Foz tem mão de obra qualificada, mas patina na geração de empregos

Vista aérea do município, a partir da região central - Foto: Marcos Labanca

Com a expansão do polo universitário, cidade passou a formar profissionais, porém não é capaz de ofertar vagas qualificadas. Principal atividade econômica, setor turístico tem baixos salários

Reportagem: Denise Paro
Fotos: Marcos Labanca
Infográficos: Vacy Alvaro

Com a geração de empregos atrelada principalmente ao turismo, Foz do Iguaçu não consegue criar postos de trabalho em outras áreas para absorver a população jovem e aumentar o valor da massa salarial, que é de três salários mínimos para a maior parte dos funcionários formais. A cidade hoje tem três universidades públicas e cinco particulares, formando mão de obra qualificada no ensino superior, entretanto obriga boa parte da população em início de carreira a procurar outros destinos para trabalhar, o que dificulta o crescimento populacional.

A análise faz parte dos “Indicadores do Município de Foz do Iguaçu”, uma publicação da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e do Observatório Social do Brasil (OSB). O material é resultado de um projeto de extensão de cinco professores da área de ciências econômicas da Unila.

Professores do curso de pós-graduação de Políticas Públicas para o Desenvolvimento e da graduação de Ciências Econômicas da universidade, Michelle de Pintor e Gilson Batista de Oliveira avaliam que houve uma melhoria na qualificação dos trabalhadores em razão da expansão dos cursos superiores, no entanto há problemas não só para absorver a mão de obra formada como também há uma tendência de terceirização do trabalho no setor turístico, a partir da contratação de microempreendedores individuais (MEIs). “O nível de emprego na região está se recuperando, mas preocupa pelo grande número de trabalhadores contratados por MEI”, analisa Oliveira.

Conforme os professores, o setor turístico é um dos maiores geradores de MEIs. Oliveira diz que os próprios empregadores estão estimulando os funcionários a adotar o regime de microempreendedor individual para aliviar os encargos trabalhistas resultantes da formalização via CLT.

A realidade cada vez mais bate à porta dos empregados. Vilson Osmar Martins, presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Turismo e Hospitalidade de Foz do Iguaçu (STTHFI), informa que muitas vagas no setor da hotelaria não são preenchidas porque os salários são baixos e as empresas fazem contratos intermitentes, o que não interessa ao trabalhador. Em razão do descontentamento, durante a pandemia há casos de funcionários que deixaram a rede hoteleira para atuar em postos mais rentáveis.

Martins também salienta que são raras as empresas que estão contratando em regime de CLT, e os trabalhadores se sentem oprimidos por falta de legislação trabalhista que os ampare. “Alguns hotéis estão se aproveitando dessa possibilidade”, conta.

O piso da categoria nos hotéis, explica Martins, é R$ 1.680,00 para 40 horas semanais, para todas as funções, o que causa desaprovação dos trabalhadores. Contudo, funcionários de alto escalão, a exemplo de chefs internacionais e gerentes, que perfazem a minoria, podem ter salários de R$ 15 mil a R$ 20 mil.

A desvalorização dos profissionais do setor turístico é uma característica da cidade que não se reflete em outros destinos, a exemplo da Serra Gaúcha, onde, segundo os trabalhadores, a remuneração é bem melhor.

Conforme o caderno “Indicadores do município de Foz do Iguaçu, da Unila, a maior parte dos empregados no turismo ganha até dois salários mínimos. Em 2009, o percentual era de 66%; em 2019 passou para 56% (ver infográficos). Para driblar os baixos salários, algumas pessoas precisam acumular dois ou três empregos.

Entre 2009 e 2019, o número de vagas em atividades características de turismo (ACTs), de acordo com os “Cadernos”, passou de 7.587 para 12.875, um aumento de 69,70%. A maioria dos postos se refere a atividades de alojamento e alimentação.

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Incentivos

A criação de um polo tecnológico seria uma saída para diversificar a oferta de empregos e consolidar áreas de valor agregado na cidade. Por isso, é preciso propor políticas públicas a fim de estimular e atrair empresas da área de tecnologia, dizem os professores Michelle e Gilson. “É importante a política pública para as empresas terem incentivo para se instalarem no município”, ressalta Michelle.

