursos em compras e os 30% ficam na hotelaria. Foz recebe em média 2 milhões de turistas ao ano (isto já dura mais de duas décadas) e o gasto per capita destes visitantes é de R$ 600. Este modelo baseado no turismo é insuficiente para a demanda da população em idade ativa. A cidade de Foz está encurralada pelo boom de desenvolvimento que ocorre com os vizinhos do Oeste (Cascavel é polo) e com o Paraguai. As tais obras estruturantes podem tornar Foz de um ponto de encontro para um ponto de passagem.
Muito se fala em mudanças na matriz econômica – mas além do turismo, logística e talvez as relações comerciais com Paraguai (principalmente) e Argentina, mas essa mudança não parece superada… Qual sua opinião?
Aí entra o chamado custo país, o Paraguai tem um modelo liberal na economia, cujo custo País é bem inferior ao do Brasil. Isto está levantando o desenvolvimento de nosso vizinho. A Argentina está no mesmo caminho. Não vejo nas relações comerciais com nossos vizinhos algo que possa impulsionar a economia da cidade. Em razão do provável aumento das transações comerciais de mercadorias entre Brasil, Paraguai, Chile e Argentina fará que a logística (despachos aduaneiros) deverá trazer ganhos para cidade.
Foz do Iguaçu, ou a tríplice fronteira, já não comporta um instituto de pesquisas econômicas?
Esta é uma antiga pauta. Em 1990, sugeri ao vereador Paulo Mac Donald que enviasse um requerimento ao prefeito Álvaro Neumann para criação de um instituto de pesquisas econômicas em Foz. Se você pesquisar nos anais da Câmara Municipal, encontrará tal pedido.


