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Quando o samba fala, a África responde

Muito antes do Carnaval, das fantasias e das avenidas, o samba já era encontro.

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Quando o samba fala, a África responde
No centro o músico e percursionista Raimundo Ramos dos Santos (Seu Raimundo, presidente interino da escola de samba na ocasião) homenageando o saudoso Joaquim Pedro. Ao lado Pascual e Maria da Graça acadêmicos da escola. Foto: Divulgação.

Cada vez que o surdo vibra, ressoam mais de dez milhões de vozes antigas que atravessaram o oceano Atlântico com memórias que nem o mar, nem a dor conseguiram afogar. É dessas vozes que nasce o samba.

Muito antes do Carnaval, das fantasias e das avenidas, o samba já era encontro. Era o povo negro reunido para lembrar quem é e a força que possui, mesmo quando o Brasil insistia em fazê-lo esquecer.

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Por isso, falar de samba é falar da África.

Mais do que isso, é falar da presença viva dos povos bantu, vindos da África Centro-Ocidental, especialmente das regiões que hoje conhecemos como Angola e Congo, cujos saberes ajudaram a fundar o Brasil.

A própria palavra samba guarda esse caminho. Muitos estudiosos a relacionam ao termo bantu semba, que significa umbigada, aproximação, comunhão entre corpos. E talvez por isso o samba nunca tenha sido apenas um gênero musical. Sempre foi uma tecnologia ancestral de encontro, capaz de reunir pessoas para conversar sobre a realidade, refletir sobre a vida e espantar o calundu. Outra palavra de origem bantu, do kimbundu (Angola), que originalmente se referia a rituais de cura e de comunicação com o mundo espiritual. Mas que em pretoguês (o português brasileiro) significa melancolia, tristeza ou mau humor.

A exímia educadora Azoilda Loretto da Trindade nos ensina que toda manifestação cultural de matriz africana no Brasil sustenta, pelo menos, dez valores civilizatórios afro-brasileiros como modos ancestrais de produzir conhecimento e construir humanidade. São eles: ancestralidade, oralidade, circularidade, memória, musicalidade, corporeidade, cooperação, energia vital, espiritualidade e comunitarismo.

Por isso, engana-se quem pensa que samba é apenas diversão. Samba que é samba é a roda de vida. É consciência racial e diversidade.

Quantos tipos de samba existem?

São muitos. Mais de quinze. Há o samba de roda do Recôncavo Baiano; há a roda de samba, fortalecida nos subúrbios do Rio de Janeiro, nos quintais das “tias”; há o partido-alto, o samba-canção, o samba-choro, o samba de breque, o pagode, o samba-reggae e tantos outros.

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Todos, porém, preservam algo em comum: a valorização do coletivo; a síncope rítmica, característica de muitas tradições musicais africanas; o protagonismo do corpo (na dança, nos gestos e no sorriso); a transmissão oral de conhecimentos e o respeito às pessoas negras, todas elas, mas especialmente à Velha Guarda, reconhecida como guardiã da memória e da ancestralidade.

Em Foz do Iguaçu, a tradição está no samba de terreiro, também chamado de samba de quadra: o samba das escolas de samba. Uma escola de samba é muito mais do que um lugar para preparar um desfile. É uma organização social que fortalece a comunidade durante o ano inteiro e celebra essa força na avenida com um samba-enredo.

Segundo Seu Raimundo (o músico e percussionista Raimundo Ramos dos Santos), o samba de terreiro em Foz tem muita história para contar. Nas lembranças, permanecem escolas como Clara Guerreira, Unidos do Maracanã e Império das Cataratas.

“São muitas lembranças bonitas dos antigos carnavais. Foz do Iguaçu possui uma Velha Guarda que merece ser conhecida e celebrada. O Carnaval em Foz já saiu até de dentro do Exército Brasileiro, do campo do 34 Batalhão de Infantaria Mecanizado da cidade. Mas a única escola de samba sobrevivente, resistente, que continua exercendo seu papel junto à comunidade até hoje é, realmente, a Mocidade Unida do Porto Meira.”

Para Mãe Edna de Baru, yalorixá do Ilê Baru, idealizadora do evento Roda de Samba do Ilê Baru, que em apenas três anos chega à sua 26ª edição, o samba é riqueza e alegria:

“Eu cheguei em Foz de Iguaçu no final dos anos 80 e pude acompanhar a escola de samba Clara Guerreira. Também tive a honra de vivenciar os sambas inesquecíveis da saudosa Tia Maria. Vi o carnaval ser realizado na terceira pista da Av. JK. Tenho também lembranças dos carnavais do Floresta Club. Quem viveu conheceu nossa Rainha do Carnaval Carmen Miranda, o Rei Momo Walmor Maciel, as maravilhosas cantoras Luana e Graça entre tantas outras pessoas que fizeram história. A Roda de Samba do Ilê é uma forma de retomar a alegria e o bem viver daqueles tempos. E tem sido maravilhoso!”  

Mas o que é a Velha Guarda do samba?

Esse é outro ensinamento precioso do samba: a reverência aos mais velhos.

Nas tradições africanas, quem envelhece não perde importância; torna-se guardião da memória coletiva. A Velha Guarda não representa apenas aqueles que chegaram primeiro. Representa continuidade, ancestralidade e compromisso com o futuro. É uma verdadeira tecnologia de preservação da memória.

Por isso, quando a bateria interrompe o toque para aplaudir a chegada de um sambista da Velha Guarda (seja da Bahia, do Rio de Janeiro ou de uma comunidade vizinha), quando lhe entrega o microfone ou simplesmente silencia para ouvir suas histórias, aprendemos uma lição africana que nenhum manual ensina: um povo só constrói futuro quando reverencia quem carrega sua memória.

Onde conhecer as histórias do samba de Foz do Iguaçu?

No dia 1º de agosto, às 14h30, haverá uma excelente oportunidade durante o evento Roda de Samba do Ilê Baru: o bate-papo “O Samba como Patrimônio, Memória e Resistência Cultural na Fronteira”.

A conversa antecede a outras apresentações culturais e o samba da noite costuma reunir sambistas e outros grupos, deliciosos quitutes e caldos, cerveja e caipirinhas. Estão confirmadas as presenças de Mãe Edna e de Mestre Rubinho, presidente da Mocidade Unida do Porto Meira. Com mediação de Flávia Dorneles. Um encontro para quem deseja ouvir quem construiu, e continua construindo, a história do samba na cidade.

Para participar das atividades do dia, é necessária a aquisição antecipada de ingresso. O bate-papo integra o projeto Encontros de Orí – Experiências Ancestrais e Rotas Negras da Fronteira, realizado pela ASCAF (Associação da Segurança e Cultura Ambiental de Foz do Iguaçu),que chega à sua quarta edição e que acontece entre os dias 30 de julho e 2 de agosto.

Um convite para escutar as vozes que a história oficial tantas vezes tentou silenciar. Afinal, quando o samba fala, a África responde.

Mais informações sobre o evento: https://www.instagram.com/rotasnegrasdafronteira

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    Flávia Dorneles

    Flávia Dorneles

    Flávia Dorneles é escritora, atriz, tradutora, educadora e pesquisadora da CAPES. Mestre em Letras Neolatinas pela UFRJ e doutoranda em Práticas Linguísticas, Culturais e de Ensino pela UNIOESTE/Cascavel, atua nas áreas de educação antirracista, letramento racial, cultura, diversidade, equidade e inclusão.

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