Um dos gargalos que Foz precisa superar para consolidar um polo tecnológico é melhorar a rede de transmissão de dados, ou seja, a qualidade da internet. Para os professores, a presença do Parque Tecnológico Itaipu (PTI) não é suficiente para absorver a mão de obra formada na cidade.

Um polo tecnológico seria capaz de incluir inclusive estudantes graduados pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e instituições particulares locais, nas quais há oferta de cursos na área de tecnologia e de engenharias. A Unioeste também forma profissionais de turismo e hotelaria que têm poucas perspectivas de atuar em Foz, apesar de a cidade ser um dos mais badalados destinos do país.

Trabalhador trocou turismo por vendas

Markson Rangel: “O turismo retornou mais tímido, com menos oportunidades, e houve um achatamento do trabalho”. – Foto: Marcos Labanca

Graduado em Relações Internacionais, Markson Rangel viu no turismo uma oportunidade de emprego. Começou trabalhando em hotel e depois migrou para o cargo de operador logístico. Com a pandemia, foi demitido e hoje atua na área de serviços e vendas.

Markson tentou voltar para o setor, mas não conseguiu. Ele conta que os colegas que continuaram trabalhando como operadores começaram a enfrentar jornadas extenuantes e baixos salários. “O turismo retornou mais tímido, com menos oportunidades, e houve um achatamento do trabalho”, frisa. Boa parte dos trabalhadores que não voltaram para o segmento atua hoje como motorista de aplicativo.

Para Rangel, o turismo é um setor importante para Foz, no entanto não é tratado com a estratégia que deveria ter. “Quando tem investimento estratégico, é muito ligado à Itaipu”, salienta.

Poliglota, Eliane Renata Ferreira recebeu oferta de um salário de aproximadamente R$ 1.700 para trabalhar em hotel – Foto: Marcos Labanca

Guia de turismo, Eliane Renata Ferreira também foi obrigada a abrir uma microempresa individual para sobreviver no mercado. Ela e uma amiga passaram a oferecer atendimento personalizado ao visitante, trazendo o conceito de turismo de experiência. Eliane decidiu trabalhar em sistema de MEI depois de tentar vaga na hotelaria e em agência. Poliglota, ela fala francês, inglês e espanhol, porém recebeu oferta de um salário de aproximadamente R$ 1.700 para trabalhar em hotel. “Eles acharam que eu era muito qualificada para a vaga”, revela.

Hoje, Eliane atende, além de turistas de Foz do Iguaçu, pessoas interessadas em viajar para Bonito e para o Pantanal, ambos no estado de Mato Grosso do Sul. Mesmo estando em Foz, ela precisa vender outros destinos para sobreviver no mercado.

Para a guia, além da valorizar o trabalhador, o setor turístico da cidade também deve ofertar capacitação e treinamento.

Expansão do ensino superior qualifica professores e estudantes

De acordo com dados do Ipardes publicado no “Caderno”, Foz do Iguaçu deu um salto na geração de empregos no período de uma década, entre 2009 e 2019. Em 2009, a cidade tinha 47.185 empregos formais, a maioria na área de serviços (44%) e comércio (29%).

O setor educacional, classificado na área de serviços, ganhou impulso em dez anos. Entre 2009 e 2019, o número de vagas nesse segmento passou de 3.274 para 5.104. Essa realidade também se reflete na qualificação da mão de obra.

Em 2009, 16,49% dos trabalhadores formais da cidade tinham ensino superior completo. Em 2019, esse total subiu para 19,34%. Outro dado interessante diz respeito à qualificação dos professores. Entre 2009 e 2019, o número de postos de trabalho com mestrado e/ou doutorado saltou de 86 para 1.219, um aumento de 1.317,44%.

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Denise Paro - H2FOZ

Denise Paro é jornalista e repórter do H2FOZ. e-mail: [email protected] Veja mais mais conteúdo da autora.